35ª RBA coloca Goiânia no centro do debate antropológico brasileiro

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14/07/2026 às 16:595 visualizações
Professora da UFG Luciana Dias é a atual presidenta da ABA
Professora da UFG Luciana Dias é a atual presidenta da ABA
Universidade Federal de Goias
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"Antirracismo e Pluridiversidade" é o tema do evento, que vai até 17 de julho


Texto: Luiz Felipe Fernandes
Fotos: Lucas Yuji

A Universidade Federal de Goiás (UFG) tornou-se o epicentro do debate antropológico no Brasil com o início, nesta segunda-feira (13/7), da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA). Com o tema "Antirracismo e Pluridiversidade: no meio do caminho, deslizantes águas", o evento, que segue até o dia 17 de julho, marca um momento histórico para a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), que celebra seus 70 anos com a primeira presidência ocupada por uma mulher negra, a professora da UFG Luciana de Oliveira Dias.

A solenidade de abertura, realizada no Centro de Cultura e Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal, foi marcada por discursos que enfatizaram a necessidade de uma antropologia eticamente engajada e reparadora. A mesa diretiva, descrita pelo professor Gersem Baniwa como a mais colorida e diversa da história da associação, simbolizou o compromisso com a pluralização política e epistêmica.

Acesse aqui o álbum de fotos do evento.

 

Autoridades na mesa de abertura da 35ª RBA
Autoridades na mesa de abertura da 35ª RBA
Autoridades na mesa de abertura da 35ª RBA

 

Segundo a professora Luciana Dias, o tema da reunião é "uma convocação para renovarmos nosso compromisso com um fazer Antropologia ainda mais atento às assimetrias de poder e seus nefastos efeitos". "Essa temática busca fortalecer uma Antropologia que seja orientada por um desejo genuíno por reparação e bem viver, conforme aprendido por nós com a Marcha das Mulheres Negras", afirmou.

Dando as boas-vindas aos participantes de diversos estados brasileiros e de fora do país, Luciana ressaltou que realizar o evento no Cerrado – "em meio às águas que irrigam vida" – implica um deslocamento para reconhecer "outras centralidades e outras agências", combatendo o racismo ambiental e a insegurança alimentar que afetam povos e comunidades tradicionais.

"O Cerrado imprime sentido a todo um conjunto de conhecimentos, crenças, artes, leis, costumes, hábitos, valores de povos e comunidades que vivenciam suas culturas, fortalecendo suas identidades como corpos-territórios Cerratenses", disse Luciana, lembrando que Goiânia recebeu a 22ª RBA, em 2006.

Fazendo coro ao reconhecimento, o coordenador da 35ª RBA, Mateus Gonçalves França, dirigiu uma saudação especial aos membros de movimentos sociais e lideranças de povos e comunidades tradicionais, cuja sabedoria e luta dão a tônica do evento. "Uma RBA é, a cada edição, uma casa que se abre para o encontro, para a diferença, para a escuta. Que essa semana em Goiânia seja, para todas as pessoas, um bom encontro", finalizou.

 

Professora da UFG Luciana Dias é a atual presidenta da ABA
Professora da UFG Luciana Dias é a atual presidenta da ABA
Professora da UFG Luciana Dias é a atual presidenta da ABA

 

Antropologia antirracista

A solenidade também serviu como um chamado à comunidade antropológica. "A própria Antropologia ainda precisa ser antirracista de verdade, de fato. Precisa construir o seu caminho, do presente para o futuro, nessa trilha da pluridiversidade. Sem nós, indígenas, negros, quilombolas, a Antropologia fica mais pobre, portanto fica com menos conhecimento, com menos sabedoria", afirmou Gersem Baniwa, representando o Conselho Diretor da ABA.

Essa visão foi compartilhada pelo secretário-geral da ABA, Waldemir Rosa, que utilizou a geografia do Planalto Central como metáfora para a produção científica. Ele destacou que, assim como as águas silenciosas que brotam do Cerrado irrigam o território nacional, o conhecimento antropológico deve fluir para nutrir as instituições e consciências contra a aridez do racismo estrutural, da misoginia e dos elitismos classistas e acadêmicos.

 

Participantes reunidos no Centro de Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal
Participantes reunidos no Centro de Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal
Participantes reunidos no Centro de Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal

 

Vanguarda institucional

A reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, destacou que a Universidade sempre esteve na vanguarda de um ensino superior mais diverso e inclusivo, por meio da criação de um programa de inclusão antes mesmo da Lei de Cotas. "A UFG se transformou em uma Universidade cada vez mais plural e diversa, que batalha pela inclusão e pela promoção da permanência das pessoas que acessam a instituição – muitas delas as primeiras a ter acesso a uma instituição de ensino superior em suas famílias".

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da UFG, Camilo Albuquerque de Braz, lembrou que a realização da RBA em Goiânia há 20 anos contribuiu para impulsionar e materializar o sonho de criação do programa, que teve início em 2009 com o curso de mestrado, seguindo com a criação do doutorado em 2015.

 

O professor Kabengele Munanga foi um dos agraciados com a Medalha Josildeth Gomes Consorte
O professor Kabengele Munanga foi um dos agraciados com a Medalha Josildeth Gomes Consorte
O professor Kabengele Munanga foi um dos agraciados com a Medalha Josildeth Gomes Consorte

 

Programação

A 35ª RBA oferece uma extensa programação, com conferências, simpósios, mesas-redondas, oficinas, minicursos e grupos de trabalho, entre outras atividades. O evento também promove uma série de premiações, entre elas o Prêmio Pierre Verger, que completa 30 anos em 2026. A premiação é destinada a filmes, fotografias e desenhos que resultem de pesquisas ou façam parte de processo de caráter antropológico.

Presente na abertura do evento, o professor da UFG Luis Felipe Kojima Irano, que coordena o prêmio, destacou a importância de reconhecer e divulgar imagens "em um mundo no qual somos cada vez mais inundados por visões nem sempre desejadas".

Após a abertura, foi realizada a entrega da Medalha Josildeth Gomes Consorte, em reconhecimento à contribuição da Antropologia brasileira no enfrentamento ao racismo. A medalha foi entregue ao professor Kabengele Munanga e à professora Zélia Amador de Deus. Já a Medalha Roquete Pinto, que reconhece a excelência na prática antropológica nacional, foi concedida à professora Andréa Luisa Zhouri Laschefski e ao professor Rafael José de Menezes Bastos.

A noite foi encerrada com a conferência magna da antropóloga Todne Thomas, professora na Yale Divinity School e no Yale College (EUA), que participou remotamente. Ela apresentou algumas de suas pesquisas etnográficas, que abordam construções interseccionais de poder e formas críticas de consciência e prática voltadas às modalidades do sagrado.

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Universidade Federal de Goias
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