Novo catálogo de vírus revela quais patógenos representam a maior ameaça para a Humanidade

Por Mark Woolhouse, Professor of Infectious Disease Epidemiology, University of Edinburgh08/07/2026 às 13:050 visualizações
Identificar e compreender novos vírus mais rapidamente pode ajudar a impedir que a próxima pandemia tenha uma vantagem inicial ao se espalhar e fazer uma enorme diferença no número final de vítimas e nos impactos sobre a economia.
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Identificar e compreender novos vírus mais rapidamente pode ajudar a impedir que a próxima pandemia tenha uma vantagem inicial ao se espalhar e fazer uma enorme diferença no número final de vítimas e nos impactos sobre a economia. Xinhua/Alamy
The Conversation Brasil

Em um ano típico, cientistas descobrem dois ou três vírus que nunca haviam sido observados em seres humanos antes. O número varia, mas a tendência tem se mantido bastante estável desde a década de 1960.

A maioria desses vírus atrai pouca atenção, e meus colegas e eu muitas vezes tivemos que vasculhar artigos médicos antigos para encontrar alguma menção a eles. Alguns vírus desaparecem completamente e são praticamente esquecidos. No outro extremo, a descoberta do HIV-1 em 1983 e do Sars-CoV-2 em 2020 prenunciou as pandemias de Aids e de COVID-19, respectivamente. Ambos já mataram dezenas de milhões de pessoas.

Da próxima vez que um cientista encontrar um vírus incomum ou desconhecido em um paciente — provavelmente nos próximos meses —, como saberá se ele poderá causar uma emergência de saúde pública na mesma escala que a Aids ou a COVID-19? Minha equipe na Universidade de Edimburgo vem utilizando as lições da história dos vírus para ajudar a responder a essa pergunta.

As pandemias assumem diversas formas, mas, nos últimos tempos, os principais responsáveis têm sido vírus com genomas compostos de RNA (em vez do mais conhecido DNA). Milhares de espécies de vírus de RNA já foram identificadas, e pode haver milhões, mas apenas 239 infectam seres humanos. Recentemente, publicamos um catálogo que ajuda a identificar os mais perigosos.

O tipo e a gravidade da doença são indicadores importantes, mas não haverá pandemia a menos que o vírus possa se espalhar entre as pessoas. Isso pode envolver contato físico, inalação de partículas transportadas pelo ar, exposição a sangue ou fezes, ou a picada de um mosquito ou carrapato.

Para dois terços dos vírus da nossa lista, é altamente improvável que uma pessoa infectada os transmita. Esses são conhecidos como vírus zoonóticos, o que significa que as pessoas geralmente os contraem de animais, e não de outras pessoas. A raiva é um exemplo.

Isso parece tranquilizador, mas os vírus evoluem rapidamente e há uma preocupação compreensível de que um vírus zoonótico possa adquirir a capacidade de se espalhar entre seres humanos. É por isso que os cientistas estão tão preocupados com a gripe aviária. Mas não há nenhum exemplo documentado de um vírus de RNA fazendo isso. A raiva não o fez, embora haja dezenas de milhares de casos em humanos a cada ano.

Uma ameaça muito maior vem de vírus que já têm a capacidade de se espalhar de pessoa para pessoa. Eles podem se tornar ainda mais transmissíveis — como aconteceu com uma série de variantes do SARS-CoV-2 —, mas eles surgiram a partir de vírus de animais que já eram capazes de se espalhar entre as pessoas. No passado distante, essa foi provavelmente a origem do sarampo, da caxumba e da rubéola, além de dezenas de vírus associados a resfriados e infecções gastrointestinais.

Depois, há vírus capazes de se espalhar entre humanos, mas que, até agora, causaram apenas surtos limitados. Isso ocorre porque seu número R (quantas pessoas, em média, uma pessoa infectada acaba infectando) é muito baixo e as cadeias de infecção acabam se extinguindo por conta própria. Mas os números R podem mudar; por exemplo, quando um vírus antes restrito a aldeias remotas chega a uma cidade. Isso aconteceu com o vírus Ebola do Zaire na África Ocidental em 2014.

Há apenas algumas dezenas de nomes em nossa lista de vírus causadores de surtos, mas ela é um poderoso indicador de emergências de saúde pública. O vírus Ebola do Zaire, os vírus Chikungunya, Zika e Oropouche — transmitidos por insetos — e o mpox (um vírus de DNA) foram os primeiros a entrar na lista, e todos acabaram causando grandes epidemias.

Alguns vírus mais raros da nossa lista também se tornaram mais conhecidos. Um deles é o hantavírus dos Andes, responsável por um recente surto em um navio de cruzeiro. Outro é o ebolavírus de Bundibugyo, que atualmente está se espalhando na África Central.

O próximo vírus pandêmico

Nossos dados também podem ajudar a prever como seria um futuro vírus pandêmico — às vezes chamado de doença X. A COVID-19 é um bom exemplo.

Em 2019, minha equipe demonstrou que vírus altamente transmissíveis tendem a estar intimamente relacionados a outros vírus que se espalham entre humanos, mas surgem separadamente a partir de animais. Isso acabou sendo uma descrição perfeita do SARS-CoV-2, muito semelhante ao coronavírus original da SARS, mas adquirido de morcegos de forma independente (e talvez indiretamente).

No ano anterior, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia proposto um coronavírus semelhante ao da SARS como candidato à “doença X”. É por isso que os cientistas ficaram alarmados com a COVID-19 desde o início — era exatamente o que eles estavam temendo.

Em contrapartida, nem o vírus Andes nem o Bundibugyo têm o perfil adequado para desencadear uma pandemia global. Mas se fosse, por exemplo, um novo vírus relacionado ao sarampo, então a história seria diferente. Nesse cenário, haveria uma possibilidade real de uma emergência mundial muito pior do que a COVID-19.

Os vírus Andes e Bundibugyo, no entanto, reforçam uma lição importante: ambos já estavam se espalhando semanas antes de serem detectados. O mesmo aconteceu com a COVID-19. Identificar e compreender novos vírus mais rapidamente impediria que a próxima pandemia tivesse essa vantagem inicial e poderia fazer uma enorme diferença no número final de vítimas e nos impactos sobre os nossos meios de subsistência e a economia.

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Mark Woolhouse recebeu financiamento do Wellcome Trust, da União Europeia e do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde. Ele prestou consultoria aos governos do Reino Unido e da Escócia, à Coalizão para a Inovação em Preparação para Epidemias (CEPI) e à Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele coordena o Fórum de Pesquisa sobre Pandemias de Edimburgo.

Fonte
The Conversation Brasil
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