Movimento ‘Vida além da produção’

Por Monica Stival08/07/2026 às 19:440 visualizações
O Governo Federal lançou no último domingo (3) uma campanha pelo fim da escala de trabalho 6x1, sem redução de salário. Com o slogan “Mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito”.
O Governo Federal lançou no último domingo (3) uma campanha pelo fim da escala de trabalho 6x1, sem redução de salário. Com o slogan “Mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito”.
Brasil de Fato — Brasil

O sentido ecopolítico do potente movimento Vida Além do Trabalho (VAT) poderia ser formulado como Vida Além da Produção. Quando ampliamos a discussão sobre a condição do trabalhador para a escala da sociedade capitalista, lembramos que a exaustão gerada pelo trabalho excessivo no modo de produção moderno anda junto com a exaustão dos insumos dessa mesma produção. Para a vida concreta dos trabalhadores e para a vida na Terra está colocado o mesmo desafio: reafirmar a existência como objetivo e explicitar, com isso, a contradição entre a vida e o modo de produção capitalista.

Qualidade dos objetivos de vida

Em 1964, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, apresenta sua visão de futuro para a sociedade estadunidense no discurso “Grande Sociedade” (Great Society). Uma das frases desse discurso tornou-se célebre por supostamente mobilizar a ideia de “qualidade de vida”. Costuma-se atribuir a Johnson a afirmação de que “Os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às pessoas.”

Porém, ao que consta, ele não falou em “qualidade de vida”. Além disso, os objetivos em questão são aqueles da “Grande sociedade”: sim, a sociedade estadunidense. No discurso efetivamente proferido, Johson define a grande sociedade, dentre outros aspectos, como “um lugar onde os homens se preocupam mais com a qualidade de seus objetivos do que com a quantidade de seus bens.”

Se há uma alternativa em jogo aqui é porque a quantidade de bens e a qualidade de objetivos de vida — ou “qualidade de vida”, como na interpretação que adaptou a frase em diversas citações — são coisas distintas no mundo capitalista. O trabalho assalariado não aparece como meio para um modo de existência digno, saudável, prazeroso. Ou seja, a vida não é sentida como a finalidade do trabalho. Para a grande maioria da população, o trabalho se reduz a meio de sobrevivência. Esta ideia tira a possibilidade de avaliar a qualidade do que o trabalho deve garantir. Por isso, não falamos em “qualidade de sobrevivência”. A finalidade “sobreviver” é diferente da finalidade “viver”.

É exatamente a diferença entre quantidade de trabalho (produção de bens) como meio para sobreviver e produção (trabalho) como meio para viver que o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) torna evidente. O nome do movimento não poderia ser mais feliz. E se a vida é reafirmada como finalidade da produção pelo trabalhador, é igualmente urgente afirmar a vida como finalidade da produção em geral. O crescimento abstrato não pode ser o fim visado pela produção. Caso a produção fosse entendida como meio para outro fim, aí sim estaria em jogo a qualidade dos objetivos.

Uma ideia muito repetida é a de que o fim da escala 6 x 1 vai permitir dois dias “de descanso” aos trabalhadores. Ou seja, os dias sem trabalho são insistentemente pensados a partir do trabalho. No limite, o suposto descanso seria a prevenção da exaustão. Contudo, potencialmente, os dias de não trabalho não se reduzem a reconstituir a energia para a produção. Esta é uma leitura amarrada à gramática do próprio trabalho e do sistema de produção. Muito já se discutiu a respeito disso e do ócio produtivo ou criativo, mas, ainda assim, o paradigma é produzir algo.

As lutas por condições dignas de trabalho são fundamentais, assim como o descanso que recompõe a própria força de trabalho. A luta pela vida além do trabalho reafirma essa perspectiva clássica das lutas dos trabalhadores ao mesmo tempo em que a ultrapassa, colocando na ordem do dia a finalidade do trabalho para o trabalhador. O tempo de não-trabalho não se define mais pelo próprio trabalho, mas pela vida. Isto é, por objetivos que são diferentes daqueles da reprodução da própria sociedade.

Tanto para o trabalhador assalariado, em seu cotidiano, quanto para as comunidades humanas e seus diversos modos de existência, é preciso que a finalidade seja a vida, não a mera sobrevivência ou a quantidade e valor dos bens produzidos. A economia política e a ecologia política lidam com o mesmo movimento, mas em escalas distintas. Seja a vida cotidiana dos sujeitos, seja a vida na Terra, todo movimento político coerente com os desafios do século 21 envolve lutar por Vida Além da Produção.

