Brasil: As ações nas periferias que buscam ampliar espaços de educação ambiental

Por Agência Mural10/07/2026 às 21:000 visualizações
Nathalia, agricultora, faz entregas de verduras de bicicleta. Foto: Coletivo das Marias/Uso com permissão
Nathalia, agricultora, faz entregas de verduras de bicicleta. Foto: Coletivo das Marias/Uso com permissão
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Coletivos em São Paulo criam hortas comunitárias e educam sobre lixo em busca de soluções climáticas

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Jovens, junto com Priscila, colhem na horta comunitária do cursinho. Foto: Marcus Vinícius/Utilizada com permissão

Este texto, de autoria de Felipe Barbosa, Gabrielly Souza, Thauane Blanche e Thila Moura, foi publicado originalmente em 22 de abril de 2026, no site da Agência Mural. Ele faz parte do projeto Planeta Território – Tecnologias de Letramento Climático, realizado pelo Território da Notícia em parceria com o ICS – Instituto Clima e Sociedade. O artigo é reproduzido aqui sob acordo de parceria com o Global Voices, com edições.

Coletivos e organizações das periferias de São Paulo e da região metropolitana transformam realidades locais ao unir educação ambiental, mobilização comunitária e soluções práticas para enfrentar a crise climática. Áreas antes destinadas ao descarte de lixo viraram hortas comunitárias que hoje abastecem famílias. Há ainda projetos de combate ao desmatamento e ao loteamento clandestino. 

A Agência Mural selecionou quatro coletivos que atuam junto à população local para mitigar os impactos das mudanças climáticas e promover a educação ambiental em seus territórios.

Plantando e colhendo

No Jardim Lapena, na zona leste de São Paulo, um ponto de descarte irregular de lixo se tornou uma horta comunitária que alimenta dezenas de famílias. Foi ali que Maria Edilene, 39, fundou o Coletivo das Marias“O maior prazer que tenho é falar é que não foi o poder público que acabou com o lixo”, afirma ela.

A mudança começou há cerca de 14 anos, quando Maria se deparou com o acúmulo de sacos de lixo na frente de casa. Incomodada com a exposição dos filhos e de outras crianças a materiais tóxicos, mau cheiro, ratos e insetos, ela decidiu agir. “Me recusava a criar meus filhos com o lixo”, conta.

Sozinha, começou a limpar o espaço e mobilizou outros moradores. Inicialmente, sete vizinhos se somaram ao mutirão. Maria passou a cultivar chás no local, prática que remete à origem nordestina. O que começou de forma intuitiva se consolidou, com o tempo, como uma ação de educação ambiental. “Na época, nem sabia que era esse o nome, mas as pessoas foram se conscientizando”, diz.

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Maria Edilene com um pé de alface da horta comunitária. Foto: Coletivo das Marias/Usada com permissão

Com o avanço do trabalho ao longo dos anos, a área se transformou em uma horta comunitária, com cultivo de hortaliças como alface, cenoura, beterraba e rabanete, além de plantas medicinais, conhecidas como “farmácia viva”.

Toda a produção é agroecológica, sem uso de agrotóxicos, respeitando o tempo da natureza e a polinização realizada por abelhas, pássaros e borboletas.

O espaço abastece diretamente 72 famílias, que participam de um sistema de compostagem comunitária – processo biológico que transforma resíduos orgânicos (restos de alimentos, cascas, folhas) em adubo natural. A partir do cadastro, os moradores contribuem com resíduos orgânicos, que são pesados e monitorados e, em troca, têm acesso aos alimentos da horta.

Para Nathalia Souza, 30 anos, agricultora local, o trabalho representa uma mudança de perspectiva. “Nunca imaginei que sairia do Nordeste para trabalhar com a terra [em São Paulo]. Hoje, consigo ver o mundo de outra forma”, afirma.

A proximidade com a família, a redução dos deslocamentos e o contato com a terra estão entre os principais ganhos. Aprendi a me comunicar com a natureza. Isso mudou minha rotina, minha alimentação e a forma como eu me vejo, completa.

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Nathalia, agricultora, faz entregas de verduras de bicicleta. Foto: Coletivo das Marias/Uso com permissão

O Coletivo das Marias também conta com parcerias, como o Ciclolog, organização de mobilidade e comunicação ambiental, responsável pelo projeto Bike Horta. A iniciativa promove a coleta de resíduos orgânicos por meio de bicicletas. Famílias e escolas recebem baldes para o descarte de restos de alimentos, que são recolhidos três vezes por semana e levados à composteira.

“A parceria com a horta começou em 2021, com apoio aos mutirões e à comunicação local”, conta Everton Silva, 35, coordenador da Ciclolog.

Tirando o lixo

A 5 quilômetros de onde fica o Coletivo das Marias, vive Ionilton Gomes de Aragão, 56, conhecido como Aragão, na comunidade Santa Inês, no distrito de São Miguel Paulista. Ele está no bairro há 50 anos e acompanha de perto as transformações no território.

“Morar em um lugar limpo, organizado e iluminado melhora a autoestima”, afirma o criador do Varre Vila.

O projeto é uma iniciativa de educação ambiental voltada à participação popular. Eles colocam caçambas identificadas para lixo orgânico e reciclável em diversos pontos dos bairros. Cerca de 34 toneladas de resíduos são retiradas por mês.

