Bets sem influenciadores: debate pede fim da propaganda com celebridades e atletas

Por Da Agência Senado07/07/2026 às 22:380 visualizações
Mesa: 
defensor público do Estado de São Paulo e Membro da Comissão da Saúde da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos, Marcelo Dayrell Vivas; 
diretoria de fiscalização da Atenção Primária à Saúde da AudSaúde e representante do Tribunal de Contas da União (TCU), Unidade de Auditoria Especializada em Saúde, Marcelo Chaves Aragão;
presidente eventual  da CDH, senador Eduardo Girão (Novo-CE); 
desenfluenciadora de jogos do tigrinho, Jessica Lobo em pronunciamento; 
analista de Processo Legislativo do Senado Federal, Eduardo de Salles.
Mesa: defensor público do Estado de São Paulo e Membro da Comissão da Saúde da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos, Marcelo Dayrell Vivas; diretoria de fiscalização da Atenção Primária à Saúde da AudSaúde e representante do Tribunal de Contas da União (TCU), Unidade de Auditoria Especializada em Saúde, Marcelo Chaves Aragão; presidente eventual da CDH, senador Eduardo Girão (Novo-CE); desenfluenciadora de jogos do tigrinho, Jessica Lobo em pronunciamento; analista de Processo Legislativo do Senado Federal, Eduardo de Salles.
Senado Federal
Especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares defenderam nesta terça-feira (7), em audiência pública no Senado, restrições à publicidade das apostas de quota fixa — as chamadas bets —, principalmente quando há a participação de influenciadores digitais, atletas e clubes de futebol. Para os participantes da audiência, a ampla divulgação das plataformas desse tipo de aposta contribui para a exploração de grupos vulneráveis, além de agravar problemas relacionados ao uso compulsivo, ao endividamento e à saúde mental. Parte dos debatedores defendeu, inclusive, a proibição da atividade. O debate foi promovido de forma conjunta por dois colegiados do Senado: a Comissão de Direitos Humanos (CDH) e a Comissão de Assuntos Sociais (CAS). Influenciadores O senador Eduardo Girão (Novo-CE) foi uma das vozes favoráveis à extinção das bets. Ele afirmou que a regulamentação adotada no Brasil foi insuficiente para conter os impactos negativos — tanto sociais como econômicos — do setor. Para o senador, antes mesmo de uma eventual proibição, o país deveria interromper imediatamente a publicidade desse tipo de jogo (incluindo as campanhas com influenciadores e a associação das marcas de apostas ao futebol). — Sou totalmente contra as bets. Mas acabar com a publicidade é "para ontem". Façam um decreto, uma portaria. Não pode haver influenciadores nem atletas promovendo apostas. É uma combinação explosiva. Quando a pessoa vê a camisa do seu time estampada com o nome de uma bet, ela pode pensar que está ajudando o próprio clube ao apostar — disse Girão. Jéssica Lobo, que se autointitula “desinfluenciadora de jogos de aposta”, afirmou que passou a atuar contra a divulgação das bets após a perda da irmã, Ângela Maria, em dezembro de 2023. Jéssica contou que a família havia descoberto transferências de recursos feitas pela irmã para plataformas de apostas, e que o vício havia comprometido gravemente a situação financeira de Ângela Maria. A partir de então, Jéssica começou a contar sua experiência nas redes sociais e criou grupos de apoio para familiares e pessoas afetadas pelo problema, que hoje reúnem mais de 10 mil participantes. Ela defendeu a proibição da publicidade das casas de apostas, principalmente quando há a participação de influenciadores digitais. — No mínimo, a gente precisa acabar com essa propaganda "para ontem". São justamente os grandes influenciadores que fazem as pessoas voltarem a jogar. Vejo isso no trabalho que realizamos nos grupos de apoio: a pessoa fica três ou quatro meses sem apostar, aí vê uma publicidade ou um influenciador promovendo uma bet, volta a jogar e recai [no vício]. É uma indústria que atinge pessoas vulneráveis — ressaltou. Expansão das plataformas As apostas de quota fixa foram autorizadas no Brasil pela Lei 13.756, de 2018. Mas o mercado permaneceu por cerca de cinco anos sem uma regulamentação específica. As regras para o funcionamento do setor foram consolidadas apenas com a Lei 14.790, de 2023, que estabeleceu critérios para a exploração da atividade, a sua fiscalização e medidas de proteção aos apostadores. Durante a audiência no Senado, participantes destacaram que o intervalo de cerca de cinco anos entre a autorização das apostas de quota fixa e a regulamentação do setor favoreceu a expansão das plataformas, com publicidade intensa e fácil acesso por celular. Pressão sobre serviços públicos A consultora do Conselho Diretor do Instituto de Defesa de Consumidores em Serviços Financeiros, Ione Amorim, disse que as regras atuais ainda são insuficientes para enfrentar impactos como o superendividamento e a pressão sobre os serviços públicos. — A publicidade está em todos os lugares e está no celular 24 horas por dia. A aposta pode ser individual, mas o preço é coletivo. Quando falamos da sobrecarga na saúde, estamos falando de diversos serviços públicos pressionados para atender às consequências de uma atividade tão nociva para a economia, para as finanças das famílias e para a saúde mental — declarou Ione, que participou do debate de forma on-line. Representantes das defensorias públicas alertaram para o aumento da demanda por atendimento. Luciana Telles da Cunha, coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, defendeu o fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e das defensorias para lidar com casos de endividamento e dependência relacionados às bets, além de campanhas de conscientização. — Precisamos investir em campanhas de conscientização e de contrapropaganda. É preciso dizer com todas as letras que se trata de jogo de azar. A banca sempre ganha — frisou Luciana Telles. Grupos vulneráveis O defensor público do estado de São Paulo Marcelo Dayrell Vivas destacou a maior exposição de grupos vulneráveis às apostas. Segundo ele, cerca de 75% dos apostadores têm até o ensino médio completo ou menos que isso, aproximadamente 65% são pessoas pretas e pardas e percentual semelhante vive em famílias com renda mensal de até três salários mínimos. Marcelo Chaves Aragão, do Tribunal de Contas da União (TCU), salientou que a combinação entre publicidade intensa, acesso facilitado pelos celulares e ausência de medidas preventivas ampliou os riscos clínicos, psicossociais e econômicos. — Ao continuar com essa propaganda massiva, com a participação de celebridades e influenciadores, sem medidas efetivas de prevenção, vamos colocar em xeque toda a política pública de saúde. Se não houver essa restrição, vamos continuar enxugando gelo — alertou Aragão.
Fonte
Senado Federal
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