A Vigilância Sanitária do Distrito Federal determinou a interdição total do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Paranoá após identificar risco sanitário e graves condições de insalubridade nas instalações da unidade. A decisão, formalizada na última semana, suspende todas as atividades administrativas e de atendimento ao público até que sejam cumpridas as exigências técnicas para a desinterdição.
Responsáveis por atender famílias em situação de vulnerabilidade, os Cras são a principal porta de entrada da proteção social no Sistema Único de Assistência Social (Suas). Entre os serviços oferecidos estão a inscrição e atualização do CadÚnico, acompanhamento familiar, encaminhamentos para benefícios e programas sociais como Bolsa Família.
O termo emitido pela Vigilância Sanitária aponta contaminação por animal sinantrópico, fiação elétrica exposta, mofo generalizado, sistema de climatização inoperante, aberturas que permitem a entrada de pragas, além de reservatórios de água desprotegidos. O documento também determina o bloqueio imediato do sistema de distribuição de água do imóvel.
Estrutura precária
Segundo o presidente do Sindicato dos Servidores da Assistência Social e Cultural do Distrito Federal (Sindsasc), Clayton Avelar, os problemas estruturais da unidade já eram de conhecimento da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) há meses. Ele afirma que o sindicato começou a denunciar as condições do prédio ainda em 2025 e intensificou as cobranças em fevereiro deste ano, mas as respostas da pasta não resultaram em intervenções efetivas.
“Quando os primeiros problemas começaram a aparecer, nós fizemos denúncias e procuramos a gestão. A partir de fevereiro deste ano, isso ficou mais intenso. As respostas eram sempre de que as providências estavam sendo encaminhadas, mas os problemas nunca eram resolvidos”, afirmou.
De acordo com Avelar, a degradação do prédio ocorreu de forma gradual. O primeiro problema identificado foi a interdição de um banheiro. Em seguida, começaram as infiltrações durante o período de chuvas, que comprometeram luminárias e provocaram a queda de parte do forro. Paralelamente, surgiram falhas na rede elétrica e defeitos constantes no sistema de climatização.
Nos últimos meses, relata o dirigente sindical, a situação se agravou com a presença constante de saruês no forro da unidade. Segundo ele, os animais passaram a circular pelos ambientes internos, deixando sinais da infestação antes da descoberta de um exemplar morto na caixa d’água, fato que levou os servidores a acionarem a Vigilância Sanitária.
“Os servidores chegavam pela manhã e encontravam as mesas reviradas, urina no chão e um cheiro muito forte. A situação culminou com a descoberta de um saruê morto na caixa d’água”, relatou.
Após a inspeção, a Vigilância Sanitária concluiu que o imóvel apresentava condições de insalubridade e determinou sua interdição. Antes disso, o Sindsasc já havia notificado o Ministério Público do Trabalho (MPT) condições na unidade. O documento cita problemas de climatização desde dezembro de 2025, infiltrações, risco elétrico, mobiliário inadequado, vazamentos, presença de escorpiões, ratos, lacraias e saruês, além de possível contaminação da água consumida no local.
Atendimento comprometido
Segundo o sindicato, o Cras do Paranoá conta com 13 servidores, além de quatro estagiários, oito vigilantes e uma funcionária da limpeza. Inicialmente, eles foram colocados em trabalho remoto e poderão ser remanejados para outros equipamentos da assistência social na região.
Na avaliação de Avelar, porém, a interrupção das atividades tende a ampliar dificuldades que já eram enfrentadas pela população antes mesmo da interdição. O dirigente afirma que a unidade atende a uma demanda crescente desde a implantação do Paranoá Parque e também é responsável por famílias da área rural da região administrativa.
“Mesmo que a unidade estivesse em perfeitas condições, a população já enfrentava dificuldades para acessar o serviço por causa do pequeno quantitativo de servidores. O Paranoá cresceu muito depois da implantação do Paranoá Parque e o Cras também atende uma extensa área rural. A tendência é que a situação se agrave, porque, mesmo que a equipe seja transferida para outro local, será um trabalho em um espaço improvisado”, avaliou.
O presidente do Sindsasc também chama atenção para o fato de o prédio ter sido reformado em 2023. Para ele, a deterioração da estrutura em um período tão curto levanta questionamentos sobre a qualidade das intervenções realizadas.
“Em apenas três anos, uma unidade recém-reformada já apresenta problemas graves. É preciso que a Secretaria tenha mais atenção com a qualidade das obras que tem feito”, defendeu.
Problemas em outras unidades
A situação do Cras Paranoá não representa um caso isolado, mas reflete dificuldades enfrentadas por outras unidades da rede socioassistencial do Distrito Federal. Segundo Avelar, problemas estruturais também foram registrados em equipamentos localizados em Planaltina, Gama, Ceilândia e São Sebastião.
“Em Planaltina, o complexo que reúne Cras, Creas e Centro de Convivência teve problemas na caixa d’água e foi constatado que a água não estava em condições de uso. No Gama, uma unidade recém-reformada foi entregue com problemas graves de acessibilidade, inclusive com registro de quedas de idosos. Já os Cras de Ceilândia Norte e Ceilândia Sul precisam de reparos estruturais. Em São Sebastião, a equipe está atendendo provisoriamente em um prédio inadequado, onde muitas vezes a fila chega até a calçada”, afirmou.
Para o dirigente sindical, a precarização da infraestrutura está relacionada ao baixo investimento na política de assistência social. Além da recuperação das unidades, ele defende a ampliação do orçamento da área, nomeação dos aprovados no concurso público e maior diálogo entre a gestão da Secretaria e os trabalhadores.
“É preciso enfrentar o contingenciamento de recursos, ampliar o orçamento da assistência social e garantir a nomeação dos aprovados no concurso público. Enquanto o contingenciamento permanecer, essas nomeações ficam comprometidas”, argumentou.
O que diz a Sedes
Em nota enviada ao Brasil de Fato DF, a Secretaria de Desenvolvimento Social afirmou que o Cras Paranoá “não foi interditado”, mas fechado para manutenção e melhorias estruturais previstas em cronograma da pasta.
Segundo a secretaria, a unidade realiza, em média, 1,4 mil atendimentos mensais e a população não ficará desassistida. Os atendimentos agendados serão remanejados para unidades próximas e postos do Cadastro Único, conforme o tipo de serviço procurado. A pasta informou ainda que a previsão é de reabertura ainda neste semestre.
A Sedes também destacou que realizou manutenção integral em 50% das unidades da rede socioassistencial, incluindo obras de acessibilidade, além da renovação do mobiliário e da substituição dos equipamentos de informática nos últimos quatro anos.
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