Brasil x Noruega e a crise da imaginação nacional

Por Richard Santos06/07/2026 às 15:470 visualizações
Bruno Guimarães perde pênalti que colocaria Brasil na frente do placar
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Brasil de Fato

A eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega encerra mais do que a participação do Brasil na Copa do Mundo de 2026. Ela interrompe uma experiência rara na sociedade brasileira contemporânea: a possibilidade de milhões de pessoas voltarem a imaginar-se pertencentes a uma mesma comunidade. Durante algumas semanas, a camisa amarela deixou de ser o símbolo de um único campo político para recuperar parte de seu significado nacional. O fim da campanha brasileira recoloca uma pergunta que ultrapassa o futebol: por que ainda conseguimos imaginar o Brasil durante uma Copa do Mundo, mas encontramos tanta dificuldade para fazê-lo na política?

Independentemente do resultado da partida, esta talvez seja a principal questão colocada ao Brasil em 2026. Vivemos um ano singular. A Copa do Mundo acontece em meio a uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história recente e, ao mesmo tempo, é realizada em um espaço geopolítico marcado por profundas contradições. Sediado conjuntamente por México, Canadá e Estados Unidos, o torneio convive com o endurecimento das políticas migratórias, denúncias recorrentes de racismo e xenofobia e a militarização das fronteiras. Como procurei argumentar em artigo anterior, publicado no Brasil de Fato, trata-se de uma Copa disputada entre a celebração da integração global e a persistência daquilo que denominei de fronteira imperial.

No Brasil, entretanto, a principal fronteira talvez seja outra. Ela não separa apenas territórios. Ela separa imaginários!

Há mais de quarenta anos, Benedict Anderson mostrou que as nações modernas são comunidades imaginadas. Elas existem porque pessoas que jamais se encontrarão acreditam compartilhar uma mesma história, um mesmo destino e um mesmo horizonte político. Essa imaginação nunca foi espontânea; foi construída por instituições, pela escola, pela imprensa, pela cultura e por símbolos nacionais capazes de produzir pertencimento.

Hoje, porém, a questão parece inverter-se. O problema brasileiro talvez já não seja como imaginar uma comunidade nacional, mas por que estamos deixando de imaginá-la.

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É nesse ponto que a reflexão de Christian Dunker se torna decisiva. Ao analisar a lógica do condomínio, Dunker mostrou como a sociedade brasileira passou a organizar-se em torno da fragmentação, da administração do medo e da construção permanente de muros materiais e simbólicos. Gostaria, contudo, de deslocar essa reflexão para outro terreno. Mais do que uma sociedade de condomínios, talvez estejamos nos tornando uma sociedade incapaz de imaginar um projeto comum. Será que não?

A Copa do Mundo revela que essa capacidade não desapareceu, ela tornou-se intermitente. Durante algumas semanas, voltamos a vestir a mesma camisa, cantar o mesmo hino, ocupar as mesmas ruas e experimentar alegrias e frustrações comuns. A comunidade nacional reaparece. Terminado o torneio, retornamos rapidamente aos nossos pequenos territórios políticos, institucionais e identitários. É importante observar que não é apenas a direita que vive esse processo, e tampouco apenas a esquerda. Ele atravessa partidos, movimentos sociais, sindicatos, universidades, organizações empresariais e também os movimentos negros.

Multiplicam-se lideranças capazes de administrar seus próprios espaços de influência, porém, cada vez mais raras são aquelas capazes de construir maiorias políticas.

É aqui que proponho uma hipótese para interpretar o Brasil de 2026.

A crise da democracia brasileira não decorre apenas da polarização, enquanto pessoa negra não recordo de ter vivido um país não polarizado! Ela resulta da fragmentação da própria imaginação nacional. A comunidade imaginada descrita por Benedict Anderson vem sendo substituída por uma multiplicidade de pequenos pertencimentos, cada qual organizado em torno de seus próprios símbolos, lideranças e fronteiras. Christian Dunker descreveu essa racionalidade como a lógica do condomínio. Talvez possamos dizer que ela produziu uma verdadeira sociedade condominial.

Essa hipótese ajuda a compreender também um problema que venho discutindo a partir do conceito de Maioria Minorizada. A população negra constitui a maioria demográfica do país, mas continua enfrentando obstáculos históricos para converter essa maioria social em hegemonia política. Evidentemente, o racismo estrutural permanece sendo elemento central dessa explicação. Mas talvez não seja o único. A fragmentação crescente da imaginação nacional dificulta a construção de alianças duradouras e transforma diferenças legítimas em disputas permanentes por reconhecimento, visibilidade e representação.

A eleição presidencial, mas também para o executivo estadual, deste ano, portanto, não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Ela colocará em disputa diferentes narrativas sobre o que significa ser Brasil. Nesse sentido, análises que procuram antecipar vencedores definitivos talvez ignorem justamente a característica mais importante da conjuntura atual: sociedades fragmentadas tornam-se menos previsíveis porque perderam parte dos mecanismos capazes de produzir consensos.

Talvez seja essa a maior lição da Copa de 2026. O futebol não resolve nossas desigualdades, não elimina o racismo nem substitui a política. Mas continua lembrando que a experiência da comunidade ainda é possível. Nenhum país se sustenta apenas por instituições ou fronteiras. Ele depende, sobretudo, da capacidade de seus habitantes imaginarem que compartilham um destino comum.

Quando termina uma Copa do Mundo, permanecem apenas os resultados esportivos. Quando termina uma eleição, permanecem as escolhas políticas. Mas aquilo que decidirá o futuro do Brasil talvez esteja em outro lugar: na capacidade de voltarmos a imaginar o Brasil como um projeto coletivo. Porque países não são condomínios. Países são comunidades históricas em permanente construção. E talvez o maior desafio de nosso tempo seja justamente impedir que os muros da política se tornem mais fortes do que a imaginação da própria nação.

*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato RJ.

Fonte
Brasil de Fato
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