Da conquista da terra à justiça climática: olhares agroecológicos frente às mudanças no clima

Por Agroecologia e Democracia06/07/2026 às 19:370 visualizações
Pesquisadoras e pesquisadores estudam o Método Lume em Oficina de Formação
Pesquisadoras e pesquisadores estudam o Método Lume em Oficina de Formação
Brasil de Fato

Encontro na Zona da Mata Mineira reflete sobre o papel da agroecologia diante do desequilíbrio climático 

As janelas de madeira pintadas de azul intenso contrastam com as paredes amarelo-mostarda da sede do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), em Viçosa (MG), fazendo moldura para o verde do lado de fora. “Para muita gente, pode ser só mato. Para nós, com o olhar da agroecologia, é um SAF”, diz Paulo Petersen, apontando para onde existe um Sistema Agroflorestal (SAF) em meio a uma área preservada de Mata Atlântica. A cena aconteceu durante um encontro da pesquisa-ação “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), entre os dias 10 e 12 de junho.

Ali, outras cores e olhares ajudavam a compor a paisagem. No centro da sala, onde acontecia a atividade, estavam potes com sementes crioulas, bandeiras de movimentos sociais, publicações e adesivos: um mosaico de lutas que fazem parte da agroecologia. Em volta, participantes dispostos em círculo, vindos de todas as regiões do país, anunciavam a proposta do encontro: compartilhar experiências, fortalecer vínculos e produzir conhecimentos de forma coletiva sobre soluções diante das mudanças climáticas.

A formação se deu em torno do Método de Análise Econômico-Ecológica de Agroecossistemas, o Método Lume, que orientará os trabalhos da iniciativa nos próximos meses. A proposta parte de diferentes perspectivas de quem vive nos territórios para compreender os sistemas agroecológicos. Entre uma fala e outra, um abaixo-assinado contra o despejo de esgoto não tratado no curso d’água que atravessa o terreno do CTA passava de mão em mão e recebia adesões. A situação ilustrava justamente o que estava em debate: a necessidade de ter um enfoque sistêmico durante os estudos.

É que as experiências agroecológicas estão inseridas em contextos, sofrem com impactos de problemas locais, a exemplo do esgoto sem tratamento, mas também globais, como a alta do preço do petróleo diante de guerras. “Mas cada comunidade tem um contorno, tem uma identidade. É preciso entender os fluxos que fazem seus sistemas alimentares funcionarem. Vamos construir aqui a memória coletiva de diferentes territórios. Um sistema não é estático, ele é dinâmico, é vivo”, disse Paulo.

Além dos momentos de formação realizados em Viçosa, a programação do encontro incluiu visitas a duas comunidades da Zona da Mata Mineira, uma região que é referência para a agroecologia no país. Os intercâmbios promovidos nos municípios de Muriaé e Araponga permitiram conhecer experiências que demonstram como a agroecologia fortalece a autonomia de famílias, cuida da biodiversidade e amplia a resiliência dos territórios diante dos impactos das mudanças climáticas.

Araponga: tudo começa pela conquista da terra

Agroecologia em Araponga é resultado de décadas de organização comunitária
Agroecologia em Araponga é resultado de décadas de organização comunitária — Luana Mota
Agroecologia em Araponga é resultado de décadas de organização comunitária. Foto: Luana Mota.

Parte da turma viajou até a comunidade do Córrego São Joaquim, em Araponga, onde foi recebida por agricultoras e agricultores na Escola Família Agrícola (EFA) Puris. Na ocasião, houve a elaboração de uma linha do tempo com base no relato sobre os avanços e os desafios enfrentados no local. Ali, a agroecologia é resultado de décadas de organização comunitária desde a conquista coletiva da terra, no final dos anos 1980. 

