Em seu romance de estreia, “Ressalga” (Ed. Record), Bethânia Pires Amaro remonta a história da Bahia a partir dos anos 1950 com o protagonismo de uma família de mulheres na Ladeira da Montanha, que liga a cidade alta e a cidade baixa de Salvador e foi uma famosa zona de meretrício durante várias décadas.
Segundo a autora — que se apresenta como duplamente nordestina, por ser nascida em Recife e ter vivido em Salvador –, ao passar pela região, ela se sentia em um cenário de romance do realismo mágico, e pensava que a história dali precisava ser contada.
“Eu queria entender um pouco como as mulheres chegavam até a Ladeira da Montanha. Eu queria compreender um pouco das dinâmicas familiares entre mulheres”, explica a escritora em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.
Bethânia conta que Jorge Amado tinha o plano de escrever sobre a realidade do local, mas desistiu após o endurecimento da ditadura civil-militar. “Houve uma mostra fotográfica encomendada pelo próprio Jorge Amado, no intuito de escrever sobre a Ladeira da Montanha. Mas ele acabou nunca escrevendo esse livro, porque logo depois veio o A I-5. Esse livro nunca foi escrito, mas isso só fortaleceu para mim a ideia de que havia uma história a ser contada ali.”
O livro apresenta histórias ficcionais, mas, ao mesmo tempo, descreve muito da realidade entre as décadas de 1950 e 1970 no Brasil. A autora utilizou diversos documentos e relatos históricos sobre o contexto e fatos emblemáticos para ampliar a verossimilhança.
“A Ladeira da Montanha tem uma história que conversa muito com a história do Brasil, pega um período muito rico de ditadura militar, da industrialização do Estado da Bahia, do movimento hippie, da Tropicália. Então, é um momento muito fecundo, do ponto de vista cultural, na Bahia e no Brasil, e eu quis ligar tudo isso”, destacou Bethânia.
A autora usa a natureza para compor a narrativa de três gerações de mulheres que se relacionam de forma conflituosa. “O livro trabalha com muita sensorialidade. Então, há uma simbologia do fogo, da terra, do ar e principalmente da água. A água une essas mulheres, inclusive ao próprio território e às geografias que são apresentadas.”
“Eu queria que o leitor tivesse a experiência de ser carregado pelas águas. Algo com muita força, algo que fosse muito caudaloso e que levasse realmente com muita força esse leitor para dentro dessa história”, explica a autora.
Bethânia é uma das autoras convidadas na programação oficial da 24ª edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece entre os dias 22 e 26 de julho deste ano. Ao lado de Nathacha Appanah, escritora franco-mauriciana, a brasileira falará sobre a escrita de protagonistas mulheres e o contexto de violência contra elas.
Seu primeiro livro, “O ninho” (Ed. Record), foi vencedor dos Prêmios SESC, APCA e Jabuti, na categoria de contos. Em cada história da obra, Bethânia mergulha na vida de uma personagem feminina para debater as mazelas enfrentadas por mulheres.
Para a escritora, cada vez mais a literatura contemporânea vem sendo preenchida por protagonistas mulheres, o que não era habitual. “Muitos dos nossos temas eram considerados menores, temas domésticos que não conversavam com temas universais, mais globais, de amplo interesse. Então, se viu que esse pensamento estava completamente equivocado. Nossas questões, as tantas questões de muitos outros grupos que vêm sendo cada vez mais representados na nossa literatura contemporânea, só mostram que há uma sede muito grande por essas histórias, por esses pontos de vista”, conclui a autora.
Conversa Bem Viver

A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.
Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.
São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!
