Nas fronteiras com a Rússia, países do Báltico estão construindo muros e bunkers, transformando esses territórios em "faixas de extrema militarização", descreve Danielle Makio, doutoranda e mestre em relações internacionais pelo Programa de Pós Graduação San Tiago Dantas, pesquisadora do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE) em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.
A "materialização dessa inimizade" e "distância política" vem tomando forma, inclusive, com endosso da própria população, segundo ela. "Não é difícil você abrir tabloides internacionais e encontrar matérias que falam sobre como pessoas da Estônia, da Lituânia, da Letônia construíram seus próprios bunkers com medo da Rússia", exemplifica.
A russofobia, nesta seara, é a expressão máxima da qual os países ocidentais lançam mão para seguirem pintando Moscou como inimigo. O esteio argumentativo justifica desde os gastos militares ao comportamento civil. Makio ressalta que discriminar um país considerado como "inimigo número um" chega a ser socialmente aceitável. "A russofobia é frequentemente confundida ou atrelada ao patriotismo, à consciência geopolítica, à crítica política internacional".
Enquanto isso, minorias étnicas russas sofrem nesses territórios e perdem direitos adquiridos, como a tentativa de diminuir o uso da língua russa ou a presença da Rússia e de seus aspectos culturais e políticos sobre a vida dessas sociedades.
Esse tipo de retaliação, segundo a especialista, é incentivado por países da OTAN e da União Europeia, ao passo que a discriminação retratada vai na contramão de princípios do bloco econômico, o que realça a hipocrisia ocidental.
"A OTAN vem transformando, ou pelo menos vem, de forma bastante sistemática, utilizando esses países tanto como uma zona de defesa, uma linha de frente em relação à Rússia", como também vem mobilizando esses países "no sentido de criar uma narrativa, um discurso que embasa a construção de uma identidade muito fortemente russófoba."
De acordo com a pesquisadora, há métodos similares em medidas como "a exclusão cívica e a assimilação linguística forçada na Letônia, por exemplo, com práticas de um nacionalismo ali extremo do século XIX, do século XX".
Os europeus, portanto, sustentam a seguinte ideia conforme Makio: "Precisamos manter essa ideia de uma Rússia inimiga, porque é a partir disso que, fundamentalmente, nós, Europa, temos conseguido legitimar e avançar uma série de políticas e de questões muito importantes na atual conjuntura para a União Europeia como um todo".
O reforço do imaginário da Rússia como inimigo sustenta, como já colocado, a discriminação e, por vezes até, a perseguição contra minorias étnicas russas em países da UE e da OTAN. Sem nenhuma oposição significativa a essas medidas, a UE, segundo a analista, incorre em hipocrisias, uma vez que o direito à autodeterminação das minorias étnicas que compõem o bloco é violado.
Quem perde com isso, evidentemente, são os russos étnicos. Por outro lado, quem ganha com a militarização extrema dos Países Bálticos? Bom, isso é relativo, no ponto de vista da analista. O sentimento de insegurança e o medo que habitam essas nações é latente, de acordo com Makio. Dessa forma, a população, diante desse tipo de medida, atravessada pelo imaginário do russo como inimigo, expressa alívio e um "sentimento de maior proteção".
Agora, quem ganha mesmo, de fato, são a OTAN e os Estados Unidos. "Primeiro, pensando em indústria bélica. O complexo industrial militar dos Estados Unidos está muito feliz com o que está acontecendo, porque é óbvio que está se beneficiando disso", afirma a especialista.
"A OTAN também se beneficia porque estamos falando de uma fronteira muito importante para o complexo de segurança europeia, nessa fronteira dos Bálticos com a Rússia. Na medida em que todas essas questões de securitização, de investimento, de militarização começam a avançar nesse espaço, a gente tem uma facilitação muito maior de legitimação de decisões e pautas que vão ao encontro dos grandes objetivos da OTAN na Europa como um todo."
Investimento dos países Bálticos na OTAN tende a ser sustentável?
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem pressionado os outros países da aliança militar a investirem de maneira mais contundente em defesa. A meta, até 2024, era que cada um dos 32 países gastasse cerca de 2% do PIB em defesa.
Entretanto, dados divulgados neste ano pela União Europeia mostram que em 2025 Lituânia, Letônia e Estônia gastaram respectivamente 4%, 3,7% e 3,4% do seu PIB em defesa, aumentando consideravelmente o investimento.
Makio argumenta que a médio e longo prazo a tendência é que a manutenção desse nível de militarização comece a afetar a vida das pessoas. "A gente começa a ter uma incapacidade do Estado de manter um fluxo de investimentos sustentável em áreas como educação, urbanismo, cultura, saúde e outras coisas que são talvez muito mais vitais para a sobrevivência e para o bem-estar desses indivíduos".
Ou seja, se no momento atual os Bálticos não se opuseram ao aumento dos gastos, a longo prazo a manutenção desse investimento provavelmente gerará uma conta negativa para a sociedade.



