O governo do Irã afirmou que os Estados Unidos violaram o memorando de entendimento firmado entre os dois países após ataques contra bases costeiras e instalações não militares nas áreas litorâneas da província de Hormozgan e em Mahshahr nesta quarta-feira (8).
Em resposta, o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica anunciou uma operação contra alvos militares estadunidenses na Ásia Ocidental. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por sua vez, declarou que a trégua “acabou” depois da troca de ataques entre os dois países.
O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que os Estados Unidos descumpriram o memorando de entendimento de 14 pontos. Em publicação na rede social X, ele citou como violações as medidas relacionadas ao Estreito de Ormuz, as ameaças de novos ataques, a imposição de sanções ao petróleo iraniano, os ataques ao sul do Irã e a continuidade das ações militares de Israel no Líbano. Segundo Ghalibaf, “a era da intimidação e da extorsão acabou”. “Isso não leva a lugar nenhum. Nós não cedemos”, completou.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Irã, a operação dos EUA em território iraniano representa uma violação do Artigo 2, quarto parágrafo, da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU). O trecho do documento estabelece que “todos os membros deverão evitar, em suas relações internacionais, a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os propósitos das Nações Unidas”.
A pasta afirmou ainda que o ataque configura “uma violação flagrante” da primeira cláusula do memorando de entendimento mediado pelo Paquistão, que determinava a interrupção de todas as operações militares. Ainda segundo o comunicado, “a responsabilidade pelas consequências perigosas dessa escalada recai sobre o regime dos EUA, que violou o tratado”.
Além disso, informou que a decisão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos de revogar a autorização para a venda de petróleo iraniano, compromisso previsto no memorando, também viola o acordo. A nota acrescenta que a atuação dos Estados Unidos nas operações marítimas do Irã no Estreito de Ormuz e o apoio às ações militares de Israel no Líbano tornaram ineficazes “partes importantes e fundamentais” do entendimento.
O governo iraniano declarou ainda que todos os países, principalmente os da costa sul do Golfo Pérsico, têm obrigação de impedir que seus territórios ou instalações sejam utilizados para ações contra o Irã. Segundo a nota, “qualquer cooperação na prática do crime de agressão contra o Irã equivale a cumplicidade e participação nesse crime”.
O Ministério das Relações Exteriores também pediu que o Conselho de Segurança da ONU e o secretário-geral da ONU, António Guterres, cumpram suas responsabilidades na preservação da paz e da segurança regional e internacional. A pasta afirmou ainda que, com base no Artigo 51 da Carta da ONU, as Forças Armadas do Irã não hesitarão em defender a integridade territorial, a soberania nacional e a segurança do país. O trecho citado fala em “direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva” em caso de ataque armado contra um membro da ONU.
Retaliação
Após os bombardeios estadunidenses, o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica anunciou uma operação de retaliação contra 85 pontos ligados a instalações militares dos Estados Unidos na Ásia Ocidental. Segundo o comunicado, a ofensiva atingiu instalações militares dos EUA no Porto Salman, no Quinto Distrito Naval do Bahrein e na Base Aérea Ali Al Salem, no Kuwait, com o uso de mísseis e drones.
A corporação informou que um drone estadunidense MQ-9 foi abatido durante a operação. Em outra declaração, o porta-voz do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica, Hossein Mobini, afirmou que a aeronave foi derrubada sobre a região de Khoromoj, na província de Bushehr, após a incursão aérea dos Estados Unidos.
Trump, por sua vez, afirmou que a trégua entre Washington e Teerã “acabou” após os ataques iranianos contra bases dos EUA no Golfo. Os preços do petróleo subiram 5% após as declarações do presidente estadunidense.
Durante a reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Ancara, na Turquia, Trump declarou ser “apenas uma perda de tempo lidar com eles”, referindo-se às autoridades iranianas. O presidente ainda chamou o Irã de “escória” e disse que o país é governado por “malucos”.
Trump também acusou o Irã de distorcer o conteúdo do acordo firmado entre Washington e Teerã em 17 de junho. Segundo o presidente, “todos concordaram, nada de arma nuclear. Nós fizemos um acordo. Eles saem, fazem piada com a imprensa, dizem que nunca falamos sobre isso. Tem alguma coisa errada com eles, são malucos”.
