A fim de demonstrar outras formas de uso para ferramentas de inteligência artificial (IA), a OpenAI, empresa do ChatGPT, criou o concurso OpenAI to Z Challenge, em maio de 2025, com o objetivo de localizar sítios arqueológicos inéditos na Amazônia usando IA, oferecendo prêmios de até US$ 250 mil (cerca de R$ 1,285 milhão).
Isso fez com que o Ministério Público Federal (MPF) abrisse uma investigação contra a companhia por ver um incentivo de risco ao patrimônio nacional, expondo áreas inexploradas ao saqueio e à exploração ilegal de artefatos.
O desafio também chamou a atenção da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Advocacia-Geral da União (AGU) por ignorar normas de pesquisa arqueológica, além de violar o direito de comunidades indígenas e tradicionais da Região Amazônica. Segundo o MPF, o concurso incentiva mais uma "busca por tesouros" do que o uso da tecnologia para a ciência arqueológica.
Em nota para órgãos do governo brasileiro e instituições de pesquisa, a SAB chamou a iniciativa de "extremamente problemática", podendo gerar desinformação e incentivar pesquisas ilegais, uma vez que práticas de pesquisas arqueológicas são regulamentadas pelo Iphan e por minar a profissão especializada de arqueólogo.
"Lembramos que, no momento, a região tem sido palco de muitas notícias falsas sobre cidades perdidas com origens fantasiosas, visando minimizar resultados científicos de equipes profissionais qualificadas que vêm documentando a antiguidade das ocupações de povos indígenas na Amazônia e a importância destes para a preservação da Amazônia", diz a nota.
"A chamada para identificar novas 'cidades perdidas de Z' por não arqueólogos só virá a contribuir com este cenário de desinformação."
Ouvida pela Sputnik Brasil, Bruna Rocha, presidente da SAB, explica que a legislação brasileira já prevê salvaguardas para pesquisas arqueológicas, inclusive diante de novas tecnologias, como imagens de satélite e LiDAR (Detecção e Rastreamento por Luz, na sigla em inglês). Segundo ela, toda pesquisa arqueológica depende de autorização do Iphan e deve ser conduzida por arqueólogos habilitados.
Além disso, a arqueóloga destaca que, por ser signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil garante que "povos indígenas, povos quilombolas e povos de comunidades tradicionais têm o direito de ser consultados quando for haver alguma pesquisa em seus territórios".
Assim, a divulgação de pesquisas sem o conhecimento dessas populações se torna algo gravíssimo. "Estamos permitindo uma espécie de invasão e uma espécie de colonialismo científico sobre esses povos, porque nós estamos falando sem que eles possam ser consultados", afirma Rocha. "Certamente, esse concurso que houve desperta preocupações com relação à soberania científica, embora sejam dados já públicos que foram mobilizados."
"A articulação entre esses dados significa toda uma camada de trabalho, inclusive a gente pode também trazer essa questão da 'uberização' da ciência."
Papel da IA e uso de dados
Outra preocupação é a falta de explicação sobre como esses dados seriam utilizados posteriormente. Segundo Caio Almendra, consultor de inovação e cofundador do Instituto Brasileiro de Ciência de Dados (Bi0s), uma explicação plausível seria que a big tech está buscando outras utilidades para a IA e aplicações em áreas de interesse público para legitimar uma tecnologia de alto custo.
"Hoje, uma quantidade imensa de dinheiro circula com esse objetivo", explica Almendra. "Por exemplo, há uma crítica séria sobre como verbas de fundos ambientais financiados por big techs têm sido destinadas a editais e projetos que utilizem IA na preservação ambiental."
O especialista aponta que o tema de arqueologia foi escolhido como formar de combater essas críticas ambientais e pelo fato de o campo não gerar incômodo no espectro político, tanto na direita ou na esquerda, o que permitiria que o caso acontecesse sem atrair ruídos. "Nos últimos cinco anos, toda espécie de desafio que envolva uso de IA para a preservação ambiental foi feita. Água, limpeza dos oceanos, energia elétrica."
