Antes de se tornar patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e ser imortalizada pela música homônima de Caetano Veloso, a cajuína era uma bebida voltada aos quintais produtivos para aproveitamento do excedente dos cajus após uma boa safra em solo de famílias piauienses.
O que poucos sabem é que a transformação deste suco clarificado de caju, derivado da bebida indígena cauim, em um produto comercial com alcance nacional carrega o pioneirismo de uma mulher à frente de seu tempo. Na década de 1930, na histórica cidade de Valença do Piauí, no território do Vale do Sambito, a matriarca Maria Portela Veloso deu os primeiros passos para mudar o destino da bebida símbolo do estado nordestino.
Conhecida carinhosamente como “dona Maricas” pelos registros da família, ela foi a pioneira na rotulagem e comercialização da bebida. Seu marido, Clóvis Veloso, era caixeiro-viajante e foi em busca de uma gráfica, a gráfica Royal, no estado do Ceará, em Fortaleza, para rotular a primeira cajuína do Brasil, pois à época ainda não existia gráfica no estado do Piauí.
O lote foi registrado formalmente na antiga Coletoria (atual Secretaria de Fazenda), estabelecendo o que historiadores, antropólogos e o próprio Iphan apontam como um dos registros embrionários de identidade visual e comercialização regularizada da cajuína. Enquanto Maria tocava a produção da bebida, Clóvis era responsável por comercializar a cajuína fora das fronteiras piauienses e em grandes centros de diáspora nordestina, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Uma teia de saberes entre mulheres, incluindo Zoraide e Ana Vim-Vim (ex-escravizadas e trabalhadoras domésticas), que Maria repassou o conhecimento da feitura da cajuína a outras gerações de mulheres da cidade. A mobilização deste grupo feminino liderado pela produtora pavimentou caminhos para que Valença do Piauí se consolidasse popularmente como a região produtora de uma das melhores cajuínas do estado.
Ao longo do tempo, seu legado de tradição em um ofício majoritariamente feminino impulsionou a iniciativa das mulheres rurais do estado na produção da bebida, que atualmente representam 30% dos recursos de políticas públicas repassados pela Secretaria de Agricultura Familiar (SAF), do Governo do Piauí.
Maricas integrava a família Portela Veloso, considerada uma elite agrária da região com origem em Oeiras, a primeira capital do Piauí. Entre as figuras do clã, está o político Petrônio Portella Nunes (ex-ministro da Justiça no governo Figueiredo).

A rivalidade Piauí x Ceará
Em um contexto histórico de ampliação das pesquisas científicas no início do século 20, o farmacêutico, escritor e sanitarista Rodolpho Theóphilo (1853–1932) contribuiu socialmente para o combate às epidemias que assolavam o Nordeste. Praticamente sozinho e sem apoio do poder público, ele fabricava vacinas e percorria a cavalo a periferia de Fortaleza para conter os surtos de varíola.
Apesar da contribuição inegável na área da saúde, Theóphilo registrou o nome cajuína em 1908 e patenteou o que chamou de “sua invenção”. Segundo registro da Exposição Nacional de 1908, o próprio farmacêutico afirma que ele e sua equipe “a princípio denominaram Vinho Secco de Cajú, cuja denominação imprópria e por causa dos imitadores mudamos para Néctar de Cajú, nome, que ainda por causa de imitadores, fomos obrigados a mudar para Cajuína”.
Porém, a cajuína já era conhecida com esse nome e seu modo de preparo já ocupava os quintais do semiárido piauiense muito antes disso, inclusive na residência de Dona Laura Soares, mãe de Maricas, em 1879.
Até o momento, não existe uma prova documental da prática, mas em Valença do Piauí e Teresina sobrevive a força da história oral de descendentes de Dona Maricas e antigas vizinhas. Elas ressaltam o pioneirismo de Laura Soares na feitura da cajuína. A Theóphilo também são atribuídas técnicas de filtragem e pasteurização (o banho-maria, também chamado de appert) ao suco da fruta, alcançando sua clarificação. O profissional promoveu o produto em exposições nacionais, recebendo uma medalha de ouro na Exposição Nacional de 1908.
Apesar dos registros de Theóphilo, não é correto afirmar que a cajuína foi inventada por alguém. Ela é reflexo de um mosaico de influências do semiárido piauiense e cearense, com grande contribuição do clã Portela Velloso e das etnias indígenas Tremembé que tinham como hábito a feitura do cauim, bebida fermentada de caju que segue algumas etapas de preparo similares à cajuína.

Resgate histórico
O que se pode afirmar é que o legado de Dona Maricas estabeleceu um padrão de qualidade que reverbera até hoje nas exigências de rotulagem e denominação de origem, como o selo de Indicação Geográfica (IG) que blinda o produto piauiense no mercado internacional.
Ao formalizar a sua marca no início do século 20, ela sedimentou o caminho para que o Piauí, em seu estado líquido, ultrapassasse os quintais dos sítios e chácaras no semiárido piauiense e alcançasse o mundo. Sua neta, Dóris Veloso, faz questão de manter a feitura da cajuína viva, aos moldes do que sua avó fazia no antigo sítio Veneza, local que decidiu homenagear em sua marca de cajuína, na zona rural de Teresina.
O inquestionável apagamento histórico de Maria Portela Veloso mobilizou a campanha na plataforma de financiamento coletivo Cajuína: substantivo feminino, que pretende realizar a publicação de um livro e um documentário em homenagem à trajetória da pioneira que contribuiu para a identidade líquida nos lares piauienses.
*Sara Campos é jornalista, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora da Agência Cajuí.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.
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