“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos e ela se afasta dois passos. Caminho 10 passos e o horizonte corre 10 passos. Para que serve então a utopia? Serve para isso, para que eu não deixe de caminhar”. Quem gosta de repetir essa passagem de Eduardo Galeano é um médico paulistano de 90 anos, com sotaque de quem já rodou o país e o mundo, mas nunca perdeu do pé o chão das periferias.
Nelson Rodrigues dos Santos, o “Nelsão” para os íntimos, poderia ter se aposentado há muito tempo, guardado os diplomas na estante e assistido das arquibancadas o SUS se desfazer. Não o fez. Ainda hoje preside o Instituto de Direito Sanitário Aplicado (Idisa), mantém seu vínculo como professor colaborador na Unicamp e, em maio de 2026, participou do seminário “40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde”, promovido pelo Icict/Fiocruz, pela Faculdade de Saúde Pública da USP e pelo movimento Outra Saúde.
Sua fala naquele evento, que ele mesmo intitulou “Legados, Rupturas e Possibilidades”, não foi uma palestra acadêmica qualquer: foi um testemunho vivo de quem ajudou a escrever a história e se recusa a ver o capítulo final ser escrito pelo mercado.
Ao completarmos 40 anos da 8ª Conferência e 37 anos e meio do SUS na Constituição, a pergunta que deveríamos fazer é: por que um sanitarista que começou a atuar ainda nos anos 1960 parece tão atual quanto as manchetes de hoje, sobre a crise dos hospitais filantrópicos ou os planos de saúde cujo preço sobe sem controle?
A resposta está na trajetória do professor Nelson, que não é um museu, mas um método – um jeito de olhar para o território, para a população excluída e para as distorções que transformam o direito em mercadoria. Nelsão não descreveu o SUS apenas como um sistema — ele o antecipou como campo de disputa, onde a universalidade convive com a privatização silenciosa, a equidade com o subsídio aos mais ricos, a integralidade com a fragmentação.
A formação de Nelsão é a de um intelectual público. Graduou-se em medicina pela USP em 1961, fez doutorado em medicina preventiva em 1967 e especializou-se em saúde pública em 1968. Mas sua vida profissional nunca ficou confinada aos muros acadêmicos. Em 1971, ainda no auge da ditadura militar, ele organizou a instalação das primeiras Unidades Básicas de Saúde em Londrina, em convênio com a prefeitura, nas periferias urbanas e nas vilas rurais.
Não era teoria: era no barro, era no postinho precário, era com gente chegando com fome e doença, sem acesso a nada. Foi ali que ele percebeu que o SUS, antes de ser lei, já era prática, uma prática que nascia da tensão social e da necessidade de conter o que ele chamou de “pauperização da população rural sob a ditadura” e que gerou a grande migração para as cidades médias e a explosão das periferias.
Os precários postinhos de saúde, com parcos recursos federais, atraíram sanitaristas atualizados e projetos de estágio de universidades públicas, sob orientação da Opas/OMS. As secretarias municipais de saúde começaram a proliferar e Nelsão estava no centro desse movimento.
Mas ele não parou por aí. Foi consultor da Opas/OMS, gerenciou o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (Piass) no Nordeste, em 1977, e entre 1983 e 1987 assumiu a Secretaria de Saúde de Campinas, onde pôde testar na gestão direta o que aprendera na teoria. Sua passagem por Campinas é lembrada até hoje como um laboratório de inovação, onde a atenção básica foi reorganizada e a participação social começou a ser levada a sério.
Foi nesse período que ele se aproximou definitivamente do movimento da Reforma Sanitária, que fervilhava nas universidades, nos sindicatos e nas assembleias de bairros.
O grande palco de Nelsão, porém, foi a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986. Ele recorda com precisão de militante que a representação inicial de secretários municipais era de apenas 12 pessoas — mas, por uma mobilização espontânea que varreu o país, esse número saltou para 92.
Ele testemunhou o SUS nascer “já em realização na prática”, antes mesmo de ser escrito no papel. Naquele encontro histórico, lançaram-se as bases da universalidade, da equidade, da integralidade, da regionalização e da participação social, princípios que seriam consagrados na Constituição de 1988.
Mas Nelsão nunca se iludiu com a mera inscrição formal. Ele sabia, como poucos, que o texto constitucional seria alvo de sabotagem sistemática e que o SUS real seria sempre uma tensão entre o que está escrito e o que é financiado.
É por isso que, ao analisar os 37 anos e meio de SUS, ele propõe uma distinção que se tornou clássica: temos o “SUS da Constituição”, o “SUS pós-constitucional” (ditado economicamente pelo FMI e socialmente pelo Banco Mundial, com políticas focais e compensatórias) e o “SUS real”, que é uma mistura híbrida dos dois anteriores.
Neste “SUS real”, a atenção básica estacionou muito abaixo dos 90% de cobertura e resolutividade, sobressaindo-se apenas em “ilhas de excelência” que apontam para o futuro. Neste SUS, os serviços de média e alta complexidade convivem com longas esperas e demanda represada; mas ao mesmo tempo é neste SUS que florescem o Samu, os Caps, os hemocentros, o controle da Aids e o que ele chama de “censo civilizatório”, expresso nas mostras de experiências bemsucedidas promovidas pelo Conasems e pelos Cosems.
É exatamente nesse ponto que o Conasems e a mostra nacional “Brasil: aqui tem SUS” ganham uma dimensão central. Realizada anualmente em uma capital brasileira, a mostra reúne gestores, profissionais, pesquisadores e usuários para celebrar aquilo que o SUS tem de melhor: experiências concretas — e muitas vezes heróicas — de trabalhadores e trabalhadoras nos municípios que, com recursos escassos, fazem a equidade, a integralidade e a regionalização avançarem.
