Da formação de leitores ao reconhecimento das autorias

Por Cidade das Letras: literatura e educação08/07/2026 às 22:030 visualizações
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Brasil de Fato — Brasil

Por Luciano Mendes e Natália Gil

Foi publicado recentemente o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL)  para o período de 2026 a 2036. É um documento amplo e complexo que merece o estudo e a discussão das pessoas que lidam com a temática, sobretudo profissionais da educação, da biblioteconomia e dos livros. É uma notícia alvissareira para um país que, ano após ano, perde leitores, fecha bibliotecas públicas e não consegue realizar nem mesmo uma decente política de bibliotecas escolares. 

Um documento que quer sulear políticas por dez anos exigirá, sem dúvida, ajustes, seja no corpo do texto, seja na implementação das ações. Outro dia, por exemplo, ouvindo uma colega do Maranhão que trabalhou com bibliotecas escolares e comunitárias, todas públicas, ela defendia que ainda é tímida a presença dessas instituições no documento e clamava por mais e efetivas políticas para fazer com que o livro e a leitura chegassem aos diversos territórios de forma institucionalizada, ainda que não burocratizada.

De nossa parte, tem chamado a atenção, há décadas, o quanto, mesmo com grandes problemas, temos avançado nas políticas de oferta de livros e de formação de leitores e leitoras. No entanto, pouco ou nada se faz para a formação de autores e autoras. Nem mesmo as professoras e os professores e demais profissionais da educação básica são reconhecidos como autores e autoras pelas políticas educacionais e do livro no Brasil.

É evidente que não estamos pensando em “cursos de formação de autores” como esses que abundam, hoje, pela internet. Ainda que haja espaço para eles, haja vista que existem e são procurados, estamos pensando na necessidade de efetivação de uma política de formação e reconhecimento de autorias que nos ajudem a pluralizar as formas de representar todas as dimensões dos seres humanos e não humanos que habitam os nossos territórios.

Professoras são autoras de aula, de textos, de reflexões e de políticas; artesãs e artesãos são autoras de obras as mais variadas que re-apresentam as suas e nossas experiências no transcurso da vida; cozinheiras e cozinheiros têm suas autorias reconhecidas e,  literalmente, engolidas nos mais diversos recantos do país; prosadoras e prosadores, poetas, cantadores, brincantes… todas e todos autores de obras que nos encantam e embalam os nossos sonhos, utopias e, não raras vezes, pesadelos.

Pode-se argumentar, e com certa razão, que o Plano em questão trata da formação de leitores de textos, sobretudo em sua forma livro. No entanto, mesmo nesse terreno é gritante o desapreço que as políticas, ou melhor, de quem elabora as políticas, pelo reconhecimento de formas de autorias que demandam a sua transformação em texto e, quem sabe, em livros. Às vezes nos esquecemos que a mais confiável forma de formação de leitoras e de leitores é a trans/formação delas e deles em autoras e autores. 

Dizíamos, acima, que professoras e professores são autores de aula, por exemplo. Mas as políticas de formação de leitores passam ao largo da necessidade de reconhecimento e da divulgação dessas autorias. E, mais, não são apenas as políticas de formação de leitores que assim procedem. As próprias políticas educacionais jamais puseram acento no incentivo e no reconhecimento, por exemplo, de veículos como revistas e jornais que buscam divulgar as autorias docentes na escola básica. É como se as professoras e os professores da educação básica não fossem capazes de escrever para seus pares e, logo, de serem lidas e lidos por eles.

Somos muito críticos aos processos de homogeneização das formas de conhecer e das formas de fazer com que os conhecimentos, sensibilidades, valores éticos e estéticos, dentre outros, são divulgados pelas plataformas tecnológicas. Não por acaso, e com grande razão, a plataformização da educação está na ordem do dia de nossas denúncias e de nossos combates. No entanto, infelizmente ainda estamos poucos atentas às formas homogeneizantes que impomos na produção e divulgação também do conhecimento crítico que se refere à escola básica pública. 

