O placar da 6×1

Por Nina Fideles06/07/2026 às 20:353 visualizações
Centenas de manifestantes fecharam uma das pistas da avenida Paulista pelo fim da escala 6x1.
Centenas de manifestantes fecharam uma das pistas da avenida Paulista pelo fim da escala 6x1.
Brasil de Fato

A discussão sobre o fim da escala 6×1 escancara muito mais sobre o Brasil do que a própria jornada de trabalho. A resistência feroz à aprovação da PEC na Câmara, que representa avanço inédito em nossa história constitucional, remonta à formação do país. Os resquícios da escravidão estão inscritos não apenas na estrutura econômica, mas na cultura e no imaginário social de uma nação que naturalizou seus abismos.

O sociólogo Jessé Souza, em “A Elite do Atraso”, demonstra como a lógica da escravidão moldou as estruturas mais profundas do Brasil e ainda as governa. Essas estruturas operam a serviço de uma parcela da população que condena a outra à incapacidade de imaginar outro modelo de sociedade. Uma elite que não consegue imaginar o ponto de vista de quem a serve. É o que explica por que parte do país não apenas aceita a 6×1, mas a defende, sem qualquer constrangimento, do microfone aos palanques e parlamentos.

Os argumentos dos opositores são, no mínimo, desconcertantes. Como a declaração da diretora-executiva jurídica da Fiesp, Luciana Nunes Freire, feita na última quarta-feira (1º), durante audiência pública no Senado. A fala expõe a capacidade argumentativa de quem defende a não redução da jornada: individual, mesquinha e ignorante.

“Eu trabalho 5×2 e, aos sábados, qualquer mulher que está nesse plenário, que está no centro urbano ou que está numa comunidade, vai ao salão de cabeleireiro. E vai estar fechado aos sábados para nos atender? […] Aos domingos eu abasteço o supermercado, busco comida para minha família, compro remédio para minha mãe. Vai estar tudo fechado aos domingos para mim? É certo isso?”

A ignorância tem a qualidade de não se reconhecer. Reserva aos ignorantes um lugar inabalável de suas próprias convicções, um mundo que comporta o que a cognição permite. E essa lógica se aplica a quem se acostumou a ser servido, a despeito da vida do outro.

É exatamente isso que a fala da diretora da Fiesp revela. Uma pessoa que trabalha 5×2, frequenta o salão aos sábados e abastece o supermercado aos domingos vai ao Senado defender que outra pessoa, aquela que a atende, lhe serve, que abre o salão antes que ela chegue e fecha depois que ela vai embora, continue trabalhando seis dias por semana. E não enxerga contradição alguma nisso.

O direito ao tempo

Karl Marx oferece uma base precisa para compreender o que está em disputa quando a pauta é o tempo dedicado ao trabalho. Para Marx, o tempo livre, aqui entendido como aquele que excede a mera reprodução material da vida e a produção de mais-valia, não é conforto nem recompensa. É a condição fundamental para o desenvolvimento humano e exercício de suas subjetividades. É no tempo do não-trabalho que o ser humano lê, contempla, cria e participa.

Uma sociedade que reduz o trabalhador ao tempo produtivo bloqueia, de forma seletiva e a favor da manutenção de privilégios, a formação de seres humanos capazes de construir novas formas de organização. Reduzir a jornada é também uma questão de emancipação coletiva e é a luta de classes em sua forma mais concreta.

Sem tempo livre, o trabalhador não apenas se cansa, ele aprofunda uma alienação já existente. Não há espaço para contemplar a própria realidade, para compreender o que lhe foi tirado ou o que poderia ser almejado. E, sem essa consciência, não há indignação. O que a escala 6×1 produz, portanto, não é apenas um corpo exausto, mas um sujeito incapaz de perceber a própria condição e que imputa a si, somente a si, a responsabilidade sobre as condições injustas de sua realidade.

A escala 6×1, para além de uma jornada excessiva, é um mecanismo de produção de corpos e mentes impedidos de se tornarem plenos e de movimentarem as estruturas da sociedade. Não é uma ideia irrealizável romper com isso, mas é importante dizer que não resolverá todas as contradições do mundo do trabalho. É um passo. E, por estar sendo debatida em período eleitoral, eleva o placar a favor, mas não garante sua compreensão.

A aprovação da PEC e a mudança da Constituição brasileira rompem com uma ideia de imutabilidade. Demonstram que é possível avançar, passo a passo e por meio da luta da classe trabalhadora.

Fonte
Brasil de Fato
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