‘Caminhos Literários’: adolescentes do sistema socioeducativo se apresentam em tarde de emoção, crítica social e hip-hop

Por ULYSSES MAGNO BARROS DE SOUSA06/07/2026 às 17:500 visualizações
Representantes das entidades parceiras da iniciativa no Ceará
Representantes das entidades parceiras da iniciativa no Ceará
TJCE

As cortinas do Teatro Carlos Câmara, no Centro de Fortaleza, se abrem. Microfone em mãos, surge das coxias Lorena*, que se posiciona e dá início ao cerimonial de mais uma atividade da 5ª edição do projeto Caminhos Literários, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que promove a aproximação entre jovens do sistema socioeducativo e a cultura, possibilitando que eles trilhem novos caminhos por meio do contato com práticas artísticas.

Com fluidez, Lorena apresenta o evento. Caminha pelo teatro, convoca anfitriões, declama poesias e interage com a plateia de cerca de 40 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa que participam do encontro, na tarde desta sexta-feira (03). Como quem já fez do palco casa, a jovem, de 16 anos, também em cumprimento de medida socioeducativa, revela que a possibilidade de se expressar por meio da arte e da comunicação tem transformado a sua vida.

“Isso aqui é uma oportunidade que abre inúmeras portas para nós do socioeducativo. A gente é chamado para outros eventos, fica bem visto pelas pessoas e aí acaba aquele pensamento de que nós, que estamos no socioeducativo, não temos mais jeito”, detalhou a adolescente, lembrando que já foi chamada em outra ocasião para apresentar uma solenidade ligada ao governo estadual.

O evento apresentado pela jovem celebra a cultura hip-hop como ferramenta de promoção de direitos, com o tema “Resistir em batida, verso, corpo e traço”. Durante o momento no teatro, foram levados ao palco pelos adolescentes os elementos do hip-hop, a exemplo do rap por meio do qual os jovens transformaram suas histórias de vida em poesia musicada, exaltando transformação, recomeço e oportunidades.

Um desses momentos foi protagonizado por Rafael*, Carlos* e Tiago*, que apresentaram rap compartilhando suas trajetórias de vida: as idas ao campinho de futebol, a paixão pela bola, o atravessamento pelo tráfico de drogas e os sonhos que resistem em meio à violência e à desigualdade social. “Eu ia pro campinho, sempre quis jogar bola, mas infelizmente me ensinaram a vender droga”, diz parte da poesia musicada pelo jovem.

Representantes das entidades parceiras da iniciativa no Ceará
Representantes das entidades parceiras da iniciativa no Ceará
Representantes das entidades parceiras da iniciativa no Ceará

O juiz coordenador do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e de Execução de Medidas Socioeducativas (GMF) do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), Epitácio Quezado Cruz Junior, avalia os frutos gerados pela iniciativa e salienta que o projeto reforça o papel do Poder Judiciário não apenas como um ente punitivo, mas que possui um caráter transformador em um sentido mais amplo. “São momentos em que os jovens estão fazendo algo que eles não estavam acostumados a fazer, que muitas vezes não tiveram a oportunidade de ter. Muitas vezes, esses adolescentes se encontram nessas atividades ligadas à cultura, arte e educação, o que permite que eles saiam do sistema socioeducativo para ter uma vida transformada”, destacou.

O superintendente do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas), Marçal Cunha, corroborou a relevância da medida do CNJ para proporcionar novos olhares e perspectivas aos jovens. “As ações de arte, cultura, esporte e lazer são fundamentais na vida desses jovens para que se crie uma nova perspectiva e uma expectativa melhor de vida, para que quando eles saiam do socioeducativo, consigam se engajar e ter novo propósito”, pontuou.

Promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no âmbito do Programa Fazendo Justiça, a iniciativa conta com a parceria da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE) e Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas), integrando o Judiciário e o poder público para garantir que adolescentes que respondem por atos infracionais possam ter experiências que estimulem sua criatividade e permitam outros olhares sobre a vida.

Jovem beneficiado pela inicitiva
Jovem beneficiado pela inicitiva
Jovem beneficiado pela inicitiva

PROGRAMAÇÃO

A programação foi aberta nessa quinta-feira (02/07), de forma remota, pelo canal do CNJ no YouTube, com a palestra magna “Do Beat à Palavra”. Clique AQUI para conferir.

O projeto será retomado nos dias 7 e 8 de julho, de forma remota, com painéis culturais, oficinas e apresentações produzidas pelos próprios jovens, incentivando o protagonismo juvenil e a troca de experiências entre as unidades de diferentes estados brasileiros. Esta programação será destinada a adolescentes, profissionais dos Centros Socioeducativos e instituições parceiras.

O “Caminhos Literários” integra ações desenvolvidas no âmbito nacional para garantir direitos das pessoas em desenvolvimento em cumprimento de medida socioeducativa, utilizando a cultura como instrumento de inclusão e transformação social.

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