É necessário romper com a hegemonia digital — Insubornavel


É necessário romper com a hegemonia digital

Por Inteligência Coletiva do Sul13/07/2026 às 19:050 visualizações
Grok, de Elon Musk, foi a ferramenta usada para criação das imagens de mulheres e crianças nuas
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Brasil de Fato

As tecnologias digitais, representadas pela inteligência artificial e pelo processamento de big data, estão remodelando os modos de produção e os estilos de vida da sociedade com uma amplitude e uma profundidade sem precedentes. Isso oferece oportunidades históricas de desenvolvimento para o aperfeiçoamento da nova qualidade das forças produtivas e o aprimoramento do bem-estar da população. No entanto, a alocação de recursos e o poder de formulação de regras no espaço digital estão altamente concentrados, os dividendos tecnológicos não beneficiam a todos globalmente, e o desenvolvimento no campo digital em grande parte dos países do Sul Global sofre interferências e limitações. Romper com a hegemonia digital tornou-se uma questão do nosso tempo, que a comunidade internacional deve enfrentar diretamente para que as tecnologias digitais beneficiem verdadeiramente todos os países do mundo. 

A hegemonia digital refere-se ao poder sistêmico pelo qual poucos países, por meio de suas vantagens integradas em tecnologias-chave, ecossistemas de plataformas, processamento de dados, regras institucionais e narrativas discursivas, transformam sua capacidade digital em força dominante da ordem global. Como país pioneiro em tecnologia digital, os Estados Unidos são o principal representante dessa forma de hegemonia. Suas tecnologias digitais, embora superficialmente alardeiem liberdade, abertura e inovação, em essência servem à manutenção de monopólios tecnológicos, à consolidação da liderança normativa e à expansão da influência estratégica. A formação da hegemonia digital estadunidense baseia-se em quatro pilares que se reforçam mutuamente: tecnologias-chave, ecossistemas de plataformas, dados, normas e padrões. A vantagem tecnológica estabelece a base material; o ecossistema de plataformas estende a vantagem tecnológica ao mercado global; os dados se acumulam continuamente durante a operação das plataformas e retroalimentam a iteração tecnológica; as normas e padrões oferecem restrições institucionais e marcos discursivos.

As tecnologias-chave constituem base de sustentação da hegemonia digital estadunidense e são distribuídas por toda a cadeia tecnológica, do hardware de base às aplicações superiores. Na camada de sensoriamento e conectividade, os chips de comunicação móvel da Qualcomm dominam o mercado global de modems de smartphones, e o sistema de conexão por satélite “Starlink” da SpaceX cobre rapidamente regiões de difícil acesso às redes tradicionais. Na camada de computação e suporte, as unidades de processamento gráfico (GPUs) da NVIDIA dominam o mercado de poder computacional para grandes modelos de linguagem, a Intel e a AMD detêm a capacidade de processadores de uso geral, e as empresas estadunidenses também controlam as ferramentas de automação de projeto eletrônico (EDA) usadas no design de chips. Na camada de software de sistemas, os sistemas operacionais Android e Apple praticamente monopolizam o mercado global de sistemas operacionais móveis, enquanto o Windows da Microsoft domina o mercado de computadores pessoais. Na camada de geração de capacidades, empresas estadunidenses como OpenAI, Google e Microsoft mantêm forte influência no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem e de frameworks de inteligência artificial.

O ecossistema de plataformas determina a capacidade de alcance global da hegemonia digital estadunidense. Por meio de diferentes portais digitais, as plataformas estadunidenses incorporam suas próprias regras, interfaces e mecanismos de remuneração às atividades digitais globais. Plataformas como Google, YouTube, Facebook e X influenciam a visibilidade e o “calor” da disseminação da informação por meio da ordenação de resultados de busca, da recomendação de conteúdo e das regras de uso. A Apple, o Google e a Amazon controlam portais comerciais como distribuição de aplicativos, tráfego publicitário, canais de comércio eletrônico, vendas transfronteiriças e pagamentos digitais, forçando desenvolvedores de aplicativos, comerciantes e produtores de conteúdo de todos os países a aceitarem suas regras de acesso, mecanismos de precificação e comissões. A Amazon Web Services (AWS), a Microsoft Azure, o Google Cloud e as interfaces de aplicação de inteligência artificial estão se tornando canais importantes para que numerosos atores obtenham acesso a capacidade de armazenamento, computação, chamadas de modelos e serviços inteligentes. No terceiro trimestre de 2025, a Amazon, a Microsoft e o Google juntas representaram 63% dos gastos globais com infraestrutura de nuvem.

A hegemonia digital estadunidense prejudica o desenvolvimento global do campo digital de múltiplas formas.

Primeiro, erode a soberania digital de outros países. Todos os países têm o direito de escolher autonomamente seu caminho de desenvolvimento digital e seu modelo de governança, bem como de controlar independentemente sua infraestrutura digital, recursos de dados e assuntos de rede. No entanto, a hegemonia digital estadunidense continua enfraquecendo o direito de outros países de dispor autonomamente de seus espaços digitais. Por um lado, os EUA exercem pressão em nome da abertura de mercados, do livre fluxo e da revisão de segurança, dificultando que os países envolvidos tomem decisões sobre abertura de mercados digitais, arranjos de fluxo de dados, formas de regulação de plataformas e apoio às indústrias locais que estejam em conformidade com seus próprios interesses. Por outro lado, após as plataformas e aplicações digitais dos EUA se inserirem profundamente no funcionamento econômico e social de outros países, acabam por influenciar elos-chave do sistema digital, como armazenamento de dados e atualização de sistemas, enfraquecendo a capacidade efetiva de controle desses países.

