A luta por direitos, memória e reconhecimento da população LGBTI+ ocupou o plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre na noite desta segunda-feira (6). Em alusão ao Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, a vereadora Natasha Ferreira (PT) promoveu a primeira entrega da Medalha Rio Grande do Orgulho, honraria que reconheceu cerca de 150 ativistas, pesquisadores, artistas, comunicadores, lideranças comunitárias e representantes de diferentes regiões do Rio Grande do Sul que dedicam suas trajetórias à defesa da diversidade e ao combate à discriminação.
A cerimônia foi marcada pela emoção diante da morte da ativista travesti Marcelly Malta Lisboa, uma das maiores referências da luta pelos direitos da população LGBTI+ no estado e no país, falecida no último sábado (4), aos 75 anos. A primeira medalha da noite foi dedicada à militante, homenageada in memoriam. A programação também contou com a primeira apresentação de Ballroom da história do Legislativo porto-alegrense.
A diversidade dos homenageados refletiu diferentes frentes de atuação do movimento LGBTI+ gaúcho, reunindo pessoas da Capital e do interior, representantes de organizações sociais, profissionais da saúde, educação, cultura, comunicação, movimentos religiosos inclusivos e agentes públicos.
Para Natasha Ferreira, a medalha representa o reconhecimento de uma militância construída coletivamente em diferentes territórios. “Conseguimos fazer 150 medalhas, muito em função do espaço da Câmara. São ativistas das mais diversas áreas, pessoas de Porto Alegre e também do interior do estado. Reunimos pessoas trans, negras, mulheres lésbicas e tantas outras lideranças que constroem essa luta diariamente.”
Segundo a vereadora, reconhecer quem atua fora da Capital também fortalece os movimentos locais. “Quando uma pessoa recebe uma honraria aqui em Porto Alegre, entende que a luta realizada na sua cidade está em sintonia com a nossa. Esse reconhecimento fortalece quem muitas vezes enfrenta uma realidade ainda mais difícil no interior.”
A parlamentar lembrou que a cerimônia precisou ser transferida para julho por questões de agenda da Câmara, mas avaliou que a mudança também reforça a necessidade de manter o debate sobre direitos da população LGBTI+ durante todo o ano.
“É importante que a gente não fale da nossa pauta apenas em junho. Precisamos continuar discutindo direitos, cidadania e políticas públicas todos os meses”, disse.

Legado de Marcelly Malta
A homenagem à ativista Marcelly Malta deu o tom da cerimônia. Reconhecida nacionalmente por sua atuação em defesa da população trans e travesti, Marcelly dedicou décadas à organização política do movimento LGBTI+ e tornou-se referência para diferentes gerações de militantes.
Ao lembrar da ativista, Natasha Ferreira destacou que sua trajetória continuará inspirando a luta por direitos. “Hoje Marcelly seria homenageada aqui. Ela deixou um legado muito grande que continuará sendo reivindicado por muito tempo pela comunidade LGBT, especialmente pelas pessoas trans.”
Como forma de preservar essa memória, a vereadora protocolou, no mesmo dia, um projeto de lei propondo a instalação de um monumento em homenagem à ativista no Parque da Redenção.
“A história da nossa cidade não pode ser contada sem Marcelly Malta. Ela abriu caminhos quando quase ninguém ousava existir. Transformou dor em organização política, acolheu gerações de pessoas trans e ajudou a construir uma Porto Alegre mais democrática. O monumento é uma forma de garantir que sua memória permaneça viva para as próximas gerações”, disse.

