Como não torcer por Lionel Messi?

Por Benedito Tadeu César09/07/2026 às 13:590 visualizações
O atacante argentino Lionel Messi comemora com companheiros de equipe após o terceiro gol de seu time durante a partida de futebol das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Egito no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 7 de julho de 2026
O atacante argentino Lionel Messi comemora com companheiros de equipe após o terceiro gol de seu time durante a partida de futebol das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Egito no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 7 de julho de 2026
Brasil de Fato — Brasil

Passei a vida torcendo contra a Argentina. Não por antipatia. Por tradição. Faz parte da infância de qualquer brasileiro aprender que, em Copa do Mundo, argentino bom é argentino eliminado.

Na sexta-feira, torci por Cabo Verde. E como não torcer? Uma pequena ilha africana, estreante em Copas, enfrentando a atual campeã do mundo. Um país de pouco mais de meio milhão de habitantes jogando um futebol alegre, ousado e sem qualquer complexo de inferioridade.

Cabo Verde quase escreveu uma das maiores páginas da história do futebol. Levou a Argentina à prorrogação, empatou duas vezes e só caiu por um infeliz gol contra. Saí triste. Não pela classificação argentina. Pela eliminação de Cabo Verde.

Mas, curiosamente, não consegui transformar aquela frustração em torcida contra a Argentina. A razão tinha nome. Messi. Veio então o jogo contra o Egito. E foi ali que compreendi o que realmente estava sentindo.

A Argentina já perdia por 1 a 0 quando teve a chance do empate. Aos 21 minutos, Messi foi para a cobrança do pênalti. Mostafa Shobeir defendeu.

Para muitos jogadores, aquele seria o momento da insegurança, da culpa, do desaparecimento em campo. Com Messi aconteceu exatamente o contrário. Ele continuou pedindo a bola. Continuou chamando a responsabilidade. Continuou acreditando.

Pouco depois, o Egito ampliou para 2 a 0. Era o cenário perfeito para o desespero. Ou para a resignação. A Argentina escolheu outro caminho. Messi passou a comandar a reação. Foi dele o passe para o gol de Cristian Romero, que recolocou a equipe na partida. Depois, marcou o gol de empate.

Já nos acréscimos, Enzo Fernández completou a virada: 3 a 2. Mais do que uma classificação, foi uma demonstração de caráter. Aos 39 anos, Messi talvez já não tenha a explosão física que encantou o mundo. Mas continua possuindo algo muito mais raro.

Coragem. Coragem para assumir a responsabilidade. Coragem para errar. Coragem para continuar tentando depois de errar. Coragem para convencer todo um time de que ainda era possível vencer.

Há quem diga que esta Argentina depende demais de Messi. Talvez. Mas existe uma diferença enorme entre depender de um craque e ser contaminado por sua liderança.

Quando Messi acredita, todos acreditam. Quando Messi insiste, ninguém desiste. Contra Cabo Verde, a Argentina esteve duas vezes em vantagem, duas vezes foi alcançada e só encontrou a classificação na prorrogação.

Contra o Egito, precisou buscar uma virada depois de desperdiçar um pênalti e de estar perdendo por dois gols de diferença. Nos dois jogos esteve à beira da eliminação. Nos dois recusou-se a aceitar o destino. Isso também é futebol. Talvez seja, antes de tudo, futebol.

A Argentina talvez nem esteja jogando o melhor futebol desta Copa. Oscila. Sofre. Comete erros. Mas jamais joga com medo. Messi também erra. Perde pênaltis. Desperdiça chances. Mas nunca deixa de assumir a responsabilidade.

É isso que transforma um grande jogador em uma referência para adversários, companheiros e até antigos rivais. Passei a vida torcendo contra a Argentina. Continuarei fazendo isso quando ela enfrentar o Brasil. Mas, depois de Cabo Verde e do Egito, percebi que minha torcida já não era exatamente pela camisa albiceleste.

Era por aquele velho camisa 10 que, aos 39 anos, continua pedindo a bola depois de perder um pênalti, continua acreditando quando tudo parece perdido e continua lembrando ao mundo que futebol também se joga com caráter. Talvez, no fundo, esta nunca tenha sido uma crônica sobre a Argentina. Era sobre Messi.

Porque rivalidade faz parte do futebol. O medo, não. É impossível não admirar um jogador que, aos 39 anos, erra, insiste, corre, acredita e lidera. Transforma o próprio exemplo em combustível para os companheiros.

Um craque que, mesmo no fim da carreira, ainda joga como se tivesse algo a provar. Na verdade, como não torcer por Messi?

* Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela Unicamp, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

Fonte
Brasil de Fato — Brasil
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