Comunidades tradicionais cobram regularização de territórios e avanço de políticas públicas

Por Kennedy Cruz08/07/2026 às 20:260 visualizações
Relatório reúne demandas históricas de povos e comunidades tradicionais e cobra medidas consideradas estratégicas para a proteção dos territórios.
Relatório reúne demandas históricas de povos e comunidades tradicionais e cobra medidas consideradas estratégicas para a proteção dos territórios.
Brasil de Fato — Brasil

Representantes da sociedade civil do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) protocolaram, nesta quarta-feira (7), via Sistema Eletrônico de Informações (SEI), um documento na Casa Civil e na Secretaria-Geral da Presidência da República que reúne as principais reivindicações dos povos e comunidades tradicionais ao governo federal.

Intitulado A Distância entre o Discurso e o Território, o relatório faz um balanço das políticas implementadas durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e conclui que, apesar da reconstrução de políticas públicas iniciada em 2023, as principais agendas seguem sem efetivação.

Entre as demandas consideradas prioritárias estão a publicação do Decreto de Regularização Fundiária dos Territórios Tradicionais, a implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, o fortalecimento da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (SNPCT), a ampliação do orçamento destinado às políticas públicas e a garantia da participação social na formulação das ações do governo.

Segundo o documento, houve avanços na retomada do diálogo entre governo e movimentos sociais, mas eles não foram acompanhados pela implementação das políticas reivindicadas pelas comunidades. A avaliação também aponta entraves administrativos, dificuldades de articulação entre ministérios e demora na execução das propostas construídas com participação social.

Para o presidente do CNPCT, Samuel Caetano, o principal desafio do governo agora é transformar o reconhecimento político em direitos concretos. “A principal reivindicação é transformar o reconhecimento político conquistado nos últimos anos em direitos efetivamente garantidos. Isso passa pela aprovação do Decreto de Regularização Fundiária dos Territórios de Povos e Comunidades Tradicionais, implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos PCTs [Povos e Comunidades Tradicionais]”, afirmou.

O geraizeiro ainda afirma que, apesar dos avanços registrados desde o início do governo Lula, a realidade das comunidades pouco mudou. “O decreto de regularização fundiária segue sem publicação, o Plano Nacional ainda depende de execução concreta, persistem limitações orçamentárias e faltam mecanismos efetivos de articulação entre ministérios. O desafio agora é transformar compromisso político em ação governamental”, completou.

Regularização

A principal reivindicação apresentada ao governo é a publicação do Decreto Nacional de Regularização Fundiária dos Territórios Tradicionais. A proposta foi construída ao longo de três anos de debates entre representantes das comunidades e órgãos federais, mas permanece sem assinatura.

Sem um procedimento nacional de regularização, milhares de comunidades continuam em situação de insegurança jurídica, sujeitas a conflitos fundiários, grilagem, expansão do agronegócio, mineração e grandes empreendimentos.

Especialista em direitos territoriais, Patrícia Silva explica que, diferentemente dos povos indígenas e das comunidades quilombolas, os povos e comunidades tradicionais ainda não possuem um instrumento federal específico para garantir seus territórios. 

“A edição do decreto de regularização é importante, pois não temos instrumento normativo federal específico para PCTs, assim como temos o Decreto Federal 1775 para indígenas e o Decreto 4887 para quilombolas. Os PCTs estão abrigados por instrumentos normativos, que não dão conta das inúmeras realidades dos modos de vida”, defendeu.

Segundo ela, o decreto foi elaborado justamente para contemplar essa diversidade e garantir maior segurança jurídica às comunidades. “O Decreto busca assegurar o acesso à terra mediante a titulação coletiva. Além disso, prevê a proteção jurídica dessas áreas desde o início do processo de reconhecimento, com assessoria da Procuradoria do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] nas demandas possessórias”, afirmou.

“A demora na assinatura aumenta a violência no campo, o risco de expulsões e ameaça a lideranças. Esses territórios são fundamentais para a conservação dos biomas brasileiros e para o cumprimento das metas climáticas do país”, completou. 

Ausência de um decreto nacional mantém milhares de comunidades em situação de insegurança sobre seus territórios
Ausência de um decreto nacional mantém milhares de comunidades em situação de insegurança sobre seus territórios — Arquivo/Rede PCTs
Ausência de um decreto nacional mantém milhares de comunidades em situação de insegurança sobre seus territórios. Crédito: Arquivo/Rede PCTs

Estrutura e reconhecimento

Além da regularização fundiária, o relatório faz críticas ao ritmo de implementação das políticas voltadas aos povos e comunidades tradicionais. Segundo o documento, a criação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais representou um avanço, mas a estrutura ainda não conseguiu responder às demandas apresentadas pelo conselho.

Para Samuel Caetano, o problema deixou de ser a elaboração das propostas e passou a ser a capacidade do governo de executá-las. “A Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais hoje, em diversos momentos, tem se apresentado mais como um entrave à implementação das políticas públicas do que como uma estrutura capaz de impulsioná-las”, denunciou. 

