Campanha alerta para violência contra mulheres autistas

Por Victor Silva10/07/2026 às 13:430 visualizações
Roda de conversa realizada em 18 de junho, dia do Orgulho Autista, em São José do Rio Preto (SP), baseada na campanha "Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher
Roda de conversa realizada em 18 de junho, dia do Orgulho Autista, em São José do Rio Preto (SP), baseada na campanha "Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher
Brasil de Fato

A Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas (Abraça) lançou em junho, mês que celebra o orgulho autista, a campanha nacional Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher!. A iniciativa busca ampliar o debate público sobre violência de gênero e deficiência, chamando atenção para a realidade das mulheres autistas no Brasil.

O manifesto da campanha observa que a violência contra mulheres autistas é resultado do cruzamento entre misoginia, capacitismo, invisibilização, barreiras de comunicação, subdiagnóstico, infantilização, dependência econômica, ausência de acessibilidade e dificuldade de acesso às redes de proteção.

“A violência contra mulheres autistas muitas vezes se apresenta de forma silenciosa e naturalizada. Em muitos casos, ela é apresentada como cuidado, tutela ou proteção. O controle excessivo sobre corpos, rotinas, decisões, comunicação e autonomia de mulheres com deficiência ainda é frequentemente legitimado socialmente sob o argumento do “cuidado”, reproduzindo práticas capacitistas e violadoras de direitos”, destaca trecho do manifesto.

Ao longo de 2026, a Abraça prevê a realização de rodas de conversa, mobilizações em redes sociais, produção de materiais educativos acessíveis, ações públicas em diferentes regiões do país e incidência política junto a órgãos de proteção e ao Sistema de Garantia de Direitos. Os materiais deverão contemplar recursos como linguagem simples, libras e audiodescrição, reforçando o compromisso da campanha com acessibilidade e participação social.

“A campanha nasce da necessidade de dar visibilidade a uma realidade ainda pouco reconhecida: mulheres autistas estão entre os grupos mais vulneráveis à violência, mas continuam subnotificadas e invisibilizadas”, afirma Jéssica Borges, presidente da Abraça. “Com essa iniciativa, a Abraça busca transformar essa pauta em uma agenda permanente de prevenção, conscientização e incidência política, mobilizando a sociedade e o poder público para enfrentar as múltiplas formas de violência sofridas por mulheres autistas”, conclui.

A campanha também chama atenção para o impacto da misoginia online sobre adolescentes e jovens autistas. Comunidades digitais que normalizam discursos antifeministas, violentos e de desumanização das mulheres têm alcançado meninos e jovens em processo de formação. Por isso, uma das frentes da campanha será a construção de diálogo acessível sobre gênero, masculinidades, convivência, respeito e enfrentamento à violência.

Violência contra mulheres com deficiência

Segundo o Atlas da Violência 2026, entre as 24.946 notificações de violência contra pessoas com deficiência registradas em 2024 no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), 17.262 envolveram mulheres com deficiência, o que corresponde a aproximadamente 69,2% do total. Destas, 60,6%, ocorreram no contexto doméstico, percentual superior ao observado entre homens com deficiência, de 50%.

O mesmo levantamento aponta taxas especialmente elevadas de notificação entre mulheres com deficiência intelectual, de 81,5 por 10 mil habitantes, em contraste com 37,0 entre homens com deficiência intelectual. Há também uma concentração da violência sexual contra meninas e adolescentes com deficiência: entre mulheres com deficiência, a violência sexual correspondeu a 47,3% das notificações na faixa de 0 a 9 anos e a 52% entre 10 e 19 anos.

O manifesto da campanha também aponta que o enfrentamento à violência é dever de toda a sociedade. “A violência de gênero não pode nem deve ser enfrentada apenas pelas mulheres. É fundamental envolver toda a sociedade na construção de relações baseadas no respeito, na equidade e nos direitos humanos. O enfrentamento ao machismo, à misoginia, à LGBTfobia e à cultura da violência deve fazer parte da construção coletiva de uma sociedade verdadeiramente inclusiva e acessível”, ressalta o documento da associação.

“Não existe inclusão real enquanto mulheres continuarem vivendo sob violência, silenciamento e exclusão”, finaliza o manifesto.

Mais informações sobre a Campanha da Abraça estão disponíveis no site da organização.


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Fonte
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