Desemprego estimula movimento anti-imigração sul-africano que expulsa e ameaça estrangeiros

10/07/2026 às 22:000 visualizações
Sputnik Brasil
Em meio a protestos, saques e capturas realizadas por grupos integrados por civis em cidades sul-africanas contra imigrantes que eles consideram ilegais, a Nigéria afirma que dois de seus cidadãos foram mortos em Pretória. A África do Sul, por sua vez, não reconhece as mortes.
A Operação Dudula e o movimento March and March são ondas de manifestações que começaram na década de 1990, vez ou outra reaparecem e voltaram a inflamar nos últimos meses.
Alexandre dos Santos, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), explica ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, que esse movimento anti-imigração nasce em localidades pobres e se parece muito com uma milícia.

"É um movimento xenófobo contra pessoas tão pobres e com tantas carências quanto quem está se levantando contra elas. Na verdade, isso tudo é um grande somatório de situações: você tem uma frustração social muito grande, uma incapacidade do Estado sul-africano de distribuir riqueza e distribuir bem-estar para essas pessoas que são muito pobres, continuam pobres e vão cada vez mais empobrecendo, desde o fim do Apartheid."

Barbara Marciano, doutoranda em antropologia da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que a indignação é seletiva e direcionada justamente contra imigrantes de países como Moçambique, Malawi e Zimbábue. Segundo Santos, mais que xenofobia, a perseguição pode ser descrita como "aporofobia" — o preconceito contra pessoas pobres ou em situação de vulnerabilidade.
O professor da PUC-Rio aponta, ainda, indicadores que contribuem para a ebulição desse caldeirão social, cujo resultado são os ataques violentos contra imigrantes. Conforme o analista, citando dados do serviço estatal Statistics South Africa, a taxa de desemprego no país é de 33% — em áreas mais pobres, chega a 70%.
Como a África do Sul há muitos anos combina desemprego alto, desigualdade extrema e serviços públicos ruins, em uma estrutura muito racializada, em áreas mais pobres a "exceção é ter emprego", diz Santos.
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Para os analistas, a postura da população sul-africana é totalmente equivocada, uma vez que a cobrança deveria ser institucional. Por outro lado, os governantes parecem não impor uma oposição aos protestos.
Segundo Marciano, o governo "fala muito sobre a violência, tenta se desvincular desses ataques, tenta colocar isso como uma manifestação popular de outras instituições, mas isso também vem sendo usado justamente porque o governo não quer se indispor com o eleitorado sul-africano".
Já Santos destaca que os imigrantes aparecem nessa equação como "boi de piranha", ou seja, são prontamente identificados como os inimigos nesse cenário de precariedade. Enquanto os manifestantes vão ao confronto contra as pessoas vindas de outros países, "deixam de cobrar políticas públicas de emprego, políticas públicas de habitação melhor, políticas públicas de saúde, de educação. Essa retórica anti-imigrante é muito sedutora porque ela oferece uma resposta muito satisfatória do ponto de vista emocional", avalia.
O analista acrescenta que o imbróglio tem gerado incidentes diplomáticos. A Nigéria questiona a África do Sul sobre a morte de seus cidadãos, e Moçambique promoveu repatriação em massa de seus nativos após um ultimato dado pela Operação Dudula e pelo movimento March and March.
No âmbito institucional, o governo do presidente Cyril Ramaphosa tem dificuldades de lidar com o tema, diz o professor da PUC-Rio. A liderança, que substitui a administração de Jacob Zuma, tem patinado na missão inglória de recolocar a economia nos trilhos. Nesse cenário, há os movimentos insurgentes. O que até aqui o governo faz para penalizar quem participa desses atos é identificar aqueles que estão transformando isso em capital político.
De modo geral não há oficialmente criminalização dos movimentos. O que o governo também tem feito é "ajudar esses imigrantes que estão com medo, que querem ir embora da África do Sul, a sair do país", completa o especialista.
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