Porto Alegre negra transforma remoções e apagamento em luta por memória e direito à cidade — Insubornavel


Porto Alegre negra transforma remoções e apagamento em luta por memória e direito à cidade

Por Fabiana Reinholz13/07/2026 às 22:251 visualizações
Museu de Percurso do Negro é uma iniciativa do movimento negro para reconhecer nas ruas de Porto Alegre a presença africana e afro-brasileira apagada da memória oficial
Museu de Percurso do Negro é uma iniciativa do movimento negro para reconhecer nas ruas de Porto Alegre a presença africana e afro-brasileira apagada da memória oficial
Foto: | / Brasil de Fato

Entre condomínios de luxo e a memória negra, a resistência do Quilombo Kédi revela uma disputa que atravessa a história de Porto Alegre. Mais de um século depois da chegada da família Dutra ao bairro Boa Vista, o território centenário resiste onde a cidade parece insistir em apagá-lo. Cercado por empreendimentos imobiliários de alto padrão e reduzido a uma única rua, o quilombo sintetiza o avanço da especulação sobre comunidades negras que ajudaram a construir a capital gaúcha.

Hoje, cerca de 12 famílias permanecem no quilombo, certificado pela Fundação Cultural Palmares desde fevereiro de 2023 e com processo de regularização fundiária em andamento no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Localizado entre o Country Club e a obra do empreendimento Alameda Jardins Country Tower Boulevard, das incorporadoras Country Empreendimentos e CFL, o Kédi tornou-se símbolo de resistência em uma das regiões mais caras de Porto Alegre.

As origens do Quilombo Kédi remontam ao início do século 20, quando José Dutra e Otília Gonçalves deixaram Taquara e se estabeleceram na então zona rural da capital. Em meio a chácaras e fazendas, a família cultivava flores para vender, produzia piaçava para fabricação de vassouras, criava porcos e cavalos e lavava roupas em uma fonte às margens da atual avenida Nilo Peçanha. Também participou da construção do antigo clube inglês, hoje conhecido como Country Club.

Com a expansão urbana, a paisagem mudou. O bairro Boa Vista transformou-se em uma das áreas de maior valorização imobiliária da cidade, enquanto o território da comunidade foi sendo reduzido. Onde antes viviam cerca de cem famílias, hoje restam pouco mais de uma dezena. O espaço onde crianças brincavam, famílias se reuniam e a comunidade mantinha a vida cotidiana foi sendo fragmentado ao longo das décadas, em um processo que moradores atribuem à especulação imobiliária.

Moradias do quilombo Kédi estão sendo demolidas, enquanto prédios de alto padrão são construídos na região |
Moradias do quilombo Kédi estão sendo demolidas, enquanto prédios de alto padrão são construídos na região | — Clara Aguiar
Moradias do quilombo Kédi estão sendo demolidas, enquanto prédios de alto padrão são construídos na região | Crédito: Clara Aguiar

Nascida e criada no quilombo, Cláudia Fernanda Vargas, de 41 anos, carrega essa história no próprio corpo. Neta de Neuci Dutra e descendente direta de Otília Gonçalves, ela afirma conviver com ameaças de remoção desde a infância. “Há 41 anos eu sofro ameaça de perder esse território. Desde que nasci já existia essa conversa de remoção”, conta.

Vargas lembra da primeira grande remoção de que tem memória, quando tinha entre cinco e seis anos. Na época, parte do território onde funcionava uma creche foi vendida ao Grupo Zaffari. “Foi uma das primeiras remoções. A gente já está em cerca de quatro. Aquela foi a mais devastadora porque abalou toda a comunidade”, relata.

Apesar das pressões, a moradora diz que nunca cogitou deixar o lugar onde nasceu. “Minha história está aqui. A história dos meus filhos e da minha neta também. Não posso apagar tudo isso por R$ 180 mil. Dinheiro nenhum paga a minha história.” Segundo ela, além das propostas de compra, moradores enfrentaram anos de intimidações e ameaças.

ScreeOnde antes viviam cerca de cem famílias, hoje restam pouco mais de uma dezenanshot |
ScreeOnde antes viviam cerca de cem famílias, hoje restam pouco mais de uma dezenanshot | — Clara Aguiar
ScreeOnde antes viviam cerca de cem famílias, hoje restam pouco mais de uma dezenanshot | Crédito: Clara Aguiar

Durante a enchente de 2024, Vargas lembra que o quilombo organizou cozinhas solidárias e preparou refeições para famílias atingidas em diferentes regiões da cidade. “A gente fez comida para moradores da Ilha, da Lomba do Pinheiro, da zona sul, da zona norte. Virava noite fazendo marmita e distribuindo doações. Hoje, quando somos nós que precisamos de apoio, quase ninguém aparece.”

