Histórias da Copa: a solidariedade ao povo palestino e a resistência dos países oprimidos

Por Maíra do MST10/07/2026 às 12:100 visualizações
Artistas fazem retrato do técnico da seleção egípcia em Gaza. Hossan Hassan foi uma das figuras mais emblemáticas da competição ao se posicionar abertamente contra o genocídio palestino
Artistas fazem retrato do técnico da seleção egípcia em Gaza. Hossan Hassan foi uma das figuras mais emblemáticas da competição ao se posicionar abertamente contra o genocídio palestino
Brasil de Fato

Historicamente, o gramado da Copa do Mundo é um palco que expressa conflitos internacionais, carregando todas as suas contradições, mas também o potencial de transformação por parte dos países periféricos. Se a Copa é um produto privilegiado no sistema capitalista, em que o futebol é a mercadoria que a Fifa oferece para enriquecer os bolsos da burguesia por todo o planeta, também é verdade que, ao longo de décadas, os países do Sul Global impuseram vitórias aos imperialistas em campo. Foi nos gramados que o Brasil se afirmou culturalmente perante o mundo, na figura de um homem negro e trabalhador, o qual se tornaria o maior atleta da história.

Nessa Copa, não é diferente. Aliás, as contradições estão ainda mais afloradas: sediada nos Estados Unidos, além de México e Canadá, o torneio é atravessado por violências diretas e indiretas do governo de extrema direita de Donald Trump. Quem não se lembra dos interrogatórios e dos constrangimentos cometidos contra a seleção do Irã, país que é agredido militarmente pelos EUA desde março deste ano? Isso sem falar na deportação do árbitro somali Omar Artan e na negação de visto para milhares de torcedores de países como Haiti, Senegal e o próprio Irã. O que era para ser um encontro de povos e culturas, de celebração da diversidade por meio do esporte, virou um torneio refém dos delírios eugenistas e supremacistas do presidente norte-americano. Na última semana, o público ficou escandalizado com a interferência trumpista sobre a suspensão de um jogador estadunidense, escancarando a subserviência da Fifa aos seus desmandos.

No desfile de 4 de julho, data que marcou os 250 anos da independência dos EUA, o mundo se chocou ao ver supremacistas brancos, usando balaclavas e bonés para ocultar suas identidades, marchando orgulhosamente em Nova York. Sim, você não leu errado. Uma milícia, que se intitula patriótica, destilou seu ódio racial livremente, protegida por Trump, sem qualquer impedimento ou objeção. Uma versão “moderna” da Ku Klux Klan. Todos esses absurdos evidenciam a gravidade da guerra cultural travada pelo trumpismo.

Em contrapartida, a Copa continua sendo um espaço de resistência e afirmação dos povos oprimidos. O mundo inteiro assistiu, mais uma vez, o congolês Michel Mboladinga vestido de Patrice Lumumba, revolucionário que liderou a independência da República Democrática do Congo e foi assassinado logo depois, nas arquibancadas dos jogos da seleção congolesa; e a homenagem do goleador alemão Deniz Undav, cujos pais são curdos, ao seu povo de origem.

No seio dessas manifestações, um ato chama ainda mais atenção, sobretudo pela coragem. Ao se posicionar de forma intransigente em defesa do povo-irmão palestino e contra o genocídio em Gaza, a seleção egípcia saiu dessa Copa muito maior do que entrou. Infelizmente, a participação do Egito já se encerrou num jogo épico e disputadíssimo, mas seu técnico, Hossam Hassan, foi um porta-voz incansável da denúncia da dor e do sofrimento do povo palestino. Quando o país se classificou às oitavas de final, Hassan entrou em campo com a bandeira da Palestina e dedicou a vitória ao seu povo. Antes da partida contra a Argentina, em entrevista coletiva, afirmou: “eu imploro, deixem o povo palestino viver […] se alguém não sentiu o sofrimento do povo palestino, não tem humanidade. […] Lá, não há refúgio. Deveríamos nos envergonhar enquanto humanidade”. Depois dessa declaração só restou o eco do silêncio constrangedor.

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Dados oficiais do Ministério da Saúde de Gaza contabilizam mais de 73 mil mortos desde outubro de 2023. Desse total, cerca de 22 mil eram crianças, sendo mais de mil bebês com menos de um ano de idade. O genocídio praticado por Israel é apoiado e financiado militar e economicamente pelos EUA. Segundo a Associação Palestina de Futebol, os dois países já assassinaram mais de mil atletas. Nesta terça-feira (7), Israel matou Mohamed Fawaz al-Wahidi, diretor de relações públicas do Comitê Egípcio em Gaza. Ele era responsável por organizar os jogos da copa na Faixa de Gaza, cujas fotos de sobreviventes torcendo pela seleção egípcia em meio aos escombros rodaram o mundo. Na última semana, um goleiro palestino foi morto enquanto buscava água para sua esposa grávida. No ano passado, Suleiman Al-Obaid, lenda do futebol local conhecido como “Pelé Palestino”, foi assassinado aos 41 anos enquanto aguardava ajuda humanitária. Pouco tempo depois, Al-Obaid foi homenageado pela Uefa, que omitiu as circunstâncias de sua morte. O craque egípcio Mohamed Salah criticou duramente a entidade: “podem nos dizer como ele morreu, onde e por quê?”, publicou em suas redes sociais.

Então, é preciso afirmar: enquanto os capitalistas se apropriam do esporte para lucrarem, apesar de todos os pesares, os povos oprimidos utilizam o futebol como ferramenta de denúncia, transformação social, afirmação cultural e solidariedade. Para nós do MST, que temos o internacionalismo como princípio, a Copa do Mundo não se constrói apenas pelos resultados das competições: esses jogos carregam e expressam também a luta internacional da classe trabalhadora e, ações como a de Hassan, fazem parte das histórias das copas que ficarão eternizadas nos registros públicos e na memória dos povos ao redor do mundo.

Palestina livre!

*Maíra do MST é vereadora da cidade do Rio de Janeiro, professora de História e doutoranda em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Brasil de Fato
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