A direita mudou: a ascensão do reacionarismo no Brasil — Insubornavel


A direita mudou: a ascensão do reacionarismo no Brasil

Por Jorge Branco13/07/2026 às 19:420 visualizações
PL enfrenta disputas internas e crise de liderança após a prisão do ex-presidente
PL enfrenta disputas internas e crise de liderança após a prisão do ex-presidente
Brasil de Fato

No dia 17 de abril de 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, um voto ecoou com força singular. O pronunciamento do então deputado Jair Messias Bolsonaro, dedicando seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, não foi apenas um momento de choque para os defensores dos direitos humanos; foi o prenúncio de uma transformação profunda na cultura política brasileira.

Aquele episódio revelou um fenômeno que muitos círculos intelectuais e políticos vinham subestimando: a ascensão meteórica e barulhenta de ideias reacionárias e de extrema direita. Valores e discursos antes restritos às margens do debate público – baseados no anticomunismo virulento, no nacionalismo exacerbado, na negação da ciência e no ataque explícito a minorias – passaram a ocupar o centro do palco e a ser naturalizados no vocabulário cotidiano. O que parecia impensável após a redemocratização do país tornou-se a nova norma.

O fim da ilusão tecnocrática e a aliança entre o mercado e o altar

Durante décadas, analistas defenderam a tese de que o avanço tecnológico, o amadurecimento econômico e a estabilização da democracia liberal esvaziariam o conteúdo emocional e ideológico da política. Acreditava-se que as paixões políticas seriam substituídas por uma gestão puramente técnica e racional do capitalismo.

A história recente do Brasil e do mundo provou o contrário. A hegemonia do modelo neoliberal, longe de trazer estabilidade moral ou social, aprofundou a concentração de riqueza, precarizou o trabalho e gerou uma crise continuada de perspectivas de vida para as maiorias. Em vez do fim das ideologias, o que emergiu foi um sentimento generalizado de desmoronamento moral e econômico. É nesse cenário de desalento que as correntes reacionárias encontraram o terreno fértil para florescer, resgatando bandeiras do conservadorismo religioso, do autoritarismo e da intolerância.

A eficácia desse novo bloco político e social no Brasil reside em uma operação dupla de comunicação e identidade. Para as massas empobrecidas e desestruturadas pelas crises econômicas, a nova extrema direita apresentou-se como uma alternativa antissistema. Ela ofereceu uma narrativa simplista que culpa a própria democracia liberal, os direitos sociais e os movimentos identitários – como feministas, defensores de direitos humanos, ambientalistas e a população LGBTQIA+ – pelas dificuldades do dia a dia. Os direitos conquistados por minorias passaram a ser apontados como a causa da crise moral.

Por outro lado, para o capital financeiro e o grande empresariado, esse mesmo movimento se vendeu como a força política com a “coragem” necessária para limpar o entulho restritivo ao livre mercado. A extrema direita brasileira assimilou com facilidade os dogmas da agenda neoliberal: a defesa intransigente da desregulamentação, a meritocracia, o individualismo radical e as políticas de austeridade fiscal. Ao abraçar o mercado, o radicalismo ganhou respeitabilidade, financiamento e espaço nos principais canais de poder.

Essa convergência encontrou uma base sólida na própria sociedade brasileira, historicamente marcada por valores autoritários e conservadores. O avanço de vertentes fundamentalistas nas igrejas evangélicas deu capilaridade social a esse ativismo político junto às camadas populares. Ao mesmo tempo, a precarização das leis trabalhistas transformou a mentalidade de pequenos empresários e setores da classe média, que passaram a enxergar a retirada de direitos trabalhistas sob o manto sedutor da “liberdade econômica”.

O deslocamento da centro-direita e a rota da ascensão: de 2010 a 2022

A transformação do reacionarismo de um ator subsidiário para o protagonista da política nacional deu-se em um processo ascendente e contínuo, condensado nos ciclos eleitorais recentes. O ano de 2010 marcou o início da organização desse campo, que soube cooptar a base social da direita conservadora tradicional. Após as manifestações de rua de 2013, o espaço ficou permanentemente aberto para grupos que canalizaram a insatisfação popular contra a política institucional. Em 2014, a acentuada crise fiscal e a polarização desorganizaram os alinhamentos políticos tradicionais. A retórica da “antipolítica” ganhou força, alimentada por uma agenda midiática focada exclusivamente no combate à corrupção e no fim dos governos progressistas liderados pelo PT.

Esse percurso culminou na vitória eleitoral de 2018, que levou à Presidência da República uma liderança abertamente reacionária. E embora as eleições de 2022 tenham imposto uma derrota eleitoral ao topo desse bloco, o movimento demonstrou maturidade e resiliência, provando que a extrema direita se consolidou como uma força cultural e política duradoura na sociedade brasileira.

O sucesso dessa nova vanguarda ideológica não teria sido possível sem o colapso e o trânsito da direita tradicional e da centro-direita. Atraídos pela forte adesão popular às pautas reacionárias e pela rejeição aos partidos tradicionais após 2013, líderes moderados migraram progressivamente para posições extremistas.

A vanguarda radical exerceu uma verdadeira coerção política: a centro-direita viu-se na contingência de se submeter à pauta reacionária ou enfrentar o esvaziamento nas urnas, a perda de apoio empresarial e o ataque de bases militantes digitais. Setores que antes operavam dentro dos marcos democráticos aceitaram e ajudaram a naturalizar o autoritarismo como uma alternativa viável de governo em nome da sobrevivência eleitoral e da imposição de reformas pró-mercado que governos anteriores não conseguiram realizar.

Apoiada em redes digitais de comunicação que fragmentaram o debate público e contornaram os filtros tradicionais, essa aliança construiu uma nova hegemonia. O Brasil contemporâneo não se explica apenas por disputas eleitorais conjunturais ou operações jurídicas, mas sim por um profundo e contínuo realinhamento de classes, valores e interesses que colocou a radicalidade no comando do pensamento político nacional.

O convite à leitura: compreendendo o processo

Afinal, a emergência da extrema direita no Brasil foi um fenômeno repentino ou o resultado de uma transformação política construída ao longo de anos? Essa é a pergunta central que orienta o livro que lanço agora e para o qual convido todos à leitura: “A direita mudou: a ascensão do reacionarismo no Brasil”, publicado pela INKEditora. Nesta obra, investigo como os setores da direita tradicional migraram para posições reacionárias, alterando profundamente o nosso cenário político entre 2010 e 2022, com reflexos que se estendem até a atualidade.

Mais do que analisar eleições isoladas ou lideranças específicas, o livro busca compreender as mudanças estruturais e as transformações econômicas, sociais e culturais que ultrapassam o caso brasileiro. Trata-se de um esforço para entender a consolidação da nova direita como força política relevante e decifrar os complexos desafios que hoje se colocam diante da democracia brasileira. Um tema essencial para quem deseja compreender o Brasil de ontem, de hoje e dos próximos anos.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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