Segundo, amplia a distância digital de desenvolvimento. A economia digital deveria oferecer novas oportunidades de desenvolvimento a todos os países, mas a hegemonia digital estadunidense transforma essa dinâmica em novas desigualdades. Em primeiro lugar, o caminho de acompanhamento tecnológico é artificialmente bloqueado. Por meio de controles de exportação, revisão de investimentos, restrições às cadeias de suprimentos e barreiras normativas, os EUA bloqueiam, camada por camada, a circulação normal de tecnologias-chave, equipamentos centrais e poder computacional, retardando continuamente o acompanhamento tecnológico dos países em desenvolvimento e ampliando persistentemente suas desvantagens preexistentes. Em segundo lugar, o mecanismo de retorno dos benefícios digitais é continuamente distorcido. Dados, tráfego e usuários vêm do mercado global, mas os retornos comerciais fluem para poucas plataformas e para o sistema de capital dos EUA, sendo difícil para os países em desenvolvimento converter seus recursos de dados e escala de mercado em dividendos para o desenvolvimento local. Em terceiro lugar, o canal de ascensão na cadeia de valor é continuamente comprimido. Os EUA restringem os países em desenvolvimento a posições de baixo valor agregado, como chamadas de interface, fornecimento de tráfego e consumo de mercado, dificultando sua entrada em elos de alta distribuição de benefícios, como formulação de regras e definição tecnológica.

Terceiro, agrava o déficit de confiança na segurança internacional. Em primeiro lugar, a cooperação tecnológica é securitizada. Chips, software, serviços de nuvem, centros de dados, sistemas de comunicação e modelos de inteligência artificial são investidos de significado estratégico pelos EUA, e as trocas tecnológicas normais e os negócios comerciais passam a ser vistos como riscos potenciais. Em segundo lugar, as preocupações de segurança são normatizadas. A colaboração científica transfronteiriça, a aquisição de produtos, os serviços de plataforma e o fluxo de dados são cada vez mais submetidos a revisões de segurança, triagens condicionais e restrições de acesso dos EUA, elevando continuamente os custos da cooperação aberta. Em terceiro lugar, as relações digitais são polarizadas em blocos. As diversas partes são compelidas a aumentar seus custos defensivos, e o ecossistema digital global desliza da interconexão aberta para a fragmentação e a confrontação.

Quarto, distorce a governança digital global. A governança digital global deveria refletir ampla representatividade, consulta igualitária e benefício compartilhado. No entanto, a hegemonia digital estadunidense faz com que o processo de governança se incline para os interesses de poucos países desenvolvidos. Temas como segurança da inteligência artificial e aplicação transfronteiriça de dados são colocados em posição prioritária, mas as demandas dos países em desenvolvimento quanto à participação normativa e ao desenvolvimento de capacidades dificilmente entram na agenda; em temas-chave como fluxo de dados, governança da inteligência artificial e infraestrutura digital, carecem de voz suficiente e se encontram, na maioria das vezes, na posição de meros receptores de regras, sendo frequentemente forçados a arcar com custos de conformidade mais elevados.

Quinto, comprime o espaço de intercâmbio entre civilizações plurais. O espaço digital deveria oferecer um novo campo para que diferentes países exibam igualitariamente suas histórias culturais, ideais sociais e caminhos de desenvolvimento. Mas a hegemonia digital estadunidense transforma valores e formas narrativas ocidentais no padrão global. As expressões dos países não ocidentais sobre suas próprias histórias, culturas e caminhos de desenvolvimento frequentemente têm dificuldade de obter oportunidades de apresentação equivalentes às narrativas ocidentais. A visibilidade, o alcance de disseminação e o grau de aceitação de conteúdos relacionados em plataformas globais são facilmente afetados pelas regras das plataformas estadunidenses, pela ordenação algorítmica e pelos mecanismos de rotulagem. As experiências de governança e as demandas de soberania digital dos países não ocidentais são frequentemente interpretadas sob a ótica do discurso ocidental, chegando mesmo a ser deturpadas e estigmatizadas.

A tecnologia digital deve beneficiar a humanidade e não deve ser reduzida a instrumento de hegemonia. A essência da hegemonia digital estadunidense é usar o nome da liberdade para praticar o monopólio e aproveitar a vantagem tecnológica para buscar lucros de dominação global. A comunidade internacional deve manter alta vigilância diante de seus atos expansionistas. Diante dos danos da hegemonia digital, a comunidade internacional deve aderir ao princípio da igualdade de soberania e trabalhar para salvaguardar os interesses digitais a partir de cinco dimensões: defender a soberania digital, garantindo que cada país decida autonomamente seu caminho de desenvolvimento; promover a inclusão universal, apoiando o Sul Global para superar a brecha digital; insistir na cooperação aberta, opondo-se à securitização generalizada das questões digitais; aperfeiçoar a governança global, aumentando a representatividade e o poder de voz dos países em desenvolvimento; e promover o aprendizado mútuo entre civilizações, tornando o espaço digital um palco comum para o intercâmbio igualitário entre culturas diversas. Romper com a hegemonia digital dos EUA, em última instância, visa fazer com que a tecnologia digital beneficie a humanidade. Guiada pela construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, a comunidade internacional deve, com base no respeito mútuo, na justiça e na equidade e na cooperação ganha-ganha, criar conjuntamente um futuro digital global mais justo, inclusivo e próspero.


*Cai Cuihong é professora do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan

**Esse artigo foi originalmente publicado pela revista Qiushi (2026/13). Traduzido do chinês para o português com uso de inteligencia artificial (Kimi)

***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Brasil de Fato
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