O Kédi não é um caso isolado. Para o antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt, um dos idealizadores do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, a permanência dessas famílias faz parte de um processo histórico de expulsão e apagamento de territórios negros, repetido ao longo da formação da cidade.

Uma cidade construída pela população negra

A presença negra na Capital se conecta a uma diáspora interna que atravessou o Rio Grande do Sul desde os territórios marcados pela escravidão no sul do estado, como Pelotas e Rio Grande, até a formação de quilombos, terreiros, vilas e bairros populares. O que aparece em territórios como o Kédi, a Ilhota, a Restinga e o Centro Histórico é parte desse percurso de expulsões, reconstruções e permanência.

Segundo Bittencourt, compreender Porto Alegre exige reconhecer uma história muitas vezes apagada. A capital gaúcha foi construída pelo trabalho, pela cultura e pela sociabilidade da população negra, que ocupava diferentes territórios hoje invisibilizados pela narrativa oficial.

Mapa de Porto Alegre do século 19 |
Mapa de Porto Alegre do século 19 | — Daniele Machado
Mapa de Porto Alegre do século 19 | Crédito: Daniele Machado

Esse processo está ligado à própria origem da cidade. Como Porto Alegre se desenvolveu às margens da Lagoa dos Patos, durante os períodos colonial e imperial, o transporte era predominantemente fluvial. Nesse contexto, o porto tornou-se um dos principais espaços de trabalho de africanos escravizados, libertos e descendentes.

“O porto foi ocupado por trabalhadores negros, por estibadores embarcados. Antes mesmo da construção do porto existiam centenas de trapiches, e foram esses trabalhadores que também ajudaram a edificar o Mercado Público e muitas das construções da cidade”, afirma.

Territórios negros de Porto Alegre em 1916 |
Territórios negros de Porto Alegre em 1916 | — Daniele Machado
Territórios negros de Porto Alegre em 1916 | Crédito: Daniele Machado

Além do trabalho portuário, negros e negras ocupavam intensamente o espaço urbano. Quitandeiras e comerciantes ambulantes circulavam por pontos como a rua 15 de Novembro, a antiga praça Paraíso e a praça dos Ferreiros, na atual rua Uruguai, formando uma rede de circulação, trabalho e sociabilidade. “Essa população foi enegrecendo Porto Alegre”, resume o antropólogo.

Quando a cidade ainda se restringia ao núcleo intramuros, essa população vivia em torno da antiga igreja do Rosário, construída por uma irmandade negra criada em 1720 e erguida em 1840. O entorno era conhecido como rua do Rosário, beco do Rosário ou, simplesmente, rua dos Pretos, constituindo um espaço de convivência, religiosidade e organização comunitária.

Segundo Bittencourt, esse cenário começou a mudar com as reformas urbanas promovidas nas primeiras décadas do século 20. Sob o discurso da modernização e das políticas sanitárias, a população negra foi removida das áreas centrais e deslocada para regiões como o Campo da Redenção, o Areal da Baronesa e a Ilhota, áreas alagadas, sem saneamento e com pouca infraestrutura.

Obras de retificação do Arroio Dilúvio; no canto superior direito, casas da Ilhota que vieram a ser removidas a partir dos anos 1960 |
Obras de retificação do Arroio Dilúvio; no canto superior direito, casas da Ilhota que vieram a ser removidas a partir dos anos 1960 | — Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Obras de retificação do Arroio Dilúvio; no canto superior direito, casas da Ilhota que vieram a ser removidas a partir dos anos 1960 | Crédito: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

O antropólogo destaca que esse processo também alterou a geografia da chamada Colônia Africana. Diferentemente do que costuma aparecer nos registros históricos, afirma, ela não se restringia ao entorno do atual parque Moinhos de Vento. “A Colônia Africana se estendia até o Montserrat. Mas há que se pensar que Montserrat, Petrópolis, Santana, Ilhota e Menino Deus eram todos ocupados por uma população negra, com relações de vizinhança, religiosidade e pertencimento”, pontua.

Nesses territórios floresceram o Carnaval, a capoeira, o Batuque, a Umbanda e outras religiões de matriz africana, além de uma intensa vida comunitária. “Era uma cidade completamente enegrecida”, afirma Bittencourt.