Ao falar na tribuna, Natasha Ferreira afirmou que a luta da população trans vai muito além das disputas simbólicas frequentemente colocadas no debate público. “Eu sei o quanto uma clínica trans salva vidas. Eu sei o quanto o emprego salva vidas. Eu sei o quanto dignidade, moradia e acesso a direitos salvam as nossas vidas, porque nós não estamos seguros em nenhum lugar.”
Ela também criticou os ataques promovidos por parlamentares da extrema direita e afirmou que não aceita que a pauta trans seja reduzida ao debate sobre banheiros. “Eu brigo dia após dia contra a extrema direita porque não aceito que me resumam a banheiro. A gente não luta para usar banheiro. A gente luta para viver. Quando se trata de vida, os nossos corpos são inegociáveis.”
Ao encerrar sua fala, reforçou a importância da organização coletiva: “Não é possível achar que a extrema direita tem capacidade de nos vencer. Eles não têm”.
Histórias de quem constrói direitos
Além de reconhecer trajetórias individuais, a cerimônia reuniu representantes de diferentes áreas que, a partir de seus espaços de atuação, têm contribuído para ampliar direitos e fortalecer políticas públicas para a população LGBTI+.
Entre as homenageadas estava a militante lésbica, feminista e antirracista Ana Naiara Malavolta, servidora aposentada do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4) e integrante do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Rio Grande do Sul (Sintrajufe-RS).
Para ela, a iniciativa representa um marco para a cidade. “Representatividade é muito importante para nós. Foi a primeira vez que Porto Alegre se abriu para um reconhecimento dessa dimensão, homenageando tantas pessoas da comunidade LGBTI+ e trazendo tamanha diversidade para dentro da Câmara.”
Ao abordar o mercado de trabalho, Malavolta chamou atenção para a vulnerabilidade enfrentada por pessoas trans, homens trans e mulheres lésbicas masculinizadas. “Mesmo sem estatísticas oficiais consolidadas, sabemos que essa é uma das populações mais vulnerabilizadas. Muitas pessoas permanecem invisibilizadas ou enfrentam desemprego e trabalho precário.”
Em sua avaliação, ampliar políticas públicas continua sendo um desafio urgente. “Precisamos de visibilidade, mas também de investimento. Sem políticas públicas estruturadas, não conseguimos alcançar quem mais precisa.”

A necessidade de ampliar essas políticas também aparece em estudos recentes. Pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima que cerca de 12% da população adulta brasileira, aproximadamente 19 milhões de pessoas — se identifica como lésbica, gay, bissexual, transgênero, não binária ou assexual.
Interior, acolhimento e políticas públicas
Entre as homenageadas estava Deise Menezes, presidente do Conselho Municipal LGBT de Tramandaí e uma das organizadoras da Parada Livre do município do Litoral, que realizará sua quarta edição em janeiro de 2027. Para ela, a medalha representa o reconhecimento de uma luta construída fora dos grandes centros urbanos. “Para nós, do interior, significa muito. É o reconhecimento da nossa batalha por voz, direitos e visibilidade. Também enfrentamos uma luta muito grande para conquistar espaço e sermos reconhecidas pela sociedade.”
Menezes destacou que Tramandaí está construindo seu primeiro Censo LGBT em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A iniciativa busca mapear a população local e produzir informações que subsidiem a elaboração de políticas públicas. “Nós precisamos saber quem somos, onde estamos e quantos somos para construir políticas públicas a partir desses dados.”

Representando o sul do estado, a presidente do Coletivo T Juliana Martinelli, de Pelotas, Jerci Lima Cardoso, falou sobre a criação do primeiro centro de acolhimento LGBT (Casa Casulo) da região. Segundo ela, o projeto começou a ser estruturado há cinco anos e tornou-se realidade neste ano.
“O objetivo não é apenas acolher. Queremos oferecer educação, visibilidade e mostrar que existe um futuro possível. Não se trata apenas de oferecer uma casa ou um prato de comida, mas de construir novas possibilidades de vida”, afirmou.
Para Gersi, a homenagem demonstra que iniciativas relevantes também são construídas fora da Capital. “Mostramos que o interior também tem força e condições de desenvolver projetos importantes para toda a população LGBT do estado.”
Ela avalia que a principal dificuldade enfrentada por muitas cidades ainda é a ausência de políticas permanentes de acolhimento. “Eu definiria nossa realidade como desassistida. Nem todas as cidades possuem movimentos organizados para acolher essas pessoas de forma integral.”

