Retrato de um Brasil contemporâneo, conectado ao mundo global, atento aos temas urgentes. Foi assim que o curador Marcos Santuario resumiu o perfil do conjunto dos títulos de longa-metragem de ficção escolhidos para o 54º Festival de Cinema de Gramado, na coletiva de imprensa de lançamento desta edição, nesta terça-feira (8), na Serra gaúcha.
No entanto, essa diversidade social não se reflete na autoria dos filmes: a lista de cineastas só traz o nome de uma diretora mulher e negra — apesar de a curadoria ter ainda as atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado completando o trio com o jornalista, professor e crítico de cinema. Outra ausência sentida foi, mais uma vez, a de um representante gaúcho nesta seleção.
Os seis filmes brasileiros da mostra competitiva são: “Chorão: Só os Loucos Sabem” (SP), de Hugo Prata e Felipe Novaes; “Feito Pipa” (CE), de Allan Deberton; “Justino – Nos Bastidores do Reino” (DF), de José Eduardo Belmonte; “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo; “Nosso Segredo” (MG), de Grace Passô; e “Pele de Rinoceronte” (RJ), de Marcello Ludwig Maia. Realizado pela Gramadotur, autarquia municipal de turismo e cultura, o mais tradicional festival de cinema do país acontece, neste ano, entre 12 e 22 de agosto.
A abertura oficial será no dia 14 de agosto, com exibição hors-concours de “Antártida”, de Bruno Safadi, com Marina Ruy Barbosa, Andrea Beltrão, Lázaro Ramos e Antonio Calloni. Esse anúncio também gerou alguma estranheza por ser a primeira sessão do evento, uma vez que parece seguir mais a linha da première de streaming que o festival vinha fazendo com séries nos últimos anos, já que a estreia comercial do longa será em 17 de setembro. “É a maior produção da Globo Filmes de todos os tempos”, celebrou Rosa Helena Volk, presidente da Gramadotur, na coletiva.
Também foram apresentados outros destaques da programação, como os curtas gaúchos selecionados para o Prêmio Assembleia Legislativa, o agraciado com o troféu Sirmar Antunes, as homenagens do Iecine ao cinema gaúcho, além de detalhes sobre acessibilidade, sessões especiais e o Conexões Gramado Film Market, segmento mercadológico do evento serrano.
A gerente de Patrocínios e Eventos da Petrobras, Alessandra Teixeira, marcou presença na ocasião, como tem acontecido em outros festivais gaúchos, como o recente 16º Cine Esquema Novo e o Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (Frapa) do ano passado, que igualmente contaram com recursos da Petrobras Cultural.
A seleção sublinha a força de Gramado como a primeira janela de exibição dos mais recentes títulos da cinematografia brasileira. Santuario, nesses momentos, gosta sempre de repetir que os “filmes vêm a Gramado para nascer, não para morrer”. Ele ainda recordou a questão da obrigatoriedade de ineditismo para essa mostra, que se iniciou em 2012, edição número 40, quando ele ingressou na curadoria ao lado de José Wilker e Rubens Ewald Filho: “Isso é um dos pontos fundamentais”.
As marcas da seleção entre as ficções

Na esteira da repercussão internacional (Berlim e Guadalajara), foi anunciado primeiro “Feito Pipa”, de Allan Deberton — realizador cearense que estreou em longas com “Pacarrete”, celebradíssimo em Gramado em 2019, e agora retorna ao festival após o último longa, “O Melhor Amigo” (2024), não ter sido selecionado, para surpresa do diretor. O evento gaúcho também gosta de ser a primeira exibição em solo brasileiro depois de premières estrangeiras badaladas.
Na trama, o jovem Gugu sonha em se tornar um grande jogador de futebol. Criado pela avó, ele teme voltar a morar com o pai, com quem tem uma relação complicada, e fará de tudo para evitar que isso aconteça. O elenco conta também com Lázaro Ramos, que tem presença confirmada na Serra em agosto e já foi agraciado anteriormente com o Troféu Oscarito.
