Mamdani depois de Sanders: avanço programático, impasse estratégico

Por Stephanie Weatherbee Brito14/07/2026 às 18:140 visualizações
O democrata Mamdani, de 34 anos, se credencia como um dos principais nomes oposicionista a Trump
O democrata Mamdani, de 34 anos, se credencia como um dos principais nomes oposicionista a Trump
Brasil de Fato

Seis meses de gestão de Zohran Mamdani à frente de Nova York bastam para reconhecer nele a maior figura do Democratic Socialists of America (DSA – Socialistas Democráticos da América) desde Bernie Sanders, ainda que a natureza dessa liderança seja distinta. Sanders foi, antes de tudo, um candidato em torno do qual o DSA se organizou; Mamdani é um construtor ativo da organização, um filiado que ajudou a erguer a estrutura à qual pertence, e não apenas um nome que a ela se associou. Essa diferença não é biográfica apenas, e sim política.

Os dois representam gerações distintas da política do flanco esquerdo do Partido Democrata, mas o que mais os separa é o público a que se dirigem. Enquanto Sanders procurou falar a um eleitorado nacional e diverso, Mamdani se dirige a um enclave específico – os nova-iorquinos de renda média e baixa, população etnicamente diversa, imigrante, jovem e, em parte, com escolaridade intermediária, cujo problema central é o custo de vida numa cidade gentrificada até o extremo.

Ainda que suas posições sobre os grandes temas sejam próximas, a retórica difere. Sanders concentrou-se no perdão da dívida estudantil e no Green New Deal; Mamdani colocou no centro do debate o congelamento dos aluguéis, a melhoria do transporte público e a taxação dos ricos. A diferença acompanha a mudança de cenário. Sanders falava a uma geração radicalizada pelos resgates bancários e pela crise de 2009, formada na experiência do movimento Occupy Wall Street, e respondia a ela com evocações algo utópicas do socialismo escandinavo; Mamdani apresenta a plataforma social-democrata num quadro notoriamente transformado, em que o enfrentamento ao fascismo de Trump ocupa o centro da crítica ao capitalismo e em que a violência policial – seja nas batidas do ICE, seja nos assassinatos perpetrados contra negros e latinos – se tornou uma das principais fontes de radicalização das fileiras da esquerda dentro da base democrata.

Por todas essas razões, Mamdani empurrou a agenda explicitamente socialista mais adiante do que Sanders, ao defender a propriedade pública de setores hoje dominados pelo mercado. Não se trata de um gesto isolado, e sim de um deslocamento que encontra respaldo num momento em que o interesse pelo socialismo atingiu um patamar historicamente alto.

Comparar os resultados de gestão de cada um seria, contudo, prematuro e mesmo improcedente. Seis meses de prefeitura não se medem contra 19 anos de Senado, e um chefe de executivo municipal não dispõe dos mesmos instrumentos que um legislador federal; o poder de efetivar reformas simplesmente não é equivalente entre as duas posições. Ainda assim, ambos concentraram esforços na questão da acessibilidade e na ampliação do acesso a serviços públicos, elementos que são parte constitutiva de uma agenda socialista.

O problema real, no entanto, situa-se em outro plano: a estratégia do DSA de construir poder à margem do Partido Democrata. Sanders notoriamente não rompeu com o partido e frustrou um contingente expressivo de militantes do DSA ao apoiar Biden em 2020, depois que este se apresentou como candidato imposto pela cúpula partidária e pelo casal Obama, a despeito da rejeição popular. A fidelidade que Sanders mantém ao Partido Democrata confunde e decepciona muitos que buscaram construir a organização precisamente como reação ao abandono, ao longo de décadas, de sua base trabalhadora pelos democratas.

A pergunta que se impõe, portanto, é onde Mamdani se situa em relação ao partido. A aliança com a governadora democrata Kathy Hochul, que ele defende como necessária, é problemática justamente nesse ponto. Se governar exige, de fato, a construção de alianças, é difícil determinar onde a aliança tática deixa de responder a uma exigência de conjuntura e passa a atenuar as críticas que a base do DSA historicamente dirigiu a Hochul – um deslocamento que, mais uma vez, favorece o Partido Democrata em detrimento do próprio DSA.

Publicamente, a estratégia do DSA consiste em acumular uma massa crítica de apoiadores capaz de ditar a agenda partidária e deslocá-la à esquerda. Nos momentos decisivos, contudo – de modo mais evidente na política externa –, os parlamentares do DSA seguiram a linha do Partido Democrata, fizeram alianças locais que sacrificaram a própria agenda ou emprestaram seu peso a democratas que estão longe de representá-la.

Mais problemático ainda é o foco do DSA na disputa eleitoral como mecanismo principal para alterar a correlação de forças nos Estados Unidos. A tese de que, falando a um número crescente de eleitores sobre as questões concretas do cotidiano, é possível transformar a paisagem política do país, confunde tática com estratégia. O trabalho de porta em porta não basta para reverter o bloco de eleitores desmobilizados que se formou ao longo de décadas, para reduzir a influência que o pentecostalismo construiu sobre a classe trabalhadora ou para reexaminar a lealdade do movimento sindical aos democratas. O que se faz necessário é uma estratégia robusta, capaz de estudar e teorizar esses fenômenos e de propor os processos para superá-los, à altura do enfrentamento com a política da era Trump e com as tendências fascistizantes de boa parte de sua base.

Tanto Mamdani quanto Sanders lograram mover a opinião pública em defesa das causas da classe trabalhadora. Nenhum dos dois, até aqui, propôs uma estratégia para construir o poder efetivo dessa mesma classe – e é nesse ponto, não no cotejo entre duas trajetórias, que a esquerda estadunidense terá de se medir nos anos que vêm.

Fonte
Brasil de Fato
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