Hoje, Porto Alegre possui 11 quilombos urbanos reconhecidos, mas, para ele, os territórios negros vão além do reconhecimento formal. Eles também estão nos clubes sociais negros centenários, como o Floresta Aurora e o Satélite Prontidão, nas escolas de samba, nos pontos de cultura, nas casas de religião de matriz africana e em diferentes espaços de encontro da população negra.

“O território negro se estabelece quando existe a presença dos corpos negros associada às expressões culturais, religiosas, políticas e comunitárias”, explica.

O antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt é um dos idealizadores do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre |
O antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt é um dos idealizadores do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre | — Marcelo Ferreira
O antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt é um dos idealizadores do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre | Crédito: Marcelo Ferreira

Na avaliação de Bittencourt, reconhecer esses territórios significa compreender que Porto Alegre nunca foi uma cidade construída apenas pela elite branca. “A cidade sempre teve uma presença negra muito forte. O que aconteceu foi um processo de apagamento dessa memória.”

A cidade que moderniza removendo

Antes da Ilhota e da Restinga, outros territórios negros já haviam sido deslocados do Centro de Porto Alegre. A construção da cidade também foi marcada por reformas urbanas que modificaram a paisagem e retiraram da memória oficial espaços de moradia, trabalho e sociabilidade da população negra.

Para a arquiteta urbanista Sherlen Borges, mestre em Planejamento Urbano e doutoranda na área, a narrativa tradicional sobre Porto Alegre costuma destacar grandes projetos de modernização e planejamento urbano, mas deixa em segundo plano os impactos sobre populações negras e pobres. “Porto Alegre é conhecida pelo Orçamento Participativo, pelo planejamento urbano, mas não se fala sobre as remoções, os apagamentos que aconteceram por conta desses grandes projetos urbanos.”

No entorno de onde hoje está o Viaduto Otávio Rocha existia o Beco do Poço |
No entorno de onde hoje está o Viaduto Otávio Rocha existia o Beco do Poço | — Marcelo Ferreira
No entorno de onde hoje está o Viaduto Otávio Rocha existia o Beco do Poço | Crédito: Marcelo Ferreira

Um dos exemplos está na região onde hoje fica o entorno do Viaduto Otávio Rocha. Ali existia o Beco do Poço, território marcado pela presença negra, com moradias populares, cortiços, espaços de sociabilidade e manifestações culturais. “Aqui era território negro. Tinha as moradias, os casebres, os cortiços, tinha os prostíbulos onde as mulheres negras viviam.”

Borges lembra que a historiadora Sandra Pesavento descreveu esses espaços como territórios dos “malditos”, dos “condenados” e dos “maus lugares”, expressões que revelam como esses locais eram vistos pelo poder público e pelas elites urbanas. Para a arquiteta, essa visão fazia parte de uma lógica que associava a presença negra e popular ao atraso e ao que deveria ser retirado da paisagem urbana.

Construção do Viaduto Otávio Rocha no final da década de 1920 |
Construção do Viaduto Otávio Rocha no final da década de 1920 | — Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Construção do Viaduto Otávio Rocha no final da década de 1920 | Crédito: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

A urbanista relaciona esse processo ao Plano de Melhoramentos de 1914, que tinha como discurso o embelezamento, a modernização e a higiene urbana. “Quando a gente pensa nessa questão da higiene, é realmente uma limpeza étnica que eles queriam fazer aqui em Porto Alegre.”

No Beco do Poço, a vida comunitária negra era intensa. A pesquisadora destaca registros dos batuques e encontros que aconteciam nesses espaços. “Aqui havia pontos da cidade onde aos domingos o batuque era infalível. O Beco do Poço, o Beco do Jacques e a rua da Floresta eram sítios de eleição para o batuque. Eram lugares onde as pessoas negras viviam e onde aconteciam essas sociabilidades.”

Com as reformas urbanas, esses territórios desapareceram da paisagem oficial da cidade. Para Borges, o apagamento não significa que essas histórias deixaram de existir, mas que foram retiradas dos registros e das referências públicas. “O que permanece quando some? A gente fala muito da importância da memória e de buscar essas outras narrativas, essas outras histórias que foram apagadas da construção da cidade.”