Na cota da cinebiografia musical, está “Chorão: Só os Loucos Sabem”, de Felipe Novaes e Hugo Prata (de “Elis”). Protagonizado por José Loreto, o longa mergulha na vida do rapper e cantor que marcou gerações na banda Charlie Brown Jr. Em Santos, no litoral paulista, ele conhece Graziela e, do encontro entre amor, rebeldia e vulnerabilidade, nasceram músicas que marcaram gerações.
Da seção de cineastas com trajetória prolífica na cinematografia nacional, vem o novo longa de José Eduardo Belmonte, outro parceiro do festival. O Rio de Janeiro da década de 1980 é o cenário de “Justino – Nos Bastidores do Reino”, história em que o protagonista encontra em uma poderosa igreja neopentecostal a chance de sair da pobreza — tema que instiga o diretor há tempos.
Interessante observar a presença do Rio Grande do Norte nos últimos anos em Gramado, depois de “Filhos do Mangue” (2024) e “Lendo o Mundo” (melhor documentário de 2025). Segundo longa de Carlos Segundo, cineasta radicado em Natal, “Leite em Pó” apresenta a história de um músico obcecado por rock que vê a vida desabar após uma perda familiar. Sozinho e sem dinheiro, ele decide aceitar um trabalho que o força a circular pela cidade, encontrando diferentes pessoas que desafiam a visão de mundo dele.
Entre memórias e novos laços, o protagonista inicia uma jornada transformadora para enfrentar seus fantasmas. Com elenco gabaritado (Vinicius de Oliveira, Antonio Pitanga, Zezita Matos e Rejane Faria) e a trajetória premiada do diretor em curtas, o título é uma das grandes expectativas da mostra competitiva.
Nome icônico do cinema e do teatro brasileiros contemporâneos, a diva Grace Passô (de “O Dia que Te Conheci”) entra na seleção com seu primeiro longa na direção. Em “Nosso Segredo”, uma família tenta reconstruir a rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho mais jovem guarda um segredo que pode ajudá-los a enfrentar a dor e encontrar um novo caminho.
Ambientado na década de 1970, “Pele de Rinoceronte” também é o primeiro título em longa do já veterano produtor Marcello Ludwig Maia na direção. Protagonista do drama, Débora Falabella interpreta uma repórter de um jornal popular que, ao lado de uma advogada criminalista, vê a vida mudar após um homicídio que chocou o Brasil e marcou o início do debate sobre o feminicídio.
O tema da violência de gênero parece ser uma das tônicas desta edição, já que também é o mote de “Antártida” (roteiro de Claudia Jouvin), atração da noite de abertura, fora de competição.
Evento na Serra tem série de homenagens

Sem ter sido entregue em 2025, o Troféu Cidade de Gramado será retomado nesta edição, destinado ao ator, roteirista e diretor Marcos Caruso. A distinção reconhece personalidades ligadas ao festival, cuja atuação contribuiu para a projeção do evento e da região.
Com uma longa trajetória de mais de quatro décadas no cinema, na televisão e no teatro, Caruso iniciou a carreira nos palcos na década de 1970. Ele estreou na televisão em 1978 em “Aritana” e, desde então, integrou o elenco de grandes sucessos como “Mulheres Apaixonadas” e “Avenida Brasil”. No cinema, participou de mais de 20 longas, com destaque para “Memórias Póstumas”, “Depois Daquele Baile” e “Polaroides Urbanas”.
Os demais conteúdos e homenagens (Troféus Oscarito, Eduardo Abelin e Kikito de Cristal) desta edição serão divulgados em coletivas de imprensa no Rio de Janeiro, no próximo dia 13 de julho, e em São Paulo, no dia 16.
O Festival de Cinema de Gramado também reserva espaço na programação para prestar tributo a personalidades que se destacam na produção gaúcha com o Troféu Sirmar Antunes, entregue pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul; o Prêmio Leonardo Machado, instituído pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul; e os Prêmios Iecine nas categorias de Legado, Inovação e Destaque, uma realização do Instituto Estadual de Cinema (Iecine). Todas as honrarias serão entregues na cerimônia de premiação do Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema – Mostra de Curtas Gaúchos.
