O Vaticano excomungou bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio 10, após o grupo ordenar quatro novos bispos sem autorização do Vaticano. Ultraconservadores, os religiosos expulsos da igreja defendem a Missa Tridentina (prática da condução do rito em latim e de costas para os fiéis, que era regra até o Concílio Vaticano Segundo, realizado entre 1962 e 1965).
Segundo o teólogo e jornalista Felipe Zangari, contudo, o modo de condução da missa não é o único motivo do conflito. Na verdade, serve apenas como uma ferramenta política contra as mudanças adotadas pela Igreja nas últimas décadas. “A questão da missa é um subterfúgio que traz no reboque outras questões mais profundas, tanto relativas à autoridade do Papa quanto relativas ao próprio caminho que a Igreja faz nos últimos 60 anos”, explica.
Zangari diz que a Missa Tridentina, inclusive, ainda pode ocorrer, sob determinadas condições. A Fraternidade Sacerdotal São Pio 10, assim como outros grupos pelo mundo, “utilizam dessa defesa da tradição litúrgica pré-conciliar para atacar as reformas do magistério da igreja que o concílio trouxe”.
O diálogo com outras religiões é um dos pontos questionados. “O Concílio Vaticano Segundo lançou uma frente de diálogo ecumênico e interreligioso para os católicos, ou seja, passa a reconhecer que, em determinada medida, as demais confissões cristãs e outras tradições religiosas podem carregar alguns elementos de uma verdade, ainda que se reconheça, do ponto de vista do magistério, que essa verdade esteja plenamente revelada por Cristo na Igreja Católica”, explica.
O especialista aponta que a Fraternidade defende um modelo de “cristandade” que remete à Europa medieval, em que o Estado deveria professar obrigatoriamente a fé católica. Essa visão contrasta com a postura atual da Igreja, que busca um “caminho de construção do próprio ser da igreja, não numa postura superior em relação ao gênero humano, mas uma postura de mais presença e de fraternidade”. “É um grupo que enxerga, na verdade, que o catolicismo é a única religião verdadeira e que qualquer outra experiência religiosa não faria nenhum sentido de existir”, ressalta.
A organização política da Igreja Católica
Felipe Zangari diferencia a Fraternidade de outros grupos conservadores (como o Opus Dei ou os Arautos do Evangelho), ou mesmo grupos progressistas (como a Teologia da Libertação), que permanecem na Igreja, justamente porque, independentemente das diferenças de visões sobre a fé católica, reconhecem a autoridade papal.
“O Papa Francisco, por exemplo, é egresso de uma escola teológica chamada Teologia do Povo, aqui também enraizada na América Latina. Grupos que têm um olhar dito mais progressista ou uma pauta mais rígida do ponto de vista dos costumes, ou um olhar mais inclusivo, a partir do momento em que esses grupos todos orbitam em torno da autoridade do Papa e não se posicionam frontalmente contrários àquilo que a igreja definiu como dado de fé, por mais que eles divirjam, eles estão em comunhão”, exemplifica.
O que acontece após a excomunhão?
Zangari esclarece que a excomunhão automática dos sacerdotes envolvidos nas ordenações de julho caracteriza um cisma, ou seja, uma ruptura oficial. “Trata-se agora de uma instituição que não mais compõe o corpo eclesiástico vinculado ao Papa. É quase como se tratasse de uma igreja autocéfala, que passa a ter uma gestão teológica e administrativa separada totalmente de Roma”, explica.
Como consequência direta, os sacramentos celebrados por esses clérigos, como missas, confissões e casamentos, passam a ser considerados “inválidos e ilícitos” pela hierarquia da Igreja de Roma.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