São trabalhos que nascem do chão, das unidades básicas, das equipes de saúde da família, dos centros de especialidades, das vigilâncias sanitárias. Eles mostram que o SUS não é apenas um conjunto de normas, mas uma prática viva, um campo de invenção cotidiana.
Nelsão, embora sua presença física tenha se tornado mais rara nos últimos encontros — no ano passado, em Belo Horizonte, ele não esteve —, você continua sendo uma referência indispensável para quem avalia e discute esses trabalhos. Sua ausência física é compensada pela força de suas ideias, que permeiam os debates, as fichas de avaliação e as rodas de conversa.
Seus textos, suas falas gravadas e seus artigos são lidos e relidos por sanitaristas de todas as idades. E sua crítica contundente ecoa nos corredores onde se decide quais experiências merecem o prêmio de “ilha de excelência”. Ele sabe, como poucos, que cada uma dessas ilhas é ao mesmo tempo uma vitória, porque prova que o SUS funciona; e uma denúncia, porque mostra que, se houvesse financiamento adequado e enfrentamento às distorções, o sistema inteiro poderia ser um arquipélago de direitos, e não apenas pontos isolados de luz.
E quais são as distorções que Nelsão não se cansa de denunciar? Ele as enumera com a precisão de quem conhece os números de cor.
O mega subsídio federal às empresas de planos privados de saúde, uma renúncia fiscal maior que o lucro líquido oficialmente declarado por elas. O mega subsídio ao consumo de planos privados pelos trabalhadores sindicalizados, que alcançam 25% da população e têm parte de seus planos bancada por recursos públicos através de dissídios salariais regidos pelo Ministério do Trabalho. O mega subsídio ao pagamento integral de planos privados para todos os membros do Congresso Nacional, do Poder Judiciário, do Ministério Público e do Poder Executivo — castas que se isolam do SUS enquanto decidem seu financiamento.
A lista de distorções apontadas por Nelsão segue com a privatização dos serviços públicos dentro do próprio SUS, já que 70% das internações são privadas, 70% do pessoal é privado, 94% dos serviços de diagnóstico são privados. Uma pesquisa recente da UFMG aponta que 4,2 mil estabelecimentos privados são catalogados como “SUS”, além de 3,2 mil organizações sociais sem fins lucrativos que atuam como prestadoras. Onde fica a equidade, a integralidade e a regionalização nesse cenário?
O Brasil investe apenas 3,9% do PIB em saúde, dos quais só 1,7% são recursos federais, muito aquém dos 7% a 8% recomendados pela OCDE, que reúne países com sistemas públicos eficazes. Nelsão conclui: “O SUS foi a política pública que mais avançou, que mais soube politizar ao final da ditadura e na construção da Constituição. É a luta que mais está escrita e amarrada na Constituição e, no entanto, muito mais que metade do dinheiro público para o SUS tem ido para o setor privado”.
A lógica do mercado, diz ele, prevalece dentro e fora do SUS, e os esforços legais e doutrinários — do Cebes, da Abrasco, do Conasems, do Conass, dos Conselhos de Saúde — sucedem-se para tentar resgatar o espírito constitucional. Leis como o Decreto 7.508/2011 e a Lei Complementar 141/2012, exaustivamente debatidas por mais de um ano entre conselhos de secretários de saúde, área técnica do Ministério da Saúde e comissões legislativas, são leis que representam tentativas de recolocar a equidade, a integralidade e a regionalização no centro da política, mesmo que o financiamento permaneça aquém do necessário.
Mas Nelsão não é um pessimista. Ele tem uma visão de longo prazo que lhe permite dizer: “Perante a comprovada realidade do milenar processo civilizatório e secular, nossos 37 anos e meio para a implementação da integralidade, equidade e regionalização constituem um mero ‘piscar de olhos’ na dinâmica civilizatória”.
Ele confia na militância permanente e coerente dos que defendem o SUS e vê na mostra “Brasil: aqui tem SUS” um termômetro desse ânimo. Para ele, cada trabalho selecionado é uma semente de um sistema que ainda pode florescer — se a sociedade e os gestores não abandonarem a utopia.
É por isso que celebrar o professor Nelson Rodrigues dos Santos, o Nelsão, não é saudosismo. É reconhecer que um homem formado nos anos 1960, que ajudou a plantar UBSs em Londrina sob ditadura, que esteve na 8ª Conferência, que viu o SUS nascer e ser sabotado e que ainda hoje, em 2026, continua na trincheira, é um patrimônio vivo da saúde pública brasileira.
Nelsão não nos está deixando um manual, mas um método: o de olhar para o território, para as periferias, para as experiências concretas; o de não se contentar com o que está escrito se o que está escrito não se realiza; o de caminhar sempre, mesmo que a utopia se afaste. E, como ele mesmo diz, “o futuro não está dado: ele está para ser construído e começa pelo chão que pisamos”.
Cabe a nós – sanitaristas, gestores, professores, pesquisadores, ativistas — aplicar esse método ao caos presente, resistir à financeirização da saúde, denunciar os subsídios aos planos privados, defender o financiamento adequado e, acima de tudo, valorizar cada experiência exitosa que brota nos municípios. Que o legado de Nelsão seja um impulso permanente para ocupar e transformar.
O SUS não é uma coisa, mas uma relação de forças, uma disputa cotidiana. E Nelsão, mesmo nos dias em que não pode estar presente, está em cada ficha de avaliação, em cada relato de gestor, em cada sorriso de usuário que encontra acolhimento na atenção básica. Que seu centenário, quando chegar, nos encontre mais fortes, mais organizados e mais convictos de que a saúde é um direito, não um negócio.