O diretor de fotografia Jorge Henrique Boca levará para casa o Troféu Sirmar Antunes. Com mais de quatro décadas de atuação no audiovisual brasileiro, ele iniciou a trajetória como operador de câmera na RBS TV Porto Alegre e, desde então, atua como diretor de fotografia em curtas e longas-metragens, documentários, programas de televisão, videoclipes, publicidade e campanhas políticas. Em seu currículo estão produções realizadas em diversos estados do Brasil, além de projetos internacionais desenvolvidos em países como Angola, Argentina e Uruguai, com destaque para “O Trampo”, “Nossa Senhora de Caravaggio”, “Diminuta” e “Espia Só”.
A atriz e produtora cultural Silvia Duarte receberá o Prêmio Leonardo Machado. Com extensa trajetória nas artes e no audiovisual, a atriz participou de produções na televisão, no cinema e no teatro. Silvia também integra a coordenação da Associação Cultural Quilombo do Sopapo.
Para os Prêmios Iecine, foram escolhidos como agraciados os cineastas Renato Dornelles e Tatiana Sager (de “Central”, como Destaque), Márcio Reolon e Filipe Matzembacher (diretores do recente “Ato Noturno”, em Inovação) e a produtora Gisele Hiltl (que esteve à frente das edições anteriores do Gramado Film Market, na categoria Legado).
Conexão com o mercado audiovisual

Consolidado a partir da força simbólica e institucional de Gramado, o mercado assume uma função cada vez mais nítida no ecossistema audiovisual latino-americano: ativar negócios e coproduções, qualificar territórios que filmam e conectar futuros e talentos do audiovisual. Essa tríade orienta a 10ª edição e reposiciona o Conexões Gramado Film Market (CGFM) como uma plataforma em expansão, capaz de reunir produtores, empresas, players, fundos, distribuidores, sales agents, instituições públicas, film commissions, universidades e novas gerações de realizadores.
Sob coordenação geral de Ralfe Cardoso, que destacou os Ecossistemas do RS, o 10º CGFM — com realização da Gramadotur e do Instituto Estadual de Cinema (Iecine) — apresentará novidades como o 1º Encontro Internacional de Cidades, com painéis sobre economia criativa, políticas públicas, desenvolvimento territorial e fortalecimento do audiovisual. A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a importância da economia criativa, em especial o mercado audiovisual, como vetor de desenvolvimento, turismo, inovação e geração de renda para as cidades.
A programação contará também com o programa Residência para Jovens Cineastas (60 vagas para realizadores de 18 a 35 anos que já trabalham com audiovisual), rodadas de negócios (com 12 players e produtoras impactantes já confirmados) e painéis com profissionais da indústria. Outra curiosidade é uma mesa conduzida por Paulo Nascimento: “Filmar Nova York, Porto Alegre e Muitos Capões (RS)”.
Confira os filmes selecionados
“O Acumulador de Memórias” (Pelotas), de Camisla
“Banho Maria” (Porto Alegre), de Gabriel Faccini
“Batidão de Botas” (Pelotas), de Camila Santos (Camisla), Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle
“Braço Forte” (Pelotas), de Rubens Fabricio Anzolin e João Fernando Chagas
“Claudete” (Santa Cruz do Sul), de Gabriela Kopp
“Coisa Ruim” (Porto Alegre), de Lucas Tergolina
“Drunken Car” (Garibaldi), de Brunella Martina
“Elisete Tem que Casar!” (Caxias do Sul), de Gaby Buffon
“Estátuas Também Morrem?” (Brasil/Hungria/Portugal/Bélgica), de Thais Fernandes
“Grão” (Rio Grande), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
“Manjericão” (Xangri-Lá), de Raphaela Serafim Maciel e Eric Pauli
“Mizandrika” (Pelotas), de Kali Breder
“Procura-se Ator” (Imbé/Tramandaí), de Airton Tomazzoni e Laura Lautert
“Raidinalha” (Porto Alegre), de Marco Arruda
“O Retorno” (Porto Alegre), de Cesar Meneghetti e Mario Gianni
“Terra Bruta” (Canoas), de Allan Riggs e Guilherme Suman
“A Vaidade é a Última Que Morre” (Porto Alegre), de Natália Zambon
“O Véu” (Porto Alegre), de Gabriel Motta