‘A cidade segue sendo essa cidade como mercadoria’, afirma Sherlyn Borges |
‘A cidade segue sendo essa cidade como mercadoria’, afirma Sherlyn Borges | — Marcelo Ferreira
‘A cidade segue sendo essa cidade como mercadoria’, afirma Sherlyn Borges | Crédito: Marcelo Ferreira

A mesma lógica ajuda a compreender disputas atuais como a do Quilombo Kédi. “O Quilombo Kédi, para mim, é um território negro, ancestral, que está ali há muito tempo. Ver aquela imagem do quilombo destruído e os prédios altos em volta é muito triste”, afirma a arquiteta.

Para Borges, o caso revela a permanência de um padrão histórico: territórios negros e populares seguem pressionados quando passam a interessar ao mercado imobiliário. “A cidade segue sendo essa cidade como mercadoria. A gente vê esses processos de tentativa de remoção por grandes empresas e também pelo poder público.”

Ilhota: território removido, memória em disputa

Na Ilhota, essa história deixou marcas em famílias, ruas e nomes apagados do mapa. Um dos mais emblemáticos territórios negros de Porto Alegre, a comunidade foi imortalizada nas crônicas do Carnaval, do Batuque e do samba, e durante décadas constituiu um importante centro de sociabilidade da população negra da capital.

Como descreve a professora e doutora em Geografia Danielle Machado Vieira, no livro “Territórios Negros em Porto Alegre (1800–1970)”, a Ilhota era uma área majoritariamente negra, formada por trabalhadores, ex-escravizados, negros libertos, migrantes e descendentes. Circundada pelas curvas do arroio Dilúvio e ligada ao restante da cidade por pontes de madeira, tornou-se referência da cultura popular porto-alegrense.

Localizada na região da Cidade Baixa, entre as atuais avenidas Érico Veríssimo e Getúlio Vargas, a Ilhota era formada por diferentes núcleos que compunham a chamada Grande Ilhota. Foi nesse território que cresceu Angélica Celeste Mirinhã, ativista comunitária e uma das guardiãs da memória local.

Casas na Ilhota, na década de 1950 |
Casas na Ilhota, na década de 1950 | — Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Casas na Ilhota, na década de 1950 | Crédito: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

“Nós sempre soubemos que aqui era a Ilhota, mas não conhecíamos toda a história, toda essa luta e todas as consequências desse processo de despejo e remoção. Quando a gente descobriu, assumimos que íamos trabalhar a questão da comunidade, das pessoas que tinham uma história”, afirma.

Conforme conta Mirinhã, a Ilhota começou a se consolidar no início do século 20 e chegou a reunir cerca de 2,3 mil famílias distribuídas em diferentes núcleos. “A Ilhota era um espaço onde moravam escravos libertos, foragidos e também população do êxodo rural. Eles vieram para cá porque estavam em busca de trabalho e novas oportunidades. Nós ficávamos na periferia do Centro, onde tinha trabalho, principalmente no Alto da Bronze.”

Para a ativista, a comunidade construiu uma trajetória marcada por saberes, vínculos e modos próprios de viver. “Essas pessoas foram se acomodando, fizeram uma história. Construíram seus saberes, seus modos de viver e uma comunidade muito forte.”

Esse processo foi interrompido na década de 1970, durante a ditadura militar, quando a Ilhota sofreu uma das maiores remoções urbanas da história de Porto Alegre. A retirada das famílias ocorreu dentro do chamado Projeto Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada (Cura), política de intervenção urbana que tinha como discurso a modernização das áreas centrais.

“O nome já diz tudo: era um projeto para ‘curar’ a cidade. Na verdade, veio para varrer tudo aquilo que era considerado feio, aquelas comunidades que, na visão daquele governo, não prestavam, não valiam nada”, critica Mirinhã.

Angélica Celeste Mirinhã é moradora de área remanescente da Ilhota, junto a av. Ipiranga |
Angélica Celeste Mirinhã é moradora de área remanescente da Ilhota, junto a av. Ipiranga | — Marcelo Ferreira
Angélica Celeste Mirinhã é moradora de área remanescente da Ilhota, junto a av. Ipiranga | Crédito: Marcelo Ferreira

Segundo ela, a remoção ocorreu de forma abrupta. “Foi um dos maiores despejos que existiu em Porto Alegre e um dos mais traumáticos. Eles chegaram com caminhões, sem aviso prévio, pediam para as pessoas saírem das casas e muitas vezes já iam quebrando as casas para dificultar que a pessoa permanecesse.”

