O jogo entre Argentina e Inglaterra pela semifinal da Copa do Mundo 2026, que acontece nesta quarta-feira (15), transcende as quatro linhas do campo e carrega um peso histórico que move a torcida argentina. No entanto, se depender do governo do presidente argentino Javier Milei e da Fifa, os torcedores do país sul-americano terão parte de sua identidade e reivindicações censuradas dentro do Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.
O governo argentino concordou nesta terça-feira (14) com uma proibição da Fifa que impede os torcedores de entrarem no estádio com bandeiras, camisetas ou qualquer objeto que faça alusão às Ilhas Malvinas.
A ministra de Segurança da Argentina, Alejandra Monteoliva, justificou a medida sob o argumento de “preservar o ordem” em um evento classificado como de alto risco, proibindo especificamente mensagens políticas, de ódio ou de intolerância que possam “provocar alguma situação”.
A medida ignora o significado histórico das Malvinas para o povo argentino, onde o arquipélago, sob ocupação colonial britânica desde 1833, representa uma ferida aberta e um pilar de dignidade nacional.
A postura do governo Milei não é inédita. Em abril de 2025, no Dia dos Veteranos da Guerra das Malvinas, o presidente argentino proferiu um discurso contraditório ao afirmar que o objetivo é que os habitantes das ilhas “queiram ser argentinos”, reconhecendo a possibilidade de autodeterminação dos colonos.
A reivindicação pela soberania das Ilhas Malvinas é considerada parte do “DNA argentino”. O conflito bélico de 1982, que durou pouco mais de dois meses e resultou na morte de 649 argentinos e 255 britânicos, é um tema recorrente na cultura e no imaginário coletivo do país, considerada uma ferida que permanece aberta na relação diplomática entre Buenos Aires e Londres.
Em campo
O histórico de enfrentamentos entre Argentina e Inglaterra em Copas do Mundo também é marcado por tensões que refletem a rivalidade geopolítica. O episódio mais emblemático ocorreu nas quartas de final de 1986, no México, quando Diego Maradona protagonizou dois dos gols mais famosos da história do futebol: o “Mano de Dios” e o “Gol do Século”, onde driblou quase metade do time inglês.
Essa partida de 40 anos atrás, vencida pela Argentina por 2 a 1, tornou-se um símbolo de desagravo pelo conflito de 1982 e impulsionou a seleção rumo ao seu segundo título mundial.
Doze anos depois, na Copa de 1998, na França, as seleções se reencontraram nas oitavas de final, com a Argentina eliminando a Inglaterra nos pênaltis. Em 2002, o confronto ocorreu ainda na fase de grupos, com vitória inglesa por 1 a 0.
