Montreux Jazz Festival celebra 60 anos e mostra como a cultura pode transformar uma cidade

Por Mônica Cabanas14/07/2026 às 14:300 visualizações
O brasileiro Edmundo Timm, iluminador do Auditório Stravinski há 25 anos, atua nos bastidores do Montreux Jazz Festival
O brasileiro Edmundo Timm, iluminador do Auditório Stravinski há 25 anos, atua nos bastidores do Montreux Jazz Festival
Brasil de Fato

Quando o Montreux Jazz Festival foi criado por Claude Nobs, em 1967, poucos poderiam imaginar que um evento musical se transformaria em um dos principais símbolos de uma cidade inteira. Sessenta anos depois, o festival na Suíça não apenas consolidou seu lugar entre os mais importantes encontros culturais do mundo, como ajuda a projetar internacionalmente Montreux, transformando a cultura em parte fundamental da identidade local.

Segundo a Prefeitura de Montreux, o evento moldou profundamente a vida cultural da cidade, contribuiu para seu reconhecimento global e teve papel importante na adesão do município à Rede de Cidades Criativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Cidade da Música.

Realizada entre 3 e 18 de julho, a edição de 2026 celebra seis décadas de uma história construída a partir da música, da inovação e do encontro entre diferentes culturas. Ao longo desse período, passaram pelos palcos do festival artistas como Miles Davis, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Prince, David Bowie, Aretha Franklin e Quincy Jones, transformando Montreux em uma referência mundial para músicos e público.

Visitantes caminham pela orla do Lago Léman durante a edição de 60 anos do Montreux Jazz Festival, na Suíça |
Visitantes caminham pela orla do Lago Léman durante a edição de 60 anos do Montreux Jazz Festival, na Suíça | — Divulgação MJF
Visitantes caminham pela orla do Lago Léman durante a edição de 60 anos do Montreux Jazz Festival, na Suíça | Crédito: Divulgação MJF

A programação dos 60 anos mantém essa tradição. Nomes como Sting, John Legend, Deep Purple, James Taylor, Van Morrison, Moby, The Roots, Nick Cave & The Bad Seeds, Givēon, Raye e Tyla estão entre os destaques de uma edição que reafirma a capacidade do festival de reunir artistas consagrados e novas vozes da música internacional.

Relação Brasil–Montreux

A relação entre o Brasil e Montreux ocupa um capítulo especial dessa história. Desde a histórica Noite Brasileira de 1978, artistas como Elis Regina, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento, Maria Bethânia, João Gilberto, Marisa Monte, Ney Matogrosso, Hermeto Pascoal, Seu Jorge, Emicida e Anavitória ajudaram a fortalecer os laços entre a música brasileira e o festival suíço. Essa presença constante transformou o Brasil em uma das referências culturais mais importantes da história do evento.

Essa tradição se mantém viva na edição de 60 anos, que trouxe aos palcos do festival duas artistas de gerações distintas. Liniker, dona de uma trajetória que vai de Araraquara ao mundo, e Mari Froes, jovem compositora goiana que vem conquistando espaços internacionais, subiram aos palcos do Montreux Jazz Festival com a força de quem sabe que sua voz carrega mais do que notas e letras — carrega histórias de vida, de pertencimento e de um Brasil plural.

Liniker, uma das artistas mais relevantes da música brasileira atual, apresentou um espetáculo que confirmou por que se tornou um nome central da cultura contemporânea. Acompanhada por sua banda, de qualidade técnica e artística excepcional, e tendo como convidado especial o pianista pernambucano Amaro Freitas — um dos nomes mais importantes do jazz instrumental brasileiro, com uma trajetória que mescla influências do frevo, maracatu, coco e baião à linguagem do jazz —, Liniker trouxe ao palco a força do soul e do samba, mas também a memória de suas origens e a gratidão aos projetos culturais públicos que tornaram sua trajetória possível, como ela mesma lembrou em entrevista à reportagem.

Mari Froes, por sua vez, representa uma nova geração de compositoras brasileiras que vêm ganhando espaço no cenário internacional. Sua música, que transita com naturalidade entre diferentes ritmos brasileiros, tem chamado a atenção pela autenticidade e pela sensibilidade poética. Em Montreux, ela levou ao público uma linguagem contemporânea que dialoga com a tradição, sem abrir mão da brasilidade.

Acesso democrático à cultura

A importância do Montreux Jazz Festival, no entanto, vai muito além dos palcos e dos números do turismo. Para a administração municipal, o evento é um dos principais motores do desenvolvimento econômico da região — mas não apenas isso. Todos os anos, cerca de 250 mil visitantes participam da programação, movimentando hotéis, restaurantes, transportes, comércio e serviços em toda a Riviera Vaudense.

Apesar de atrair um público estrangeiro de elevado poder aquisitivo — característica comum a eventos na Suíça —, o festival também se esforça para manter espaços de acesso democrático à cultura. Ao longo de toda a programação, uma infinidade de concertos gratuitos e atividades abertas ao público reforçam a ideia de que a música, mesmo num dos festivais mais prestigiados do mundo, pode e deve ser para todos. A prefeitura de Montreux destaca essas iniciativas como fundamentais para ampliar o acesso à cultura e apoiar o desenvolvimento de jovens artistas da região — uma lição que ecoa em cidades de todo o mundo, incluindo o Brasil.

Público circula entre os espaços do festival, que reúne shows pagos e atividades gratuitas abertas a todas as pessoas |
Público circula entre os espaços do festival, que reúne shows pagos e atividades gratuitas abertas a todas as pessoas | — Divulgação MJF
Público circula entre os espaços do festival, que reúne shows pagos e atividades gratuitas abertas a todas as pessoas | Crédito: Divulgação MJF

Conexões além da música

A transformação produzida pelo festival é percebida também por quem vive essa história nos bastidores. Há cerca de 25 anos trabalhando no Auditório Stravinski, principal sala de concertos do evento, o brasileiro Edmundo Timm, que atua na iluminação do festival, define Montreux como um dos grandes centros mundiais de encontro entre artistas, produtores, gravadoras e profissionais da música. Para ele, participar dessa trajetória é um privilégio raro.

Outro brasileiro presente também há 25 anos no festival é o iluminador Washington Espínola, que destaca a capacidade do evento de criar encontros humanos duradouros e conexões que ultrapassam a música. Ao recordar Claude Nobs, fundador do festival, ele o descreve como um visionário apaixonado pela arte, responsável por transformar uma ideia cultural em um acontecimento internacional que continua reunindo pessoas de diferentes origens sessenta anos depois.

Aos 60 anos, o Montreux Jazz Festival segue mostrando que a cultura pode, sim, transformar uma cidade. Mais do que isso, a edição de 2026 reafirma que a música brasileira — em sua diversidade, em sua força e em sua capacidade de sonhar — ocupa um lugar de destaque nessa história.

Com Liniker e Mari Froes, o festival não apenas celebra seu passado, mas aponta para um futuro em que vozes de diferentes origens seguem ocupando os palcos mais importantes do mundo. E, como Liniker disse em sua passagem por Montreux: “A cultura me deu a realidade de poder sonhar”. Que continue dando.

Fonte
Brasil de Fato
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