As famílias foram levadas para locais como Restinga, São José, Morro da Cruz e outras regiões da cidade. “Eles chegavam e diziam: ‘Vamos embora’. As pessoas pegavam o lençol, colocavam as coisas dentro e entravam nos caminhões. Eram levadas para lugares completamente sem estrutura.”

A própria família de Mirinhã viveu esse processo. A mãe, uruguaia, havia vindo para Porto Alegre e morava de aluguel em uma peça na Ilhota. “Quando teve o despejo, a gente foi morar ali na Azenha, na Cabo Rocha. Do ladinho. A gente não saiu daqui.”

O retorno como resistência

Nem todas as famílias deixaram definitivamente o território. Algumas permaneceram nas proximidades e outras conseguiram retornar depois da saída dos caminhões. Mirinhã conta que moradores chegaram a se esconder para esperar o momento de voltar. “Quando a gente voltou para conversar com as pessoas, alguns contaram que tinham ido para casa de parentes, amigos, vizinhos. E teve aqueles que ficaram escondidos, esperando passar, para depois retomar o local.”

Para ela, esse retorno marcou uma nova etapa da luta. “A remoção aconteceu pela força. Mas o nosso retorno foi revolucionário. Foi militante, foi aguerrido. Foi quando começamos a brigar pelo nosso território.”

Pintura em prédio na Ilhota |
Pintura em prédio na Ilhota | — Marcelo Ferreira
Pintura em prédio na Ilhota | Crédito: Marcelo Ferreira

Durante anos, os moradores buscaram regularização fundiária, infraestrutura básica e reconhecimento do território. Também passaram a reconstruir a própria identidade. Por muito tempo, a comunidade foi chamada de Vila Renascença, mas pesquisas realizadas pelo grupo revelaram a relação do nome com o Projeto Renascença, denominação local ligada ao mesmo processo de remoção.

“Quando nós fomos estudar, descobrimos que o Projeto Renascença era o mesmo Projeto Cura do governo federal. Colocaram outro nome para ficar bonito, como se fosse renascer a esperança. Mas para nós não fazia sentido carregar esse nome.”

A partir daí, a comunidade passou a reivindicar novamente o nome Ilhota. “Nós não queríamos mais ser a Associação da Vila Renascença. Nós tínhamos outro olhar. Queríamos ser Território Ilhota.” Dessa luta nasceram iniciativas como o Ponto de Cultura Território Ilhota e a ONG Comunicarte, voltadas para arte, cultura, memória e comunicação comunitária.

Para Mirinhã, preservar a história também é uma forma de resistência. “Precisamos contar a nossa própria história. A memória da população negra precisa aparecer.”

Além da disputa pelo território, a ativista destaca a contribuição cultural da população negra para a formação de Porto Alegre. “Foi daqui que surgiram escolas de samba, blocos carnavalescos, cortejos, tribos indígenas de Carnaval. Pessoas como Lupicínio Rodrigues fazem parte dessa história. (…) Essas pessoas contribuíram culturalmente com seus saberes comunitários e seus saberes afro-brasileiros. Essa história precisa ser vista, ouvida e reconhecida.”

Moradores criaram um ponto de cultura para preservação da memória da Ilhota |
Moradores criaram um ponto de cultura para preservação da memória da Ilhota | — Marcelo Ferreira
Moradores criaram um ponto de cultura para preservação da memória da Ilhota | Crédito: Marcelo Ferreira

Hoje, a comunidade acompanha com atenção novos projetos urbanos na região, especialmente a revitalização da avenida Ipiranga. Embora reconheça a importância de melhorias, Mirinhã teme que a valorização imobiliária possa repetir processos de expulsão da população pobre. “Eles ficam apagando do plano diretor as possibilidades dos pobres morarem perto das regiões onde trabalham. O que acontece com os pobres? Eles têm que pegar ônibus para ir, para voltar. Levam quatro, cinco horas do dia deles na parada do ônibus.”

Para ela, a permanência no território continua sendo uma luta coletiva. “A Ilhota já resistiu uma vez. A gente sabe lutar. Não vamos receber isso de mão beijada.”

Restinga: o quilombo reconstruído pela resistência

Se o Kédi e a Ilhota revelam a violência das remoções e do apagamento dos territórios negros em Porto Alegre, a Restinga mostra o que aconteceu depois. O bairro, hoje um dos mais populosos da capital e situado a uma distância que varia entre 20 e 30 km do Centro, nasceu da política de remoção de milhares de famílias negras expulsas das regiões centrais durante a ditadura militar.