Saúde como direito
A fisioterapeuta e servidora pública aposentada Simone Ávila, responsável pela criação do projeto que deu origem ao Ambulatório Trans de Porto Alegre, também foi homenageada. Implantado em 2017, o serviço surgiu a partir da criação da área de saúde LGBTQIA+ da Secretaria Municipal de Saúde.
Segundo Ávila, o ambulatório foi construído em diálogo com o movimento social e nasceu para enfrentar barreiras históricas de acesso à saúde. “O ambulatório não deveria existir se todas as unidades de saúde fossem acolhedoras. Mas a realidade ainda é marcada por preconceito, discriminação e estigma.”
Ela relembrou que, à época da criação do serviço, o Brasil ainda não possuía um protocolo nacional para hormonização de pessoas trans. A equipe responsável desenvolveu um documento baseado em experiências de Florianópolis, Uruguai e Argentina.
Embora considere positiva a ampliação de ambulatórios especializados em diferentes municípios, Ávila afirma que o objetivo final é tornar toda a rede pública capaz de atender a população LGBTI+ com respeito. “Meu sonho é que um dia não seja mais necessário existir um ambulatório específico, porque todos os serviços de saúde serão capazes de acolher qualquer pessoa.”

Tecnologia e inclusão
Outro homenageado foi Noah Scheffel, fundador do Educa TRANSforma e do aplicativo JAN. Para ele, o reconhecimento simboliza a valorização de trajetórias construídas para além das dores enfrentadas pela população trans. “Essa homenagem nos ajuda a ressignificar nossas lutas para que elas não sejam lembradas apenas pelo sofrimento, mas também pelas conquistas que construímos.”
Criado em 2019, o Educa TRANSforma capacita pessoas trans para o mercado de trabalho e oferece formação para empresas interessadas em promover ambientes mais inclusivos.
“O projeto nasceu depois que sofri um processo de transfobia durante minha transição de gênero. Percebi que estava sozinho e quis construir um caminho para que outras pessoas não passassem pela mesma experiência”, explicou Scheffel.
Já o aplicativoJAN conecta pessoas trans a profissionais de saúde, advogados e especialistas, além de auxiliar no acompanhamento da hormonização. “A ideia surgiu de uma necessidade simples: lembrar as datas de aplicação dos hormônios. Depois percebemos que poderíamos criar uma rede de cuidado e atendimento humanizado.”

Famílias e representatividade política
Representando as famílias LGBTI+, o fotógrafo Mikael Mielke celebrou a homenagem como um reconhecimento da existência e da resistência dessas configurações familiares. “Famílias como a nossa existem e resistem. Todos os dias enfrentamos preconceito, mas mostramos que o amor é muito maior do que qualquer discriminação.”
Mielke é casado há 17 anos com o gerente de vendas Jarbas Bittencourt, que estava em viagem de negocios. Eles são os primeiros pais homoafetivos do Brasil a terem uma filha com o DNA dos dois, por meio do processo de barriga solidária.
Ao lado da filha Antonella, ele destacou a importância do reconhecimento institucional. “Ela é o nosso bem mais precioso. É o amor da nossa vida.”

Já o vereador de Cachoeirinha Gustavo Almansa (PT), primeiro parlamentar assumidamente LGBT da cidade, afirmou que a presença de pessoas LGBTI+ nos espaços de poder contribui para transformar realidades. “Quando pessoas LGBTs chegam aos parlamentos, conseguem levar um olhar voltado às populações historicamente vulnerabilizadas.”
De acordo com levantamento da ONG VoteLGBT, o Brasil conta atualmente com 18 parlamentares assumidamente LGBTQIA+ em mandatos legislativos. Nas eleições municipais de 2024, 225 representantes LGBTQIA+ foram eleitos em 190 cidades de 22 estados brasileiros. Do total, 222 foram eleitos para câmaras municipais e três para prefeituras.
Almansa também destacou a realização do primeiro Censo LGBT de Cachoeirinha, iniciativa proposta por seu mandato para compreender as principais demandas da comunidade antes da formulação de políticas públicas. “Antes de apresentar projetos, quisemos entender quem somos e quais são nossas necessidades. Os resultados preliminares mostram que as maiores barreiras continuam sendo encontradas na área da saúde.”