O presidente do CNPCT afirma que a burocratização dos processos e a dificuldade de articulação entre diferentes áreas do governo têm retardado decisões consideradas estratégicas para as comunidades.

“Avançamos na construção de propostas, mas seguimos lentos na implementação. É indispensável fortalecer a capacidade executiva da SNPCT e estabelecer mecanismos de governança capazes de assegurar que decisões estratégicas deixem de permanecer em tramitação indefinida”, afirmou. 

Entre os segmentos que aguardam o avanço dessas políticas estão as comunidades de andirobeiras da Amazônia, que têm na coleta dos frutos da andiroba uma importante fonte de renda e um modo de vida baseado no uso sustentável da floresta. Para elas, a garantia do território está diretamente ligada à continuidade da atividade e à preservação dos conhecimentos tradicionais.

Beatriz Lima, representante das comunidades de andirobeiras, afirma que, além da proteção territorial, as comunidades enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas e mercados. “As comunidades de andirobeiras enfrentam diversos desafios, entre eles a falta de reconhecimento do nosso trabalho como guardiãs da sociobiodiversidade amazônica, a ausência de políticas públicas específicas e as dificuldades de acesso aos territórios e aos mercados”, afirmou. 

Segundo ela, o manejo da andiroba segue práticas tradicionais que passam entre gerações e respeita o ciclo natural da floresta. A coleta acontece tanto nas margens dos rios, durante o período de cheia e vazante, quanto no interior da mata, quando os frutos caem naturalmente das árvores.

“Sem a garantia dos territórios tradicionais, muitas famílias perdem o acesso às áreas onde realizam a coleta da andiroba. Isso compromete a produção do óleo, reduz a renda das comunidades e ameaça um modo de vida que depende diretamente da conservação da floresta”, completou a representante.

Entre as reivindicações apresentadas pelas comunidades estão o reconhecimento das andirobeiras como povo e comunidade tradicional, a proteção dos territórios de uso coletivo, assistência técnica, linhas de crédito e investimentos na cadeia produtiva.

Entraves políticos e participação social

Além da demora na publicação do decreto, o relatório afirma que o principal obstáculo para o avanço da regularização fundiária passou a ser político. Segundo o documento protocolado na Casa Civil e na Secretaria-Geral da Presidência, as propostas consideradas prioritárias já foram debatidas e construídas em conjunto com representantes das comunidades, mas seguem sem implementação.

Para Patrícia Silva, a disputa em torno da regularização territorial envolve interesses econômicos que dificultam o avanço da pauta. “O principal desafio é político, o reconhecimento dos territórios afeta diretamente os interesses de setores econômicos como o agronegócio e a mineração que buscam a ampliação de suas áreas para exploração econômica. Esses setores entendem que o reconhecimento das terras e dos direitos desses povos são um empecilho ao desenvolvimento do país”, criticou.

O documento também aponta como pendências a regulamentação do Cadastro Ambiental Rural para Povos e Comunidades Tradicionais (CAR/PCT), a consolidação da inclusão dos 28 segmentos reconhecidos pelo Decreto nº 6.040 no Cadastro Único (CadÚnico) e a implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Na avaliação do conselho, essas medidas são essenciais para ampliar o acesso às políticas públicas e garantir segurança jurídica aos territórios.

Conselho afirma que propostas já foram construídas com participação social e aguardam decisão do governo federal
Conselho afirma que propostas já foram construídas com participação social e aguardam decisão do governo federal — Arquivo/Rede PCTs
Conselho afirma que propostas já foram construídas com participação social e aguardam decisão do governo federal. Crédito: Arquivo/Rede PCTs

Outro ponto destacado no relatório é a participação social na formulação das políticas públicas. O documento afirma que, embora o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais tenha retomado suas atividades, muitas das propostas construídas pelo colegiado ainda não são incorporadas às decisões do Executivo.

Samuel Caetano afirma que o conselho voltou a reunir representantes dos diferentes segmentos, mas depende da capacidade do governo de transformar as deliberações em ações concretas. 

“O CNPCT recuperou sua capacidade de diálogo e incidência política, reunindo a diversidade dos segmentos tradicionais na construção de propostas estratégicas. Entretanto, o Conselho é consultivo e depende da capacidade de resposta do Executivo. É fundamental que suas deliberações sejam incorporadas às decisões governamentais e acompanhadas de orçamento, cronograma e responsabilidades institucionais”, defendeu.

Para o presidente do Conselho, o governo já dispõe de diagnósticos e propostas suficientes para avançar na agenda dos povos e comunidades tradicionais. “A prioridade é publicar o Decreto de Regularização Fundiária, fortalecer institucionalmente a SNPCT, garantir orçamento para implementação do Plano Nacional e consolidar uma governança interministerial capaz de executar políticas integradas”, afirmou.

“Os povos e comunidades tradicionais não reivindicam privilégios. Reivindicam o cumprimento da Constituição e o reconhecimento de sua contribuição histórica para a proteção dos territórios, da sociobiodiversidade e da democracia”, concluiu.


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Fonte
Brasil de Fato — Brasil
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