OTAN sob pressão: 4 sinais de declínio da aliança militar

07/07/2026 às 17:150 visualizações
Sputnik Brasil
A próxima cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Ancara, na Turquia, está prevista para ocorrer entre 7 e 8 de julho, reunindo líderes dos membros da aliança para discutir temas como o aumento dos gastos com defesa e os principais conflitos internacionais, com destaque para o da Ucrânia.
Enquanto busca definir estratégias para o conflito ucraniano, os países europeus seguem arcando com parte significativa dos custos políticos, econômicos e militares do apoio a Kiev, ao mesmo tempo em que lidam com sucessivos questionamentos dos Estados Unidos sobre o nível de comprometimento de Washington com a segurança da aliança.
O encontro acontece em meio a um cenário de incertezas e desgastes, uma vez que a Europa permanece atrelada a uma estrutura que serve cada vez menos a seus interesses, e cada vez mais à sua própria subjugação. A Sputnik Brasil reuniu alguns dos principais sinais do declínio da OTAN.
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Falta de coordenação de crises pelo mundo

Desde o fim da Guerra Fria, a OTAN expandiu sua atuação para além do que diz ser defesa. Na década de 1990, lançou o Diálogo Mediterrâneo, aproximando países do Norte da África e do Oriente Médio, e, em 2004, criou a Iniciativa de Cooperação de Istambul, estreitando laços militares com monarquias do Golfo.
Essas iniciativas ampliaram a influência da aliança em regiões fora de sua alçada e serviram de base para operações como a invasão da Líbia, em 2011, cuja consequência foi o colapso do Estado líbio e anos de instabilidade. Após a destruição causada, a aliança passou a tratar os fluxos migratórios rumo à Europa como uma questão de segurança, classificando a chamada "instrumentalização da migração" como uma ameaça híbrida.
Além disso, o conflito na Ucrânia aprofundou divergências entre os Estados Unidos e seus aliados europeus sobre os rumos da OTAN. Enquanto Washington passou a defender com mais frequência uma saída negociada para o conflito e a redução de seu envolvimento, países como Reino Unido, França, Alemanha e os Estados Bálticos mantiveram a assistência militar a Kiev e prolongaram as hostilidades.
As diferenças também ficaram evidentes no Oriente Médio. Apesar do apoio político a Israel, a maioria dos governos europeus evitou participar diretamente de uma escalada militar contra o Irã, privilegiando apoio logístico, em contraste com a atitude belicista dos Estados Unidos. O presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a classificar a OTAN como um "tigre de papel" e afirmou que considerava retirar os Estados Unidos da aliança após a recusa dos europeus.

Ameaça militar dos EUA contra a Europa

Antes mesmo das divergências sobre a guerra no Oriente Médio, a OTAN já havia sido abalada por um episódio que expôs as fissuras entre seus integrantes. Ao reafirmar o interesse estratégico na Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca, o governo dos Estados Unidos afirmou que a ilha poderia ser incorporada por meio de uma negociação e não descartou o uso da força caso seus objetivos não fossem atendidos.
A postura foi reforçada na nova Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, assinada pelo secretário de Guerra, Pete Hegseth, que estabelece o controle da Groenlândia como uma prioridade estratégica e prevê uma postura mais assertiva na defesa dos interesses norte-americanos. Antes dessas ameaças, Washington havia invadido a Venezuela e sequestrado o líder Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro, hoje preso em solo estadunidense.
O documento também sinaliza um recuo do compromisso de Washington com a segurança europeia ao afirmar que os países devem ser responsáveis pela própria defesa.

Cobrança por gastos em defesa e rearmamento

Sob forte pressão do governo Trump, os gastos em defesa dos membros europeus da OTAN aumentaram 20%, alcançando US$ 574 bilhões (cerca de R$ 2,96 trilhões), enquanto elevam os investimentos militares para 5% do PIB até 2035. Apesar do compromisso, a aliança enfrenta dificuldades para transformar essas promessas em realidade.
Diversos governos europeus já enfrentam resistência política interna diante do impacto que o aumento dos gastos militares pode causar sobre os orçamentos públicos, em um contexto de baixo crescimento econômico e pressão por investimentos em áreas sociais. Além disso, a indústria de defesa tem encontrado dificuldades para ampliar rapidamente sua capacidade de produção, acumulando atrasos na entrega de equipamentos mesmo após a assinatura de contratos bilionários.
As dificuldades são agravadas pelas limitações das próprias capacidades militares europeias. O Reino Unido dispõe hoje de apenas uma fração da frota naval que possuía décadas atrás, enquanto a Alemanha passou anos sem cumprir sequer a antiga meta de investir 2% do PIB em defesa, mantendo também menos de 200 mil militares na ativa — número muito inferior ao cerca de 1,3 milhão das Forças Armadas dos Estados Unidos.
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Anúncio de saída de membros da aliança

Além das ameaças dos Estados Unidos de reduzir seu compromisso com a OTAN ou até mesmo abandonar a aliança, o debate sobre a permanência passou a ganhar espaço dentro da própria Europa. Nos últimos meses, lideranças políticas de diferentes países passaram a defender publicamente a revisão da participação de seus Estados na organização, alegando que a aliança deixou de atender aos interesses nacionais e passou a impor elevados custos econômicos, militares e diplomáticos aos seus integrantes.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Eslovênia. Em maio, o presidente do parlamento, Zoran Stevanovic, anunciou a intenção de convocar um referendo sobre a saída do país da OTAN. Embora a iniciativa ainda dependa de apoio político para avançar, analistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que o episódio expõe um crescente descontentamento de parte da sociedade e da classe política com as diretrizes adotadas pela aliança.
Na França, um dos membros fundadores da OTAN, o debate também voltou à cena. O líder do partido Patriotas, Florian Philippot, defendeu novamente a retirada francesa da organização e a retomada de um diálogo direto com a Rússia. Para o político, a permanência compromete a soberania da política externa e subordina as decisões de Paris aos interesses estratégicos de Washington.
O surgimento de iniciativas desse tipo representa mais um sintoma do desgaste político da OTAN e das dificuldades internas em preservar sua coesão diante das transformações do cenário internacional.
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