Cultura, literatura e resistência
A produtora cultural Laís Ayana, integrante e fundadora da Casa de Tarântula e referência na cena Ballroom de Porto Alegre, recebeu a medalha pelo trabalho desenvolvido desde 2019 na promoção da cultura negra e trans. “Essa homenagem me renova para seguir fazendo mais pela comunidade. Nunca imaginei receber esse reconhecimento.”
Segundo Ayana, sua trajetória está diretamente ligada à construção de espaços de acolhimento para pessoas trans e negras. “Todos os dias nós resistimos. Enquanto mulher preta e trans, enfrento desafios constantes, mas procuro transformar essa experiência em construção coletiva.”

Também homenageada, a livreira da Livraria Baleia e DJ Nani Rios destacou a importância de ampliar a presença da população LGBTI+ na produção cultural. “Nós somos trabalhadores, precisamos de saúde, educação e cultura. É importante que possamos falar sobre ser LGBT com qualidade e ocupar esses espaços.”
Ela observa que o mercado editorial tem ampliado a presença de autores e narrativas LGBTI+, negras e femininas. “Hoje existe uma valorização muito maior dessas histórias. Não se trata apenas de representatividade, mas de produzir literatura complexa, diversa e conectada à vida real.”
De acordo com Rios, esse movimento também responde a uma demanda crescente dos leitores. “As pessoas procuram essas obras porque querem se reconhecer nas histórias. Existe público e existe interesse.”

A Miss Diversidade Rio Grande do Sul 2025/2026, Tina Oliver, também foi uma das homenageadas. Contadora e artista drag queen, ela utiliza o título para promover o combate ao racismo e à LGBTfobia. “Estar em um espaço de poder recebendo essa homenagem mostra que temos o direito de estar em qualquer lugar.”
Para Oliver, a luta contra diferentes formas de discriminação está profundamente conectada. “Meu maior desafio é mostrar que a beleza negra existe e precisa ser valorizada. O racismo, a homofobia e outras formas de preconceito estão interligados e precisam ser enfrentados diariamente.”

Educação, espiritualidade e acolhimento
A historiadora Lauri Miranda, reconhecida como a primeira mulher trans doutora em História do Brasil, afirmou que a medalha representa uma reparação histórica e um compromisso com as futuras gerações. “Essa medalha é por todas aquelas que vieram antes de mim. Recebê-la aqui, na Câmara Municipal, um espaço que historicamente não foi pensado para mulheres trans e travestis, representa uma reparação.”
Professora e pesquisadora, ela destacou a importância de garantir não apenas o acesso, mas também a permanência de estudantes trans nas instituições de ensino. “Precisamos garantir acolhimento e permanência. Pessoas trans e travestis produzem conhecimento e têm o direito de ocupar todos os espaços.”

A relação entre espiritualidade e direitos humanos também esteve presente na cerimônia. O reverendo Jerry Andrei de Santos, pároco da Catedral da Santíssima Trindade da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, afirmou que a homenagem representa o reconhecimento de uma caminhada coletiva construída dentro da igreja. “Sabemos que muitos espaços religiosos expulsaram, silenciaram e negaram a identidade da população LGBT. Nossa igreja escolheu outro caminho.”
Segundo ele, ninguém deveria ser privado de viver sua fé por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. “Ninguém deve perder sua fé por ser quem é. Toda pessoa é filha de Deus e deve encontrar espaço para viver sua espiritualidade com dignidade.”
Também homenageado, o reverendo Libanês, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, afirmou que a medalha representa o reconhecimento do trabalho desenvolvido por uma igreja que acolhe todas as pessoas, sem distinção. “Essa homenagem reconhece o trabalho da nossa igreja e também a caminhada que eu e o reverendo Jerry construímos em defesa da inclusão”, disse.

Segundo Libanês, a Igreja Episcopal Anglicana, uma das denominações históricas do cristianismo, já ordena mulheres ao sacerdócio e pretende ampliar esse processo de inclusão. “Somos uma igreja histórica que ordena mulheres e esperamos, no futuro, ordenar também uma pessoa transexual. Isso reafirma nosso compromisso de sermos uma igreja verdadeiramente inclusiva.”
Para o religioso, nenhuma pessoa deve ser privada de viver sua fé por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. “A igreja não pode impedir ninguém de ter fé ou de se sentir amado por Deus. Queremos que todas as pessoas se sintam acolhidas, porque Deus criou todos e viu que era bom. Somos todos criaturas de Deus, e essa é a mensagem que anunciamos.”

