O apagamento histórico de Maria Portela Veloso: pioneira na comercialização da cajuína

Por Sara Campos14/07/2026 às 20:260 visualizações
A neta Dóris Portela com foto de Maria Portela Veloso, pioneira da cajuína
A neta Dóris Portela com foto de Maria Portela Veloso, pioneira da cajuína
Foto: | / Brasil de Fato

Antes de se tornar patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e ser imortalizada pela música homônima de Caetano Veloso, a cajuína era uma bebida voltada aos quintais produtivos para aproveitamento do excedente dos cajus após uma boa safra em solo de famílias piauienses.

O que poucos sabem é que a transformação deste suco clarificado de caju, derivado da bebida indígena cauim, em um produto comercial com alcance nacional carrega o pioneirismo de uma mulher à frente de seu tempo. Na década de 1930, na histórica cidade de Valença do Piauí, no território do Vale do Sambito, a matriarca Maria Portela Veloso deu os primeiros passos para mudar o destino da bebida símbolo do estado nordestino.

Conhecida carinhosamente como “dona Maricas” pelos registros da família, ela foi a pioneira na rotulagem e comercialização da bebida. Seu marido, Clóvis Veloso, era caixeiro-viajante e foi em busca de uma gráfica, a gráfica Royal, no estado do Ceará, em Fortaleza, para rotular a primeira cajuína do Brasil, pois à época ainda não existia gráfica no estado do Piauí.

O lote foi registrado formalmente na antiga Coletoria (atual Secretaria de Fazenda), estabelecendo o que historiadores, antropólogos e o próprio Iphan apontam como um dos registros embrionários de identidade visual e comercialização regularizada da cajuína. Enquanto Maria tocava a produção da bebida, Clóvis era responsável por comercializar a cajuína fora das fronteiras piauienses e em grandes centros de diáspora nordestina, como São Paulo e Rio de Janeiro. 

Uma teia de saberes entre mulheres, incluindo Zoraide e Ana Vim-Vim (ex-escravizadas e trabalhadoras domésticas), que Maria repassou o conhecimento da feitura da cajuína a outras gerações de mulheres da cidade. A mobilização deste grupo feminino liderado pela produtora pavimentou caminhos para que Valença do Piauí se consolidasse popularmente como a região produtora de uma das melhores cajuínas do estado.

Ao longo do tempo, seu legado de tradição em um ofício majoritariamente feminino impulsionou a iniciativa das mulheres rurais do estado na produção da bebida, que atualmente representam 30% dos recursos de políticas públicas repassados pela Secretaria de Agricultura Familiar (SAF), do Governo do Piauí.

Maricas integrava a família Portela Veloso, considerada uma elite agrária da região com origem em Oeiras, a primeira capital do Piauí. Entre as figuras do clã, está o político Petrônio Portella Nunes (ex-ministro da Justiça no governo Figueiredo).

Bebida típica do Nordeste, a cajuína é feita do suco de caju natural |
Bebida típica do Nordeste, a cajuína é feita do suco de caju natural | — Isis Soares
Bebida típica do Nordeste, a cajuína é feita do suco de caju natural | Crédito: Isis Soares

A rivalidade Piauí x Ceará

Em um contexto histórico de ampliação das pesquisas científicas no início do século 20, o farmacêutico, escritor e sanitarista Rodolpho Theóphilo (1853–1932) contribuiu socialmente para o combate às epidemias que assolavam o Nordeste. Praticamente sozinho e sem apoio do poder público, ele fabricava vacinas e percorria a cavalo a periferia de Fortaleza para conter os surtos de varíola.

Apesar da contribuição inegável na área da saúde, Theóphilo registrou o nome cajuína em 1908 e patenteou o que chamou de “sua invenção”. Segundo registro da Exposição Nacional de 1908, o próprio farmacêutico afirma que ele e sua equipe “a princípio denominaram Vinho Secco de Cajú, cuja denominação imprópria e por causa dos imitadores mudamos para Néctar de Cajú, nome, que ainda por causa de imitadores, fomos obrigados a mudar para Cajuína”.   

Porém, a cajuína já era conhecida com esse nome e seu modo de preparo já ocupava os quintais do semiárido piauiense muito antes disso, inclusive na residência de Dona Laura Soares, mãe de Maricas, em 1879.

Até o momento, não existe uma prova documental da prática, mas em Valença do Piauí e Teresina sobrevive a força da história oral de descendentes de Dona Maricas e antigas vizinhas. Elas ressaltam o pioneirismo de Laura Soares na feitura da cajuína. A Theóphilo também são atribuídas técnicas de filtragem e pasteurização (o banho-maria, também chamado de appert) ao suco da fruta, alcançando sua clarificação. O profissional promoveu o produto em exposições nacionais, recebendo uma medalha de ouro na Exposição Nacional de 1908. 

Apesar dos registros de Theóphilo, não é correto afirmar que a cajuína foi inventada por alguém. Ela é reflexo de um mosaico de influências do semiárido piauiense e cearense, com grande contribuição do clã Portela Velloso e das etnias indígenas Tremembé que tinham como hábito a feitura do cauim, bebida fermentada de caju que segue algumas etapas de preparo similares à cajuína. 

Cajuína de Maria Portela Veloso era fabricada no antigo sítio Veneza, localizado na zona rural de Teresina
Cajuína de Maria Portela Veloso era fabricada no antigo sítio Veneza, localizado na zona rural de Teresina
Cajuína de Maria Portela Veloso era fabricada no antigo sítio Veneza, localizado na zona rural de Teresina

Resgate histórico

O que se pode afirmar é que o legado de Dona Maricas estabeleceu um padrão de qualidade que reverbera até hoje nas exigências de rotulagem e denominação de origem, como o selo de Indicação Geográfica (IG) que blinda o produto piauiense no mercado internacional.

Ao formalizar a sua marca no início do século 20, ela sedimentou o caminho para que o Piauí, em seu estado líquido, ultrapassasse os quintais dos sítios e chácaras no semiárido piauiense e alcançasse o mundo. Sua neta, Dóris Veloso, faz questão de manter a feitura da cajuína viva, aos moldes do que sua avó fazia no antigo sítio Veneza, local que decidiu homenagear em sua marca de cajuína, na zona rural de Teresina.

O inquestionável apagamento histórico de Maria Portela Veloso mobilizou a campanha na plataforma de financiamento coletivo Cajuína: substantivo feminino, que pretende realizar a publicação de um livro e um documentário em homenagem à trajetória da pioneira que contribuiu para a identidade líquida nos lares piauienses. 

*Sara Campos é jornalista, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora da Agência Cajuí.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.


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Fonte
Brasil de Fato
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