Mestre griô e liderança comunitária, José Luiz Henrique Ventura viveu esse processo. Nascido na Santa Casa de Porto Alegre, morou até os nove anos na vila Santa Luzia antes de ser levado para a Restinga. “Naquela política de segregação da ditadura, de embranquecimento da cidade, trouxeram a vila Santa Luzia, a Ilhota e a vila Marítimos para dentro da Restinga. Aqui só tinha três ruas e chegaram cerca de 10 mil pessoas. Era tudo mato. Tinha bugio, lagarto, preá. Era o final da Mata Atlântica.”

Com mais de 60 mil habitantes, Restinga é um dos maiores bairros de Porto Alegre |
Com mais de 60 mil habitantes, Restinga é um dos maiores bairros de Porto Alegre | — Marcelo Ferreira
Com mais de 60 mil habitantes, Restinga é um dos maiores bairros de Porto Alegre | Crédito: Marcelo Ferreira

Segundo Ventura, a remoção significou muito mais do que uma mudança de endereço. A transferência para uma região distante do Centro rompeu vínculos de trabalho e sobrevivência construídos ao longo de anos. “A maioria das mulheres que vieram para cá era empregada doméstica. Quando saíram do Centro da cidade, perderam o trabalho. As que conseguiam permanecer no serviço vinham de quinze em quinze dias para a Restinga, ou às vezes ficavam um mês sem vir.”

As remoções aconteciam sem estrutura e, muitas vezes, durante a madrugada ou no fim da tarde. Caminhões chegavam e as famílias eram levadas para um território onde quase nada existia. “Eles batiam na porta e diziam: ‘Esse aqui é o teu terreno, segura essa plaquinha’. Sem casa, sem nada. Não tinha posto de saúde, não tinha ensino, não tinha estrutura básica”, reforça Ventura.

José Luiz Henrique Ventura na esplanada da Restinga, espaço público onde ocorrem eventos no bairro |
José Luiz Henrique Ventura na esplanada da Restinga, espaço público onde ocorrem eventos no bairro | — Marcelo Ferreira
José Luiz Henrique Ventura na esplanada da Restinga, espaço público onde ocorrem eventos no bairro | Crédito: Marcelo Ferreira

As casas desmontadas no Centro chegavam praticamente destruídas ao novo território. “Uma casa que tinha três ou quatro peças lá virava uma só. Não dava para colocar fogão, geladeira, nem montar uma cama de casal. Era dormir no chão e ficar do lado de fora para proteger as coisas da chuva e do sereno.”

A comunidade ergue o bairro

Foi diante desse abandono que surgiu uma das principais marcas da Restinga: a organização comunitária. “As crianças não eram de uma família, eram de todas as famílias. As mulheres que ficavam aqui cuidavam dos filhos das outras. Quem trabalhava trazia alimentação, roupa, doações.”

É dessa experiência que Ventura constrói uma das principais definições sobre o bairro: “A Restinga é um quilombo que deu certo.”

Para ele, o território foi erguido pela solidariedade de moradores que chegaram sem infraestrutura e precisaram criar coletivamente as condições de permanência. “A Restinga só é essa que é, não porque o poder público veio, mas porque a comunidade se organizou.”

Restinga abriga duas escolas de samba de Porto Alegre |
Restinga abriga duas escolas de samba de Porto Alegre | — Marcelo Ferreira
Restinga abriga duas escolas de samba de Porto Alegre | Crédito: Marcelo Ferreira

A organização popular esteve presente na conquista de equipamentos e serviços que hoje fazem parte da vida do bairro. Escolas, unidades de saúde, o Hospital da Restinga, o Instituto Federal e espaços culturais são resultado de mobilizações comunitárias. “O hospital não veio porque o governo quis fazer. Foi porque a comunidade queria um hospital próprio. O Instituto Federal também começou com uma luta da comunidade. Nada veio de graça.”

Há mais de três décadas, Ventura atua com projetos sociais voltados principalmente para a juventude. Por meio do atletismo, desenvolveu uma iniciativa que une esporte, educação e transformação social. “Eu vi que através do esporte se pode transformar uma comunidade em um local onde se vive. O atletismo é educação, saúde, segurança. A pessoa compete consigo própria, não contra o outro. Isso traz disciplina.”