Trabalho e saúde mental

Em 2025, os afastamentos concedidos pelo INSS por transtornos mentais e comportamentais somaram 546 mil, com depressão e ansiedade liderando os diagnósticos. Ainda assim, a pergunta privilegiada nas matérias jornalísticas dedicadas ao debate sobre o fim da escala 6×1 é sobre produtividade. Questiona-se se haverá, como em outros países, ganho de produtividade com a redução da jornada. A pergunta é relevante e tende a uma resposta positiva. Contudo, o essencial é saber o impacto da redução de jornada e alteração da escala de trabalho para a saúde mental, a sociabilidade, as relações parentais, a assim chamada qualidade de vida e os vínculos comunitários.

A saúde mental é também um dos elos que conecta exaustão por trabalho e colapso ecológico. Segundo dado da Associação Paulista de Medicina (2024), 42% dos brasileiros relatam que as mudanças climáticas já afetam sua saúde mental. E não se trata apenas de ansiedade climática ligada à expectativa de impactos futuros. Conforme estudo divulgado pela Agência Brasil em 2026, 85% da população percebe efeitos das mudanças climáticas no cotidiano, e para 46% esses efeitos são intensos.

Portanto, a saúde mental se deteriora nas duas pontas: pela sobrecarga no trabalho e pela degradação do ambiente em que se vive. Ambos em nome da produção. São dois aspectos do mesmo problema, que se encontram na coincidência entre meio e fim da produção no mundo capitalista.

Ainda assim, esses números expressivos não têm impulsionado a constituição de uma unidade política organizada pela questão ecológica. Uma das razões é que a guerra climática opõe unidades políticas que não coincidem exatamente com as fronteiras de classe, embora ela seja em grande medida definida pela divisão social do trabalho. Ampliar a noção de classe social para além da economia política talvez seja uma maneira de redesenhar a luta capaz de articular vida cotidiana e modos de vida na Terra.

As ideias e conceitos ainda estão se organizando a partir da experiência concreta de limites sentidos no dia a dia. As lutas e disputas estão estabelecendo o terreno da batalha e a gramática que expressa suas posições — e, portanto, as oposições. Parece-me que a formulação “vida além do trabalho” deu um passo gigante nesse processo. Nos cabe agora ampliar seu alcance e testar seu sentido para a ecopolítica.

Sobreviver ou viver?

Assim como o corpo do trabalhador superexplorado sobrevive na maior parte dos casos, a Terra vai sobreviver, apesar da perda de biomas inteiros e de uma quantidade dolorosa de biodiversidade. O modo de vida humano, por outro lado, sofrerá alterações profundas, além de milhares de pessoas que não sobreviverão. Há poucos dias, vimos notícias de mais de mil mortes em 72 horas na França por causa do calor extremo. Estudos chegam a sugerir que as variações de temperatura podem chegar a causar 5 milhões de mortes por ano. Dentre as pessoas que vão sobreviver às variações de temperatura, quantas poderão usufruir de tempo de vida além de sobreviver às condições de trabalho?

Cada passo é urgente, como afirmaram os coletes amarelos na França de 2018 quando alegaram que “vocês” (quem?) estão preocupados com o fim do mundo e “nós” (quem?) com o fim do mês. Porém, o fim do mundo também é um problema para este mês. E a luta por vida além do trabalho no cotidiano, neste mês, é também a luta para evitar o fim do mundo. Ambos são conflitos por vida além da produção no cotidiano, neste mês e em todos os que virão.

O VAT colocou em discussão muito mais do que a escala de trabalho. Colocou em debate a finalidade do trabalho e a ideia de vida, com seu sentido cotidiano de estar com a família, descansar, cuidar da casa, socializar, cuidar da saúde, educar e seu sentido para a espécie e as espécies, que ultrapassa a mera sobrevivência. Não se recusa com isso o trabalho nem a produção, mas estes são ultrapassados e ganham novo sentido. Quer dizer, sugerem um sentido que não se reduz a produzir valor em cima de valor. A finalidade do trabalho e da produção precisa ser definida pelo ponto de vista do trabalhador, não do capitalista. A finalidade do sistema econômico deve ser definida pelo ponto de vista das pessoas que afirmam a vida acima do lucro, não dos que lucram apesar da perda de vida. Contra estes, estamos em guerra.

Guerra por mais do que mera sobrevivência, uma guerra pela vida. Por vida além do trabalho, no plano do trabalhador, e por vida além da produção, no plano da ecologia do planeta.

*Monica Stival é filósofa e professora de filosofia política na UFSCar. Autora, entre outros livros, de “Guerra climática e a disputa política no Brasil do século XXI” (Autonomia Literária, 2026).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato — Brasil
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