A manutenção é feita pelos próprios moradores. “Ainda não atingimos 100% do bairro, mas grande parte já entende a importância das nossas ações. Por isso, seguimos com essa educação ambiental contínua”, afirma Aragão.

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Aragão explica sobre o ponto de coletas. Foto: Diego Monteiro/Uso com permissão

“É quase um clamor: cuide e ajude a cuidar do lugar onde você mora, trabalha e vive. Se a população não estiver junto, não funciona”, ressalta.

O bairro conta com ações de conscientização sobre o descarte de resíduos, um cuidado essencial em uma região que enfrenta enchentes e alagamentos frequentes.

“Recebemos depoimentos de moradores de que, após as enchentes, a água tem escoado mais rápido e sem lixo boiando nas ruas”, diz Aragão.

Apesar da trajetória consolidada, a iniciativa enfrenta desafios de financiamento. 

“A atuação é importante porque caminha para mudança de comportamento da população em relação ao descarte irregular de resíduos”, completa. 

Soluções em rede

Para além de regiões mais urbanizadas, territórios onde o meio ambiente está fortemente presente também enfrentam desafios de preservação. Na região sudoeste da Grande São Paulo, cidades como Embu das Artes, Cotia e Itapecerica da Serra, possuem 60% do território em Área de Proteção aos Mananciais (APMs) e inserido na Mata Atlântica.

Rodolfo Almeida, 43, diz que é uma tarefa árdua atuar na região. Ele é ambientalista e conselheiro da SEAE (Sociedade Ecológica de Embu), ONG que atua há 54 anos na defesa ambiental dos três municípios.

A SEAE trabalha com projetos socioambientais em escolas e comunidades locais e conta com mais de 100 membros permanentes. A entidade tem projetos educativos para conscientizar o público sobre a importância da preservação das áreas de mananciais. “Aquele rio ou nascente tão perto de casa precisa ser cuidado com o mesmo zelo que a água em nossas casas”, explica Rodolfo.

O projeto “Observando Rios”, iniciativa em parceria com a ONG SOS Mata Atlântica, leva as comunidades às margens dos rios e ensina a avaliar o estado dos cursos d'água.

Já o “Conecta Cotia-Guarapiranga” é um guia de campo tecnológico que mapeia fontes de água e matas, a fim de orientar o monitoramento desses recursos naturais e o desenvolvimento de planos de conservação ambiental mais eficazes.

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Pessoas participam do projeto “Observando os rios”. Foto: SEAE/Uso com permissão

A Bacia do Guarapiranga abastece mais de 4 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo, mas é afetada pelo desmatamento, por ocupações irregulares e por contaminação por esgoto não tratado.

Uma das análises mais recentes do projeto “Observando Rios” classificou a água do córrego Ribeirão da Ressaca, nos bairros Ressaca e Caputera, no limite entre Embu, Cotia e Itapecerica, como “ruim” (alto nível de poluição e imprópria para consumo). 

“Os indicadores evidenciam a falta de ações educativas e atuação política para garantir um saneamento eficiente”, avalia Rodolfo.

Dentro das escolas

A educação ambiental também é um dos objetivos da ambientalista Adriana Abelhão, 59, vice-presidente da Preservar Ambiental, em Itapecerica da Serra. A ONG nasceu em 2009, com foco na luta contra o desmatamento no bairro de Itaquaciara, alvo de loteamentos clandestinos e de construções irregulares de galpões e aterros. Ela também busca meios de levar o tema ambiental à comunidade.

“Cada vez mais moradores de cidades próximas nos procuram para orientações sobre denúncias ambientais e projetos de educação ambiental”, conta Adriana. “Desde a moradora que ama a árvore de sua rua e quer protegê-la, representantes da causa animal, até grupos de moradores que se organizam para enfrentar agressões de grande porte contra o meio ambiente”.

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Adriana Abelhão explica a estudantes sobre a importância da educação ambiental nos territórios. Foto: Preservar Ambiental/Uso com permissão

Na educação ambiental, o grupo atua em quatro escolas estaduais com o projeto Conexão Natureza, voltado a alunos e professores. “Tratamos de temas como mudanças climáticas, mananciais, saneamento básico, resíduos sólidos e soluções baseadas na natureza. São dois anos de trabalho e 4 meses em cada uma das 4 escolas parceiras”, conta o ambientalista.

Educando para o plantar

No Cursinho Comunitário dos Pimentas, uma parte significativa dos alimentos consumidos por alunos e voluntários é cultivada no próprio local. Situado em Guarulhos, na Grande São Paulo, o espaço reúne 130 jovens e 20 voluntários, com idades entre 18 e 23 anos. O espaço possui uma área verde, com iniciativas como pomar, hortas alimentares e medicinais.

O cursinho mantém ainda um meliponário de abelhas nativas da Mata Atlântica e promove a reciclagem dos materiais entregues pela comunidade. Esses itens são comercializados pelos voluntários, e a renda obtida contribui para apoiar estudantes aprovados em universidades no interior ou em outros estados.

Ex-aluno e hoje voluntário, o biólogo Marcus Vinícius, 27, destaca que o curso se tornou um polo de oportunidades em uma região com poucos equipamentos ambientais. É um trabalho coletivo, feito por muitas mãos. A gente colhe diariamente os resultados, diz.

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Estudantes do cursinho cuidando das árvores e plantas em vasos. Foto: Marcus Vinicius/ Uso com permissão

Fonte
Global Voices Brasil
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