Além do esporte, o ponto de cultura Africanidade, onde Ventura é um dor coordenadores, desenvolve atividades ligadas à cultura negra, como capoeira, dança, hip hop, slam, culinária afro-brasileira, cinema e contação de histórias. A iniciativa também mantém uma cozinha solidária criada durante a pandemia. “Na covid, atendemos 2,4 mil famílias. Tivemos atuação também nas enchentes de 2024. Hoje, seguimos atendendo centenas de famílias durante a semana.”

Outra frente de trabalho é o mapeamento dos povos de terreiro da Restinga, realizado em parceria com universidades, além da construção de um livro sobre os 60 anos do bairro. “Queremos que a Restinga seja contada pelos próprios moradores.”

Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) Restinga foi um dos espaços conquistados após anos de reivindicação |
Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) Restinga foi um dos espaços conquistados após anos de reivindicação | — Marcelo Ferreira
Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) Restinga foi um dos espaços conquistados após anos de reivindicação | Crédito: Marcelo Ferreira

Apesar da força comunitária, o estigma acompanhou a Restinga desde a origem. Para Ventura, a população removida carregou preconceitos que já existiam contra os moradores das vilas negras de Porto Alegre. “Quem morava em vila era visto como vagabundo, bandido, prostituta. Mas quem veio para cá era trabalhador, estivador, empregada doméstica, gente que construiu Porto Alegre.”

Para a liderança comunitária, a identidade da Restinga está justamente na capacidade de acolher e construir vínculos. “A Restinga acolhe todo mundo. Tu chega aqui e sente o restingueiro nato. O vizinho conversa com o vizinho. Ela é um quilombo porque abraça quem chega.”

Durante caminhada pelo bairro, Ventura aponta antigos pontos de abastecimento de água, locais onde funcionavam estruturas que ajudaram a alimentar as primeiras famílias e espaços que hoje abrigam escolas, projetos sociais e equipamentos culturais.

Memória negra nas ruas

A disputa pelos territórios negros também passa pelo direito de marcar a cidade. Um dos principais exemplos é o Mercado Público. Historicamente ocupado por trabalhadores negros, o espaço abriga o assentamento do Bará do Mercado, preservado durante as reformas do prédio graças à mobilização das comunidades de terreiro.

Celebração do povo de terreiro junto ao Bará do Mercado, no centro do Mercado Público de Porto Alegre |
Celebração do povo de terreiro junto ao Bará do Mercado, no centro do Mercado Público de Porto Alegre | — Katia Marko
Celebração do povo de terreiro junto ao Bará do Mercado, no centro do Mercado Público de Porto Alegre | Crédito: Katia Marko

O antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt destaca que sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana realizam rituais no local até hoje, atualizando simbolicamente esse espaço sagrado e reafirmando a ancestralidade negra no Centro Histórico.

Essa disputa também se expressa no Museu de Percurso do Negro, que reúne marcos como o Bará do Mercado, a Pegada Africana, o Tambor e o Painel Afro-brasileiro, permitindo que moradores e visitantes conheçam uma história frequentemente silenciada.

Para Sherlyn Borges, a presença desses marcos ainda enfrenta barreiras concretas na paisagem urbana. “Tem um mural ali na frente do estacionamento do Mercado Público que faz parte do Museu de Percurso do Negro, mas as pessoas não sabem. O estacionamento tapa totalmente o mural. É uma coisa absurda, porque é uma falta de respeito com a memória.”

Painel Afro-brasileiro, que integra o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, hoje frequentemente fica escondido por veículos de estacionamento rotativo |
Painel Afro-brasileiro, que integra o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, hoje frequentemente fica escondido por veículos de estacionamento rotativo | — Marcelo Ferreira
Painel Afro-brasileiro, que integra o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, hoje frequentemente fica escondido por veículos de estacionamento rotativo | Crédito: Marcelo Ferreira

Sujeitos da própria história

A recuperação dessas histórias também passa pela entrada de pesquisadores negros nas universidades, muitos deles a partir das ações afirmativas. Borges afirma que essa presença abriu espaço para novas leituras sobre a cidade, feitas por quem também vive a periferia, as ocupações e as disputas por moradia. “Agora nós, alunos negros que viemos da periferia, estamos pesquisando, somos arquitetos e temos trabalhado com a periferia, com melhorias habitacionais, com ocupações.”

A urbanista ressalta ainda o papel da oralidade na preservação da memória negra. “Muito do que a gente sabe também é por causa da oralidade. Tudo que a gente sabe é porque foi passado pelos mais velhos e foi se perpetuando.”

