A disputa da semifinal da Copa do Mundo entre França e Alemanha acontece na terça-feira (14) e coloca em campo duas das seleções consideradas favoritas no Mundial. Fora dos gramados, autoridades dos dois países, incluindo o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, se unem para repudiar o racismo que tem marcado a edição da competição desde o início.
Dessa vez, o ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy escreveu em artigo que a seleção francesa de futebol é uma equipe “sem franceses”. O episódio se soma ao comentário da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que direcionou insultos racistas contra Kylian Mbappé.
Em sua participação no É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o historiador e professor Diogo Xavier avalia que o racismo estrutural se manifesta de maneira global e perniciosa. Muitas vezes, por estar no contexto do futebol, ataques racistas são encarados como uma “brincadeira”, como foi o caso do canto criado pela torcida argentina.
“É uma música dos torcedores argentinos dizendo que os jogadores franceses vêm todos de Angola, que também é uma burrice histórica, porque Angola foi colônia portuguesa e não francesa. Nem o estudo historiográfico tem sobre o que é colonialismo”, critica.
Xavier avalia que o racismo é bastante impulsionado por movimentos internos do país, no caso da França, a extrema direita.
“A gente vai ter uma pressão, inclusive, muito dentro da França. Esse racismo, primeiro, vem de dentro, muito representado pela extrema direita, sobretudo lá atrás pelo Jean-Marie Le Pen e depois pela Marine Le Pen. Ou seja, essa representação é muito racista dentro da França e se expressa na negação da identidade francesa para pessoas negras, que são descendentes de africanos. Dos 26 jogadores que estão defendendo a França, 23 são descendentes de pessoas que vieram das ex-colônias e nasceram em território francês”, explica.
O historiador ressalta que esse cenário é fruto do processo de colonização presente em diversos países europeus, mas a Federação Francesa acabou criando mecanismos para identificar e impulsionar esses jogadores.
“A França tem um projeto de clubes de bairro na periferia de Paris. E é por isso que, quando a seleção francesa vai começar a Copa do Mundo, ela faz uma foto com todos os jogadores vestidos com a camisa de seus clubes de bairro. E aí, se a gente for trazer para cá, se tem uma coisa que o Brasil perdeu foi a lógica dos clubes de bairro, de captar jogadores em todos os rincões do nosso país”, avalia Diogo Xavier.
“Se os negros, os descendentes estão na seleção é porque eles são melhores do que os brancos. Acho que é importante dizer isso. Eles são melhores do que os brancos e eles são, sim, franceses”, resume.
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