Devido à exploração nas grandes propriedades rurais, as famílias agricultoras passaram a se organizar por meio do sindicato de trabalhadoras e trabalhadores rurais. A mobilização foi fundamental para viabilizar a compra das terras e para transformar, com persistência e solidariedade, a paisagem degradada. Plantios de milho, feijão, hortaliças, cana-de-açúcar, frutas e o café, tão presente na Zona da Mata Mineira, foram incorporados.

Mas, ao longo dos anos, a contaminação por agrotóxicos e a mineração passaram a ameaçar o território. Diante desse cenário, Maria Rosânia Lopes Duarte, diretora da EFA Puris, destaca a importância de uma educação adaptada à realidade da comunidade, permitindo que as juventudes estudem sem romper os vínculos com a agricultura familiar. “A educação é um dos espaços mais férteis para construir agroecologia”, diz. Para ela, essa também é uma estratégia para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. “A juventude aprende formas alternativas de cultivo, mostrando que é possível sobreviver e melhorar o planeta, sobreviver sem destruir. Plantando, preservando nossas sementes, dá para recuperar o que foi destruído”, avalia.

Maria Rosânia, diretora da EFA Puris, destaca a importância da escola para o território
Maria Rosânia, diretora da EFA Puris, destaca a importância da escola para o território — Luana Mota
Maria Rosânia, diretora da EFA Puris, destaca a importância da escola para o território. Foto: Luana Mota.

O agricultor Donizete Lopes relata que as alterações no clima já fazem parte do cotidiano das famílias. “De setembro a março, tinha calor e chuva, era época de plantação. Hoje, o calor e a chuva não têm época”, afirma. Ele também conta que várias aves se tornaram raras, incluindo a Araponga, que dá nome ao município.

Assim como Maria Rosânia, Donizete defende a agroecologia diante do “clima estressado”. “Quando o planeta esquenta, muitas coisas saem do controle. A agroecologia faz com que elas voltem a funcionar. Ela tempera o clima”, diz. Ele explica, ainda, que o trabalho inclui cuidar da vegetação: “Acho que a gente, um pequeno grupo, está fazendo uma grande coisa: está plantando árvores e cuidando das nascentes”.

Belisário: a defesa da serra sagrada

A outra metade da turma foi até Belisário, no município de Muriaé, sendo recebida na Vila Franciscana. Logo na entrada, a mensagem em uma placa de madeira chama a atenção: “Nossa missão é defender a vida”. Ao lado, há uma fonte d’água compartilhada com quem passa à beira da estrada. Durante a atividade, as pessoas contaram histórias que unem espiritualidade, agroecologia e resistência à mineração no território.

Um dos principais efeitos das mudanças climáticas percebidos pela comunidade é a alteração no regime das chuvas. A agricultora Lourdes Calais destacou a diminuição da produção de alimentos, com destaque para o arroz, tradicionalmente cultivado em áreas alagadas. Ela contou que, há mais de 20 anos, sua família trabalha para o reflorestamento e a recuperação de nascentes no sítio onde vivem. “Se não tivéssemos feito esse trabalho, hoje não teríamos água nem para beber”, afirma.

Espiritualidade, agroecologia e resistência à mineração fazem parte da trajetória do território
Espiritualidade, agroecologia e resistência à mineração fazem parte da trajetória do território — Gilka Resende
Espiritualidade, agroecologia e resistência à mineração fazem parte da trajetória do território. Foto: Gilka Resende.

“A água foi acabando por conta do desmatamento. Terrenos que tinham cultivos ficaram com criação de gado. Desmataram e plantaram eucalipto, e aí a água foi diminuindo”, relata a agricultora, lembrando que os rios da região “eram mais fartos”. “Na época das águas, chovia o mês todo. Hoje não vemos mais isso. A chuva vem desordenada. Em poucas horas, a quantidade de água que desce é muita. O clima está caducando”, disse.