Para Bittencourt, esse movimento muda o lugar ocupado pela população negra na produção de conhecimento sobre a própria história. “O negro deixou de ser apenas objeto de pesquisa para se tornar sujeito da própria história.”

Tambor amarelo em referencia a Oxum está na praça Brigadeiro Sampaio, ressignificando o local onde ocorriam enforcamentos de escravizados |
Tambor amarelo em referencia a Oxum está na praça Brigadeiro Sampaio, ressignificando o local onde ocorriam enforcamentos de escravizados | — Marcelo Ferreira
Tambor amarelo em referencia a Oxum está na praça Brigadeiro Sampaio, ressignificando o local onde ocorriam enforcamentos de escravizados | Crédito: Marcelo Ferreira

Antes da criação do Museu de Percurso do Negro, o movimento social negro já reivindicava espaços de memória, documentação e valorização da cultura negra. A mobilização envolveu entidades, intelectuais negros e o Centro de Referência Afro-Brasileira (CRAB). A proposta do museu foi apresentada por Porto Alegre a partir do Programa Monumenta, financiado pela Unesco, pelo Ministério da Cultura e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

A pesquisa identificou pontos fundamentais da memória negra no Centro Histórico, como a praça Brigadeiro Sampaio, a região da igreja das Dores, a área das quitandeiras negras, a praça da Alfândega e o Mercado Público, onde está o marco do Bará.

Para o pesquisador, esses espaços revelam uma presença negra fundamental para a construção econômica, cultural e social da Capital. “Quando os escravizados circulam, circula o corpo, circulam ideias, circulam estratégias. É por isso que a linguagem, o pensamento e a cultura negra conseguiram se manter.”

Onde hoje é a Igreja das Dores ficava um pelourinho, onde ocorriam castigos físicos, execuções e a venda de pessoas escravizadas |
Onde hoje é a Igreja das Dores ficava um pelourinho, onde ocorriam castigos físicos, execuções e a venda de pessoas escravizadas | — Marcelo Ferreira
Onde hoje é a Igreja das Dores ficava um pelourinho, onde ocorriam castigos físicos, execuções e a venda de pessoas escravizadas | Crédito: Marcelo Ferreira

Um dos marcos do Museu de Percurso é a Pegada Africana, instalada na praça da Alfândega. A obra faz referência à presença africana e ao pan-africanismo. “Pouca gente sabe disso. A Pegada Africana não é apenas uma marca no chão. Ela faz parte de um conjunto que dialoga com as cores do pan-africanismo e com a presença negra na cidade.”

Ainda assim, o antropólogo aponta que falta uma representação monumental da população negra na paisagem urbana. “Enquanto a comunidade negra passa por ali, olha para o busto do Rio Branco, do General Osório. Nós temos uma população negra muito presente em Porto Alegre, que ajudou a construir esta cidade. Não podemos ter também nossos heróis, nossas intelectuais, nossas referências?” Ele cita como exemplos Carlos Santos, Alceu Collares e Oliveira Silveira.

Pegada Africana, na Praça da Alfandega, antiga Praça da Quitanda, reafirma os povos afrodescendentes na construção e na história de Porto Alegre |
Pegada Africana, na Praça da Alfandega, antiga Praça da Quitanda, reafirma os povos afrodescendentes na construção e na história de Porto Alegre | — Marcelo Ferreira
Pegada Africana, na Praça da Alfandega, antiga Praça da Quitanda, reafirma os povos afrodescendentes na construção e na história de Porto Alegre | Crédito: Marcelo Ferreira

Essa disputa por referências públicas também é resultado de uma longa organização política da população negra. Do Grupo Palmares, responsável por consolidar o 20 de Novembro como marco da luta negra, ao Movimento Negro Unificado e às organizações contemporâneas, essas mobilizações contribuíram para conquistas como as políticas de ações afirmativas, as cotas raciais, o fortalecimento dos clubes sociais negros e o reconhecimento das culturas afro-brasileiras.

Para Bittencourt, o Museu de Percurso do Negro é parte dessa trajetória coletiva. “O Museu de Percurso é da comunidade negra. É uma conquista do movimento social negro.”

Mais do que marcar lugares, o projeto fortalece vínculos entre passado e presente. “As crianças vêm e se identificam. Jovens, negros, adultos vêm e se identificam. Eles saem fortalecidos na sua identidade, na sua autoestima e ficam curiosos sobre a história.”

Fonte
Brasil de Fato
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