Escravização doméstica não se restringe à exploração da força de trabalho, da restrição material em forma também de dívida, da “posse” plena do corpo, do controle absoluto do tempo de vida, de mecanismos tantos para manter a total dependência. É uma tecnologia que se atualiza.
No contexto doméstico, os afetos são dispositivos de controle, de ambiguidades, de inseguranças, falseando certezas. Afetos estão histórica e politicamente localizados, não se restringem, definitivamente, a uma experiência pessoal, individual.
A violação de direitos passa a ser descrita com outros nomes, “bem tratada”, “da família”, “tinha tudo que necessitava”, “comia o que a família comia”, “viajava”, “tinha um quarto”, ela até poderia respirar, não é verdade?
Escravizar para a vida doméstica não se configura, necessariamente, por gritos, surras físicas, como habita o imaginário social quando se pensa em escravidão – seja como dissonância cognitiva, seja como representação social. Escolha sua abordagem.
Escraviza-se também a alma. A colonização dos afetos também não é uma ação isolada, é um conjunto de dispositivos que forja e reúne saberes especializados, crenças, rotinas, procedimentos.
O Estado, por um serviço psicossocial, afirmar que manter uma mulher de 62 anos em uma família – que vem sendo chamada pela mídia de “empregadores” – se justifica porque esses escravizadores são a única referência de afeto dessa mulher escravizada é algo absurdo. Foucault já nos provocou sobre o saber-poder, o chamamento de especialistas ao sistema de justiça para subsidiar decisões, mesmo que, em tese, não tenham a caneta.
Boa política não se mede pela régua da boa intenção. A narrativa do afeto é perigosa e tem potencial alienador e opressor.
Assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC)?
A escravidão não pode ser tratada como uma conduta a ser “ajustada”. Sim, sabemos que o TAC é dispositivo do Estado legalmente previsto, mas esta medida, neste contexto, torna-se profundamente questionável, aponta para a manutenção do privilégio de quem oprime, escraviza. Não é ajustar uma conduta. É eliminá-la. Já está suficientemente configurado que não são “empregadores”. Pessoas com posses e acesso à informação, escravizaram por mais de 50 anos uma mulher desde seus 7 anos, são três gerações nesta “conduta”, não há o que ajustar. O verbo é outro.
Resgatar pessoas escravizadas não é, realmente, apenas retirar pessoas da lugar que as oprime, como fizeram naquele 13 de maio da nossa história, deixando-as “à sorte”. Hoje temos outros dispositivos.
Mas, pelos encaminhamentos feitos, parece que estamos revisitando as mesmas estratégias do 14 de maio e elas não deram certo ou deram, pelo menos para quem se manteve no poder.
*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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