Milhões de iranianos acompanham o cortejo fúnebre do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, assassinado em 28 de fevereiro deste ano, mesmo dia em que Estados Unidos e Israel bombardearam o país, dando início a uma guerra. A estimativa oficial é de que cerca de 20 milhões de pessoas tenham ido se despedir do aiatolá.
Além de prestar homenagens a Khamenei, a multidão também aproveitou para protestar contra o governo Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O secretário de Segurança Nacional do Irã, Mohammad Baqer Zolqadr, afirmou que a população clama por “resistência e vingança“. “Mantenham os olhos fixos no Irã nos próximos dias. Este é o mesmo Irã que vocês pensaram que poderiam derrubar em questão de dias”, em clara alusão às declarações de Trump após iniciar o conflito.
Segundo o analista internacional Henrique Gomes, doutorando na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a presença massiva da população no velório é uma clara demonstração de apoio às instituições iranianas. Além disso, Gomes afirma que, embora o acordo de paz entre Irã e EUA ainda não tenha sido oficializado, as negociações estão bem próximas do fim e, por essa razão, o velório foi realizado agora.
“A gente já está em um estado de cessar-fogo, tem visto menos notícias sobre o conflito. É justamente para encerrar esse ciclo que acredito que as autoridades do Irã marcaram os eventos fúnebres. E as imagens impressionam: no país inteiro, multidões estão indo às ruas para lembrar a passagem do aiatolá, que foi morto no início do conflito. E é claramente uma demonstração de força do regime iraniano, do regime teocrático vigente no país”, afirma.
As imagens, segundo o analista, refutam a narrativa ocidental vigente, especialmente defendida pelos Estados Unidos. “A narrativa foi desmontada, pois não existe essa questão uniforme de que é apenas um regime autoritário que não tem respaldo popular. Pelo contrário, tem muito respaldo popular. Existem, sim, grandes divergências que podem até ser suprimidas, já que a liberdade de expressão não é um forte do Irã. Mas existe grande apoio popular, ainda mais após um conflito que os Estados Unidos e Israel iniciaram gratuitamente. O Irã não atacou diretamente os Estados Unidos. O Irã tem seu problema com Israel, isso é verdade. Mas o ataque direto dos Estados Unidos e Israel no território iraniano, com todas as vítimas, todos os problemas econômicos e sociais decorrentes disso, fez com que a população demonstrasse apoio ao regime, porque é o regime que os está defendendo”, analisa Gomes.
Henrique Gomes não acredita que a multidão nas ruas possa tensionar as relações entre Irã e EUA e complicar o processo de paz. Contudo, o futuro mais distante segue incerto. “Acredito que esse conflito de 2026 possa se encerrar, mas a deixa para novos conflitos. A população iraniana vai alimentar um revanchismo. Isso é a semente para novos conflitos. E o sentimento antiamericano, que já era fortíssimo no Irã, agora é ainda maior, ainda mais anti-Israel também. Um desejo pessoal de eliminar os líderes desses países”, avalia.
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