
"Antirracismo e Pluridiversidade" é o tema do evento, que vai até 17 de julho
Texto: Luiz Felipe Fernandes
Fotos: Lucas Yuji
A Universidade Federal de Goiás (UFG) tornou-se o epicentro do debate antropológico no Brasil com o início, nesta segunda-feira (13/7), da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA). Com o tema "Antirracismo e Pluridiversidade: no meio do caminho, deslizantes águas", o evento, que segue até o dia 17 de julho, marca um momento histórico para a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), que celebra seus 70 anos com a primeira presidência ocupada por uma mulher negra, a professora da UFG Luciana de Oliveira Dias.
A solenidade de abertura, realizada no Centro de Cultura e Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal, foi marcada por discursos que enfatizaram a necessidade de uma antropologia eticamente engajada e reparadora. A mesa diretiva, descrita pelo professor Gersem Baniwa como a mais colorida e diversa da história da associação, simbolizou o compromisso com a pluralização política e epistêmica.
Acesse aqui o álbum de fotos do evento.

Segundo a professora Luciana Dias, o tema da reunião é "uma convocação para renovarmos nosso compromisso com um fazer Antropologia ainda mais atento às assimetrias de poder e seus nefastos efeitos". "Essa temática busca fortalecer uma Antropologia que seja orientada por um desejo genuíno por reparação e bem viver, conforme aprendido por nós com a Marcha das Mulheres Negras", afirmou.
Dando as boas-vindas aos participantes de diversos estados brasileiros e de fora do país, Luciana ressaltou que realizar o evento no Cerrado – "em meio às águas que irrigam vida" – implica um deslocamento para reconhecer "outras centralidades e outras agências", combatendo o racismo ambiental e a insegurança alimentar que afetam povos e comunidades tradicionais.
"O Cerrado imprime sentido a todo um conjunto de conhecimentos, crenças, artes, leis, costumes, hábitos, valores de povos e comunidades que vivenciam suas culturas, fortalecendo suas identidades como corpos-territórios Cerratenses", disse Luciana, lembrando que Goiânia recebeu a 22ª RBA, em 2006.
Fazendo coro ao reconhecimento, o coordenador da 35ª RBA, Mateus Gonçalves França, dirigiu uma saudação especial aos membros de movimentos sociais e lideranças de povos e comunidades tradicionais, cuja sabedoria e luta dão a tônica do evento. "Uma RBA é, a cada edição, uma casa que se abre para o encontro, para a diferença, para a escuta. Que essa semana em Goiânia seja, para todas as pessoas, um bom encontro", finalizou.

Antropologia antirracista
A solenidade também serviu como um chamado à comunidade antropológica. "A própria Antropologia ainda precisa ser antirracista de verdade, de fato. Precisa construir o seu caminho, do presente para o futuro, nessa trilha da pluridiversidade. Sem nós, indígenas, negros, quilombolas, a Antropologia fica mais pobre, portanto fica com menos conhecimento, com menos sabedoria", afirmou Gersem Baniwa, representando o Conselho Diretor da ABA.
Essa visão foi compartilhada pelo secretário-geral da ABA, Waldemir Rosa, que utilizou a geografia do Planalto Central como metáfora para a produção científica. Ele destacou que, assim como as águas silenciosas que brotam do Cerrado irrigam o território nacional, o conhecimento antropológico deve fluir para nutrir as instituições e consciências contra a aridez do racismo estrutural, da misoginia e dos elitismos classistas e acadêmicos.

Vanguarda institucional
A reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, destacou que a Universidade sempre esteve na vanguarda de um ensino superior mais diverso e inclusivo, por meio da criação de um programa de inclusão antes mesmo da Lei de Cotas. "A UFG se transformou em uma Universidade cada vez mais plural e diversa, que batalha pela inclusão e pela promoção da permanência das pessoas que acessam a instituição – muitas delas as primeiras a ter acesso a uma instituição de ensino superior em suas famílias".
O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da UFG, Camilo Albuquerque de Braz, lembrou que a realização da RBA em Goiânia há 20 anos contribuiu para impulsionar e materializar o sonho de criação do programa, que teve início em 2009 com o curso de mestrado, seguindo com a criação do doutorado em 2015.

Programação
A 35ª RBA oferece uma extensa programação, com conferências, simpósios, mesas-redondas, oficinas, minicursos e grupos de trabalho, entre outras atividades. O evento também promove uma série de premiações, entre elas o Prêmio Pierre Verger, que completa 30 anos em 2026. A premiação é destinada a filmes, fotografias e desenhos que resultem de pesquisas ou façam parte de processo de caráter antropológico.
Presente na abertura do evento, o professor da UFG Luis Felipe Kojima Irano, que coordena o prêmio, destacou a importância de reconhecer e divulgar imagens "em um mundo no qual somos cada vez mais inundados por visões nem sempre desejadas".
Após a abertura, foi realizada a entrega da Medalha Josildeth Gomes Consorte, em reconhecimento à contribuição da Antropologia brasileira no enfrentamento ao racismo. A medalha foi entregue ao professor Kabengele Munanga e à professora Zélia Amador de Deus. Já a Medalha Roquete Pinto, que reconhece a excelência na prática antropológica nacional, foi concedida à professora Andréa Luisa Zhouri Laschefski e ao professor Rafael José de Menezes Bastos.
A noite foi encerrada com a conferência magna da antropóloga Todne Thomas, professora na Yale Divinity School e no Yale College (EUA), que participou remotamente. Ela apresentou algumas de suas pesquisas etnográficas, que abordam construções interseccionais de poder e formas críticas de consciência e prática voltadas às modalidades do sagrado.
