Vorcaro ofereceu dinheiro para influenciadores criticarem o BC nas redes, segundo a PF

Por Redação10/07/2026 às 13:210 visualizações
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro
Brasil de Fato

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ofereceu pagamentos de até R$ 2 milhões para que influenciadores digitais publicassem conteúdos contra o Banco Central (BC) e em defesa do Banco Master nas redes sociais, segundo as investigações da Polícia Federal (PF). 

As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero e determinou busca e apreensão contra o publicitário Thiago Miranda Silva nesta sexta-feira (10), apontado pela investigação como responsável por coordenar as ações.

Segundo a PF, o esquema foi batizado de “Projeto DV”, em referência às iniciais de Daniel Vorcaro. A investigação aponta que Thiago Miranda, sócio do Portal Léo Dias e da agência MiThi, atuava no recrutamento de influenciadores e jornalistas, fazia os pagamentos e coordenava ações de comunicação para favorecer o Banco Master e questionar a atuação do Banco Central.

De acordo com a investigação, os interessados recebiam propostas para firmar contratos de prestação de serviços e de confidencialidade com multa de R$ 800 mil em caso de descumprimento antes de conhecerem o conteúdo do trabalho. 

Em depoimento à Polícia Federal, o vereador Rony Gabriel afirmou que recebeu uma proposta de “gerenciamento de reputação” para “um importante executivo”. Após assinar o acordo de confidencialidade, foi informado de que deveria gravar vídeos defendendo o Banco Master.

A PF afirma que pessoas que recusaram participar do projeto passaram a ser alvo de intimidação. Segundo a investigação, o grupo utilizava informações privadas obtidas de forma ilícita para coagir quem não aceitava as propostas.

Pagamentos de Vorcaro

Em depoimento, Thiago Miranda confirmou que realizava os pagamentos aos influenciadores. Segundo a investigação, os recursos tinham origem em Vorcaro e eram transferidos por meio da empresa Super Empreendimentos e Participações. Para a PF, o dinheiro fazia parte do esquema investigado na Operação Compliance Zero.

Segundo Miranda, após a primeira soltura do banqueiro, foi elaborado o “plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise”. O publicitário confirmou que o Projeto DV previa a produção de “matérias a serem veiculadas em mídia sobre a prisão e sobre toda a investigação relacionada ao Master”.

A investigação também aponta ações para monitorar e pressionar jornalistas. Segundo a PF, Thiago Miranda e Daniel Vorcaro discutiram estratégias para obter informações sobre a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, incluindo dados financeiros, familiares e patrimoniais. 

Em mensagens analisadas pela corporação, Vorcaro afirmou que precisava “frear” a jornalista porque ela iria “dar trabalho nos próximos dias”. Em outra conversa, disse que precisava “calar essa mulher”. Os diálogos também registram discussões sobre uma proposta para contratar Malu Gaspar. O nome do jornalista Lauro Jardim também aparece nas conversas e, segundo O Globo, ele recebeu uma proposta de contratação.

A Polícia Federal também afirma que a jornalista Consuelo Dieguez, da revista Piauí, foi procurada por Thiago Miranda para retirar uma reportagem do ar. Segundo a investigação, ela recusou o pedido e orientou o publicitário a encaminhar uma carta à revista com os termos “do que ele acharia que refletiriam a realidade.”

A decisão também cita Renato Breia, sócio fundador da Nord Investimentos, que teria retirado um conteúdo do ar a pedido de Thiago Miranda, segundo a PF. A investigação afirma que mensagens mostram “a sua contrariedade com a abordagem”.

“Do teor das conversas registradas, verifica-se que Thiago ficou contrariado com a postura de Consuelo. Isso porque a jornalista se recusou a fazer a retirada do conteúdo solicitado e o orientou a enviar uma carta à revista com os termos do que ele acharia que refletiriam a realidade. Já no caso do contato com Renato, apesar de o pedido para retirada do conteúdo ter sido atendido, verifica-se da sua mensagem de resposta à Thiago a sua contrariedade com a abordagem, da forma como realizada”, diz trecho da decisão de Mendonça.

Em nota à imprensa, a Nord e seu sócio-fundador confirmaram que foram procurados por Miranda “insistentemente” para que Breia retirasse um conteúdo publicado em seu perfil no Instagram em outubro de 2024. A publicação recomendava aos clientes que não investissem no CDB do Banco Master. “O executivo foi, inclusive, acionado extrajudicialmente pela instituição. Breia está à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos que se façam necessários”, diz em nota.

A investigação ainda aponta que Vorcaro pediu a Miranda um levantamento sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, e sua esposa. Em uma das mensagens, Vorcaro escreveu: “Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy”. Thiago Miranda respondeu: “Deixa comigo.” Segundo a PF, um dossiê sobre o casal foi produzido pela agência do publicitário e compartilhado entre os dois.

A decisão de André Mendonça afirma que os elementos reunidos pela investigação não são “meras conjecturas”. O ministro autorizou a apreensão de documentos, aparelhos celulares e dados armazenados em nuvem, além do afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Thiago Miranda. O parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi favorável às medidas. Segundo a decisão, o grupo tinha “contornos de máfia” e atuava contra pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Daniel Vorcaro.

Em nota, a defesa de Miranda negou irregularidades. Segundo os advogados, o publicitário sempre atuou com “legalidade, transparência, respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão”. A defesa afirmou ainda que ele não praticou “ato criminoso” e “não participou de condutas voltadas a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros”. Também declarou que a investigação não permite antecipação de culpa e informou que Thiago Miranda está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Fonte
Brasil de Fato
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