Sobretudo, Almendra pontua que o caso expõe uma falha do Brasil: a falta de ferramentas e capacidade computacional para processar dados públicos de forma estratégica. Embora ressalte que a iniciativa da OpenAI não envolveu a extração de novas informações — já que os dados utilizados eram de domínio público e acessíveis tanto ao Brasil quanto a empresas e governos estrangeiros —, o especialista afirma que a vantagem está na capacidade de refiná-los.
Mesmo reconhecendo que há potencial para o uso bélico — vendo a "porta giratória" entre big techs, agências de inteligência e a indústria militar dos EUA —, o especialista pontua que o tema do desafio da OpenAI era desenvolver novos usos e prompts para identificar, em imagens de satélite, construções feitas por seres humanos sob uma densa floresta. "A rigor, não era sobre a Amazônia." Porém, vê que uma aplicação hipotética não pode ser ignorada.
"Se tais ferramentas existissem, por exemplo, durante a Guerra do Vietnã, seria possível adaptá-las para localizar túneis e esconderijos ocultos na floresta, com precisão superior ao método da época, ou seja, analistas especializados examinando as fotos uma a uma", explica.
"O debate sobre colonialismo de dados não se limita à coleta de informações. Ele também envolve quem possui capacidade computacional, infraestrutura e modelos para transformar dados públicos em conhecimento estratégico, vantagem econômica ou poder geopolítico."
Rocha ressalta que outra questão sensível é a ausência de informações sobre o destino dos dados gerados pelo desafio e os riscos da divulgação de informações georreferenciadas sobre patrimônios culturais. Como conta, esses registros podem servir como evidências da ocupação histórica de povos indígenas e comunidades tradicionais, tornando-se alvo de grupos interessados em negar ou apagar essa presença para justificar disputas territoriais.
"Você divulgar informações sobre locais que podem justamente conter evidências dessa presença no território pode ser muito útil para quem quer destruir esse tipo de prova", afirma. "Vestígios arqueológicos constituem provas muito importantes dessa presença histórica de povos e comunidades tradicionais, de povos indígenas", conclui.
Almendra acrescenta que o foco da discussão não deve estar nas intenções declaradas da OpenAI, mas na capacidade do Estado de regular iniciativas desse tipo. Empresas privadas podem desenvolver projetos com objetivos científicos legítimos e, ainda assim, produzir impactos relevantes para a soberania nacional, o patrimônio cultural e os direitos de comunidades tradicionais.
No caso específico do desafio promovido pela OpenAI, Almendra ressalta que, como os dados utilizados eram públicos, o debate não deve girar em torno da restrição ao acesso dessas informações, mas da criação de mecanismos que assegurem transparência, cooperação científica e compartilhamento dos benefícios gerados pelo desenvolvimento de novas ferramentas baseadas nesses dados.
Importância de sítios arqueológicos
A arqueóloga afirma que a identificação de novos sítios arqueológicos na Amazônia possui elevado valor científico, mas ressalta que o termo "descoberta" deve ser usado com cautela, já que muitos desses locais já são conhecidos por povos indígenas e comunidades tradicionais, ainda que permaneçam desconhecidos para pesquisadores de fora da região.
Rocha explica que as evidências arqueológicas ajudam a desconstruir a narrativa histórica de que a Amazônia seria uma "terra sem gente", usada ao longo do tempo para justificar processos de colonização e grandes empreendimentos.
"Quando a gente consegue mostrar que a Amazônia foi, pelo contrário, densamente povoada ao longo de milênios, esses dados arqueológicos da região são bastante relevantes."
A presidente da SAB destaca ainda que os sítios arqueológicos revelam conhecimentos sofisticados sobre o manejo da floresta, muitos dos quais permanecem visíveis na paisagem atual.
Segundo ela, essas evidências permitem compreender a influência de povos indígenas na distribuição de espécies vegetais de importância econômica, além de revelar antigas redes de circulação e conexão em escala transnacional, oferecendo uma nova perspectiva sobre a história da ocupação da Amazônia.



