Reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2008 e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2014, a roda de capoeira carrega uma história marcada pela resistência negra, preservação de saberes ancestrais e construção coletiva. Dentro dessa trajetória, mulheres também tiveram papel fundamental, embora por muito tempo tenham enfrentado barreiras para ocupar espaços de liderança em uma prática historicamente associada ao protagonismo masculino.
É nesse contexto que o Distrito Federal recebe, em julho, duas referências da capoeira feminina brasileira: a Mestra Arara, do Rio de Janeiro, e a Mestra Lilu, da Bahia. As duas participam da programação do projeto Mulheres Fortes, que promove vivências gratuitas, rodas de conversa e atividades culturais voltadas ao fortalecimento do protagonismo das mulheres na capoeira e na cultura popular.
As atividades serão realizadas na Associação Cultural Arena Capoeira, no Riacho Fundo I. Mestra Arara participa dos encontros neste final de semana, enquanto Mestra Lilu conduz a vivência no dia 25. A programação é aberta a toda a comunidade.
Mulheres na história da capoeira
Embora durante muito tempo tenham sido invisibilizadas nos registros oficiais, mulheres estiveram presentes na história da capoeira desde suas origens. Elas já apareciam, ao longo do século 19, em registros policiais e jornais por sua relação com a prática, na época criminalizada.
A consolidação das academias de capoeira, no entanto, também reforçou uma estrutura predominantemente masculina. Nas últimas décadas, a atuação de mestras e coletivos tem contribuído para transformar esse cenário, ampliando a presença das mulheres em posições de liderança e fortalecendo a transmissão dos conhecimentos tradicionais da capoeira.
Trajetórias de resistência
Com mais de 30 anos de caminhada na capoeira, Mestra Arara tornou-se uma das referências da modalidade no país. Ela se formou professora em 1993, recebeu o título de mestra em 2011, concedido por sua mentora, Mestra Cigana, e fundou o Grupo Mestra Arara em 1996.
Ao longo da trajetória, desenvolveu trabalhos voltados ao fortalecimento feminino e à formação de novas praticantes. Para ela, levar sua história para outras mulheres é também uma forma de preservar um legado construído por gerações.
“Sempre quero falar para as outras meninas e mulheres que elas não estão sozinhas, e nunca vão estar, porque temos um legado forte de mulheres que vêm com uma história muito pesada, onde soubemos driblar todo esse sistema”, afirma.
Mestra Lilu também construiu uma trajetória marcada pela preservação dos fundamentos da capoeira, especialmente por meio da musicalidade, dos cantos tradicionais e da transmissão oral dos saberes da manifestação cultural.
Para a mestra, a capoeira é construída a partir da relação entre movimento, música e diálogo.
“A minha maneira de vivenciar a capoeira e de transmiti-la está sempre alicerçada em três eixos: musicalidade na transmissão da capoeira, movimentação e conversa. As histórias de vida são a maior arma contra a opressão”, destaca.
Cultura como ferramenta de transformação
Idealizado pela coordenadora Elisete Pereira, o projeto Mulheres Fortes nasceu a partir de uma experiência pessoal de luto e reconstrução, com o objetivo de criar redes de apoio entre mulheres por meio da capoeira.
Segundo a organização, a iniciativa busca utilizar a cultura popular como ferramenta de fortalecimento, diálogo e solidariedade. Durante o primeiro semestre, foram realizadas oficinas gratuitas de capoeira conduzidas pela Contramestra Kekel e pela Monitora Guerreira, além dos encontros chamados Diálogos de Paz, que reuniram mulheres da comunidade do Riacho Fundo para compartilhar experiências.
Além das vivências presenciais, a programação de julho inclui lives temáticas sobre manifestações tradicionais ligadas à cultura popular. Os encontros virtuais abordarão Coco de Zambê (15 de julho), Maculelê (20 de julho) e Samba de Roda (22 de julho), sempre às 20h, pelo perfil do projeto no Instagram (@mulheresf).
O projeto também promove, durante o mês, uma campanha de arrecadação de alimentos não perecíveis destinados a mães em situação de vulnerabilidade social.
A programação será encerrada com o tradicional batizado de capoeira, nos dias 24 e 25 de julho, momento em que novos praticantes são acolhidos oficialmente na modalidade e alunos mais antigos recebem novas graduações.
O Mulheres Fortes é realizado pelo Arena Lutas e pelo Bando Matilha Capoeira, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF).
Serviço
Projeto Mulheres Fortes no Distrito Federal
Vivências de capoeira:
Data: 18, 19 e 25 de julho
Local: Associação Cultural Arena Capoeira
Horário: 14h
Entrada: gratuita mediante inscrição (neste link)
Batizado de Capoeira e distribuição de cestas básicas:
Data: 24 e 25 de julho
Local: Associação Cultural Arena Capoeira
Horário: 16h às 22h
Entrada: gratuita
Mais informações no Instagram @mulheresf
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