Elistismo

No Brasil, sobretudo desde o início do século XX, se impôs uma elitista e preconceituosa divisão de tarefas em educação: aos intelectuais e especialistas, formados em instituições de ensino renomadas, ficava a tarefa de pensar as políticas e práticas educativas que deveria ser meramente executada por professoras e professores formadas no fazer cotidiano do trabalho pedagógico ou em Escolas Normais. Como se fosse possível pensar boas práticas e adequadas políticas em educação longe das escolas, onde efetivamente tudo acontece. É como se não houvesse muito conhecimento relevante produzido nos espaços escolares e nos demais espaços educativos. 

As universidades, a partir dos anos 1970, foram consolidando as opções pós-graduadas de formação, produção e divulgação do conhecimento que acabaram por se impor nas últimas quatro ou cinco décadas como as formas canônicas de “oferta de conhecimentos” em nossas políticas educacionais e, também, de formação de leitoras e leitores. 

Ao perceber, ainda que talvez difusamente, essa disputa epistemológica, professoras e professores da educação básica têm, cada vez mais, buscado os cursos de mestrado e doutorado na expectativa de ampliarem sua própria compreensão e verem reconhecidas as percepções e os saberes que apreendem no cotidiano de suas práticas profissionais. 

Atualmente temos uma grande quantidade de pós-graduandos que são e continuarão sendo professores da educação básica. E nossa percepção é que, mesmo nesses casos, não se tem favorecido a autoria. Seus trabalhos acadêmicos não são lidos por quase ninguém e raramente o conhecimento que produzem chega às escolas (para além das escolas em que essas próprias pessoas trabalham). 

Em parte, o problema está no fato de que o sistema de pós-graduação faz um imenso esforço para afastar da escola em que atuam docentes que são pós-graduandos. Seja dificultando a conciliação de horários (aqui é preciso reconhecer a culpa também das redes de ensino que não dispensam com remuneração nem uma hora-atividade e raramente flexibilizam a jornada de trabalho), seja buscando enquadrá-los em temáticas e linguagens ditas mais relevantes do que aquilo que pulsa nas escolas. 

Evidentemente que se constituir autor na pós-graduação passa por aprender muito do que a tradição acadêmica tem acumulado e oferece aos ingressantes nos cursos. Mas o rigor acadêmico e a seriedade na produção do conhecimento, em nenhum caso, deveriam ser assumidos como sinônimo de linguagem hermética, deliberadamente difícil, disponível apenas para os “iniciados”. É preciso que a produção de conhecimento em educação seja acessível e compreensível para os diferentes públicos que atuam na área.

Descaso com a produção docente

Por outro lado, há um quase total descaso com a produção desses docentes. Não existe, por exemplo, nenhuma linha editorial especialmente destinada a publicar os resultados dessas dissertações e teses. Escassas são as formas de reconhecimento como autores dessas professoras da educação básica formadas em nível de mestrado e doutorado. 

Na rede pública federal de educação básica, um professor têm aumento substancial de salário quando se torna doutor em Educação. O mesmo não acontece nas redes públicas estaduais e municipais que, em geral, não têm planos de carreira que valorizem de fato essa formação. Se não há valorização salarial, evidentemente tais redes também não reconhecem seus profissionais da educação básica como autores e produtores de conhecimento. Seguem, portanto, chamando influencers e coaches ligados a think tanks para as jornadas de formação docente, enquanto muitas vezes têm na própria rede de ensino excelentes autores!

Está mais do que na hora de reconhecer, de fato e de direito, que o currículo é produzido na escola; que a escola é uma comunidade de leitura e de autoria; que os livros, as revistas, as apostilas, os cadernos… produzidos e divulgados de professora para professora são tão relevantes para o universo da escola quanto as nossas grandes e reconhecidas referências bibliográficas. 

Paulo Freire dizia que o melhor professor é aquele que, de repente, se reconhece como aluno. Do mesmo modo, a gente poderia dizer que o melhor leitor é, justamente, aquele que, de repente, se reconhece como autor! A eles e elas, que abundam nos espaços-tempos das escolas, todo o nosso reconhecimento!!

Luciano Mendes (UFMG) e Natália Gil (UFRGS) são editores da coluna Cidade das Letras do Brasil de Fato MG.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

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