Análise: conflito entre Cabul e Islamabad tem raízes no colonialismo e não interessa à região

14/07/2026 às 22:580 visualizações
Sputnik Brasil
As tensões na Linha Durand aumentaram desde que o Talibã retornou ao poder, em 2021. De lá pra cá, pelo menos desde outubro do ano passado, ataques têm sido realizados, com períodos intermitentes de cessar-fogo.
No fim de junho de 2026, o Paquistão lançou um ataque aéreo contra militantes no leste do Afeganistão que matou ao menos 25 pessoas. A ofensiva marcou mais um capítulo dos atritos que têm raízes no colonialismo.
Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Mariana Araújo, mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que a atual configuração da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão é resultado do processo de colonização britânica na região.
Como ocorreu em diversos contextos coloniais, a delimitação territorial foi definida prioritariamente pelos interesses da potência colonial, sem considerar plenamente as características étnicas, sociais e tribais locais. Esse desenho deixou comunidades historicamente conectadas em lados opostos da fronteira, criando um ambiente propício a disputas e instabilidade. Conforme ressalta a pesquisadora, esse contexto "tem um papel muito importante nessa tensão".
Nesse caldeirão histórico, soma-se ainda a acusação do governo paquistanês sobre Cabul, de que não estaria fazendo o suficiente para impedir que o grupo Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), conhecido como Talibã paquistanês, atue dentro das fronteiras afegãs.
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No cenário atual, como explica João Nicolini, doutor em ciência política e professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a evolução de um conflito tende a salientar a força do Paquistão enquanto Exército e Estado.
"Existe uma assimetria militar muito grande. O Paquistão é uma potência nuclear, [...] tem um exército que já travou guerras, tem preparação para o conflito e é muito mais estruturado que o Afeganistão", afirma.
Por outro lado, o prolongamento das tensões não tende a ser vantajoso para Islamabad, que, segundo o analista, tenta reconstruir suas relações com o mundo ocidental e quer ampliar seu espaço diplomático como mediador de crises, como tem tentado no conflito entre Irã e Estados Unidos.
Além disso, evidentemente, "qualquer escalada vai ser ruim para os países em termos de comércio, em termos de refugiados, em termos diplomáticos", complementa.

Rússia pode mediar conflitos na região, mas China é maior interessada

Enquanto os EUA focam sua atenção no conflito com o Irã ou com as eleições de meio de mandato e outros países do Norte Global estão voltados aos seus "interesses econômicos", conforme esclarece Nicolini, os atritos no Sul da Ásia ficam no crivo de interesse de Rússia e, principalmente, China.
Araújo destaca que Moscou e Pequim têm muitos investimentos em cooperação na região e "vão tentar, de toda forma, evitar que isso se escale para um conflito mais sério".
Sobre a mediação do conflito entre Cabul e Islamabad, Nicolini observa as boas relações que o o governo russo tem construído com o Paquistão, tendo em vista a ampliação dos seus fluxos comerciais com os paquistaneses. Além disso, Moscou também tem um canal formal e boa relação com o governo do Afeganistão. Apesar disso, para o analista, a China é quem deve ser o ator principal na mediação, dado o seu maior interesse naquela zona.
"Os chineses podem oferecer dinheiro, eles têm canal de investimentos, têm interesse nos corredores, têm o comércio. Então ela [a China] é quem tem mais a dizer ali", pondera. Araújo completa, ainda, mencionando um dos corredores importantes da iniciativa Rota da Seda chinesa, a rota econômica China-Paquistão.
Ao fim e ao cabo, os analistas reiteram que a instabilidade afeta bastante o desenvolvimento regional e que uma escalada do conflito não interessa a nenhum dos atores da região.
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