Assim como Araponga, Belisário fica no entorno do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, região de Mata Atlântica ameaçada pela extração de bauxita, em especial. Jean Carlos, da Fraternidade dos Franciscanos de Santa Maria dos Anjos, explica que, embora hoje não exista um megaprojeto de mineração na Serra, o território permanece cercado por essa ameaça desde meados dos anos 2000. Foi nesse contexto que surgiu a Comissão Regional de Enfrentamento à Mineração na Serra do Brigadeiro, que envolve sindicatos, organizações e movimentos sociais. “A mineração só não avançou sobre o território graças à mobilização coletiva”, afirma.

Mas a resistência vai além da denúncia: ela também acontece na permanência das famílias no território, fortalecida “pela agroecologia, pela agricultura familiar, pelo turismo, pela cultura”. “A gente costuma dizer que essa é a luta de retaguarda”, pontua ele, reforçando que a Serra é considerada um território sagrado. “É dela que nascem os alimentos, as festas, as tradições e a própria identidade das comunidades”, afirma Jean. Assim como Lourdes, ele também observa os impactos das mudanças climáticas. As temperaturas mais altas têm alterado o ciclo da cultura de café: a florada ocorre em épocas incomuns e a produtividade vem diminuindo. 

Pesquisa-ação aborda diferentes categorias de análise
Pesquisa-ação aborda diferentes categorias de análise — Gilka Resende
Pesquisa-ação aborda diferentes categorias de análise. Foto: Gilka Resende.

Diante desse cenário, Jean conta que as comunidades têm discutido formas de adaptação, como a implantação de SAFs , com árvores que possam levar sombra aos cafezais, reduzir a temperatura e fortalecer a resiliência da produção. Na Vila Franciscana, o café é cultivado acima de 700 metros de altitude. A produção é artesanal, sem uso de agrotóxicos e com adubação feita com compostos orgânicos produzidos pela própria comunidade. “Nossa vivência e sobrevivência passam pela Serra”, afirma Jean, explicando que cuidar do território significa “cultivar uma relação harmoniosa com a Mãe Terra, transformando a espiritualidade em gestos concretos de proteção da natureza”.

O caminho segue nos territórios

Em Araponga e Belisário, a justiça climática não aparece apenas como um conceito. Ela ganha forma no cotidiano dos territórios, nas escolhas sobre como produzir alimentos e proteger a biodiversidade. Esse cuidado com a construção coletiva de saberes foi reafirmado durante o encontro na Zona da Mata Mineira.

“Por princípio, a pesquisa-ação tem que acontecer no território, em conexão com as pessoas que vivem ali e que estão constantemente produzindo conhecimento”, explica Helena Lopes, integrante do Grupo de Trabalho (GT) Justiça Climática e Agroecologia da ANA, pesquisadora da Fiocruz e uma das coordenadoras da iniciativa. Ela reforça que a reflexão coletiva é a base para construir uma metodologia comum e, ao mesmo tempo, capaz de dialogar com as singularidades de cada lugar.

Após intercâmbio em MG, segunda etapa da iniciativa ocorre em escala comunitária
Após intercâmbio em MG, segunda etapa da iniciativa ocorre em escala comunitária — Luana Mota
Após intercâmbio em MG, segunda etapa da iniciativa ocorre em escala comunitária. Foto: Luana Mota.

O encontro marca o início da segunda etapa da pesquisa-ação. Agora, os estudos continuam em Minas Gerais, mas também na Terra Indígena Cachoeirinha (MS), no Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande (PA), no Kilombo Monjolo (RS) e na Região Metropolitana do Recife (PE). Pesquisadoras e pesquisadores retornaram a seus territórios levando novas reflexões e aprendizados para a continuidade dos trabalhos.

Mais do que registrar experiências, a pesquisa-ação busca compreender e demonstrar que a agroecologia apresenta soluções diante das mudanças do clima. “As experiências são muitas e diferentes nos territórios, mas elas apontam para um caminho que é comum, de construção da agroecologia, de enfrentamento das desigualdades e de promoção da justiça climática”, conclui Helena.

Texto: Gilka Resende. Colaboração: Luísa Melgaço e Luana Mota.

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Brasil de Fato
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