Em sua passagem pela histórica edição de 60 anos do Montreux Jazz Festival, na Suíça, Liniker confirmou por que se tornou uma das artistas mais importantes da música brasileira contemporânea. Ao longo de dois dias de intensa atividade no festival, revelou diferentes facetas de uma trajetória que combina excelência artística, reflexão sobre cultura e uma rara capacidade de estabelecer conexões humanas profundas. Seja diante do público, em conversa com jornalistas ou no palco, a artista apresentou uma visão de mundo marcada pelo compromisso com a arte, com a memória, com as pessoas e com as múltiplas representações que sobem ao palco com ela.
Durante um workshop promovido pelo Montreux Jazz Festival, no dia 6 de julho, Liniker impressionou pela generosidade e profundidade de suas reflexões sobre criação artística, ancestralidade, liberdade e pertencimento. Ao falar de referências como Elis Regina, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e Hermeto Pascoal, mostrou o respeito por uma tradição cultural da qual hoje também faz parte. Mais do que comentar influências musicais, refletiu sobre o papel da cultura na formação das pessoas e sobre a responsabilidade de ampliar caminhos para novas gerações.
Menos de 24 horas depois, em conversa com a reportagem, falou sobre suas origens em Araraquara, os projetos culturais que marcaram sua infância, a pluralidade do Brasil e a importância da arte como instrumento de transformação social. Na mesma noite, diante de uma sala lotada, transformou essas ideias em música.
Em um dos concertos mais celebrados do festival nesta edição histórica de 60 anos, apresentou um espetáculo marcado pela potência vocal, pela sofisticação artística e pela intensa conexão com o público. Acompanhada por uma banda de extraordinária qualidade e tendo como convidado especial o pianista pernambucano Amaro Freitas, um dos nomes mais importantes da música instrumental brasileira contemporânea, Liniker reafirmou o lugar que ocupa hoje na cultura brasileira e internacional.
Poucos dias depois, em 11 de julho, estrearia a turnê “Bye Bye Caju” diante de um estádio lotado em São Paulo, consolidando um momento singular de uma carreira marcada pela capacidade de alcançar públicos cada vez mais amplos sem abrir mão da liberdade criativa e das raízes que sustentam sua obra.
A entrevista a seguir foi realizada algumas horas antes da apresentação em Montreux. Mais do que uma conversa sobre música, é um retrato de como Liniker enxerga o Brasil, a cultura e os caminhos que a arte pode abrir na vida das pessoas.

Brasil de Fato RS: No workshop, você comentou que, se não fosse artista, talvez fosse jornalista. Se hoje tivesse uma câmera, um microfone e apenas uma reportagem para contar ao mundo sobre o Brasil, qual história escolheria contar?
Liniker: Eu acho que eu gostaria muito de falar do Brasil na visão do povo. Acho que a coisa mais interessante do meu trabalho, para além de fazer música e viajar, é conhecer pessoas. E toda vez que eu conheço alguém e tenho a oportunidade de criar uma conexão com aquela pessoa, em uma vida tão corrida, eu acho muito incrível ouvir histórias de vida e entender como as pessoas se colocam no mundo para viver aquilo que sonham.
Seja uma mudança de estado, uma mudança de vida ou uma mudança de profissão, me interessa entender como essas transformações interferem na ideia de viver bem, na maneira de enxergar a vida e, principalmente, na capacidade de ser fiel a si mesmo e ao que se acredita. Acho que eu faria uma matéria sobre isso.
O que a Liniker de Araraquara ainda ensina à Liniker que percorre o mundo?
Que ter tempo é tudo. No Interior a gente vive um tempo diferente daquele das grandes cidades. Eu lembro que, quando morava em Araraquara, tinha muita pressa de sair de lá, de fazer acontecer. Hoje, depois de tantos anos vivendo a correria da carreira, eu gostaria de ser um pouco mais do Interior novamente.
Não é ser bicho do mato. É entender que, mesmo quando você chega a lugares importantes e é reconhecida pelo que faz, continua precisando de tempo. Acho que a menina de Araraquara diria para mim: “Calma, filha. Está tudo certo. Vai devagar. Devagar também é pressa”.
O que a cultura tornou possível na sua vida que nenhuma outra ferramenta teria conseguido?
A cultura me deu a realidade de poder sonhar. De poder criar uma outra realidade em comparação àquela em que eu nasci. Se não fosse minha mãe me inscrever nos projetos culturais que existiam no bairro e na cidade, se não fosse minha família acreditar na minha vontade de fazer arte, e se a única possibilidade não tivesse sido através dos espaços culturais públicos, eu não sei qual seria a minha realidade hoje.
Sou muito grata à cultura, à arte e às possibilidades que elas me trouxeram. O Brasil é um país continental. Quando pensamos na pluralidade cultural que existe dentro dele, entendemos que não existe uma única cultura brasileira, mas inúmeras culturas. E isso é muito rico. Não é uma questão de vaidade. É algo que engrandece as pessoas como seres humanos.
Quando você sobe ao palco, qual Brasil sobe junto com você?
O Brasil que faz diferença através da sua própria existência. O Brasil das travestis, das pessoas trans, das pessoas LGBTQIA+, das pessoas pretas, das pessoas indígenas, das pessoas que sonham e das pessoas que lutam pelos seus espaços.
Para mim é uma honra poder rodar o mundo sendo reconhecida pelo meu trabalho, pelo que eu faço e produzo. Isso não representa apenas a mim. De alguma forma, também representa milhões de pessoas brasileiras.
É claro que é impossível representar todo mundo. Nós temos opiniões diferentes, experiências diferentes. Nem toda pessoa LGBT se vê em mim, assim como nem toda pessoa trans se vê em mim. Mas, enquanto ser humana e enquanto uma pessoa brasileira, eu tenho a honra de somar e de poder dizer em todos os palcos que eu chego: eu sou brasileira e hoje vou fazer esse show para vocês.
Este é um show especial, que será gravado. O que representa esse momento para você?
É a realização de um sonho muito grande. Desde que recebi o convite, pensei que esse momento precisava ser registrado. Eu sempre digo que um disco é o registro de um momento da vida. Quando escrevi “Caju”, eu tinha 28 anos. Hoje tenho 31. Muitas coisas mudaram, inclusive meu olhar sobre elas. Mas é importante documentar aquilo que estamos vivendo.
Por isso senti que precisava registrar este show não apenas para quem estivesse aqui assistindo, mas também para a história e para a cultura do Brasil. Mais uma vez, o Brasil faz parte do legado do Festival de Montreux, especialmente em uma edição tão simbólica como a de 60 anos.
Também temos a participação de Amaro Freitas, que é um artista que admiro profundamente. Ele já esteve outras vezes em Montreux, participou do disco e é alguém que me inspira muito. Existe uma troca cultural muito bonita entre aquilo que ele constrói na música instrumental e aquilo que eu busco construir através da minha poesia. É um momento que realmente não passa despercebido.
