Um comunicado publicado em julho do ano passado mencionava ações anticorrupção, direitos de propriedade intelectual, obstáculos no acesso ao mercado de etanol, práticas de desmatamento ilegal e atitudes discriminatórias contra cidadãos ou companhias dos EUA como argumentos para as investigações contra o Brasil. O mesmo ato alegou perseguição política contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. O relatório da USTR, após um ano de investigação, traz pontos que corroboram os pressupostos trazidos no primeiro momento.
Nesta quarta-feira (15), os Estados Unidos vão anunciar se aplicam ou não as tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, conforme sugerido pelo escritório comercial. Caso a sanção seja decretada, o Brasil pode se tornar um dos países mais tarifados por Washington no mundo.
1 - Sanção por Jair Bolsonaro
A manifestação em decorrência da condenação do ex-presidente, exposta no documento que notificava o início das investigações, já deu, logo no começo, uma conotação política à medida.
Além disso, Brasília tem argumentado que as motivações para a sanção não são econômicas, haja vista que a balança comercial entre os países é positiva para os norte-americanos.
2 - Sistemas de pagamento: Pix e cartões de crédito
O governo dos Estados Unidos questiona aspectos regulatórios envolvendo serviços digitais e pagamentos eletrônicos brasileiros, com referências ao Pix. Discussões sobre monitoramento externo e possíveis restrições ao sistema chegaram a ocorrer. O fio argumentativo passa também por supostas perdas que grandes bandeiras de cartão americanas, como Visa e Mastercard, estariam sofrendo no Brasil.
A pauta se tornou o cerne das disputas pré-eleitorais no Brasil. O meio de pagamentos brasileiro é constantemente defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como símbolo da soberania nacional; e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta desvincular de si a pecha de responsável pelo tarifaço — ele já chegou a usar durante eventos uma camiseta com os dizeres "O Pix é do Bolsonaro". Não há dúvidas, o sistema criado pelo Banco Central como alvo das tarifas tem contornos políticos.
3 - Combate à corrupção
O documento norte-americano fala também de uma suposta falha brasileira no combate à corrupção. O ponto levantado é que o enfraquecimento da aplicação de normas anticorrupção reduz a previsibilidade dos investimentos de empresas americanas. O texto cita, entre outros exemplos, a anulação de processos da operação Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2023.
Em parte, o recuo da Lava Jato se deveu a uma série de reportagens que revelou mensagens trocadas entre juízes e procuradores, que discutiam estratégias, sugeriam diligências e comentavam a condução de investigações, levantando questionamentos sobre a imparcialidade judicial. Além disso, condenações sem acusações e interferências externas, inclusive dos Estados Unidos, foram reveladas pela imprensa.
O apontamento para esse alvo específico, o combate à corrupção, evidencia preocupações mais políticas que puramente econômicas dos Estados Unidos, ignorando as leis internas e a soberania brasileira.
4 - Acesso ao mercado de etanol
Os Estados Unidos argumentam que barreiras impostas aqui dificultam o acesso do etanol americano ao mercado brasileiro. Pelo menos desde 2023, Brasília não adota mais um tratamento tarifário recíproco e cobra uma tarifa de 18% sobre as importações de etanol estadunidenses.
O governo brasileiro entende que a medida é soberana e resguarda a competitividade do etanol brasileiro. Após a decisão da imposição de tarifas dos EUA, veiculada no dia 2 de junho, o ministro do Desenvolvimento, Industria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o tema não estava incluso nas conversas sobre o tarifaço.
"A produção de etanol e, eventualmente, a abertura do mercado para o etanol norte-americano colocaria em risco, sobretudo, a produção do etanol no Nordeste do país. Em relação ao açúcar, ele sofre uma sobretaxa nos Estados Unidos de quase 100%. Então nós não podemos dissociar uma cadeia com uma discussão da outra, porque todos são ligados à mesma cadeia produtiva", argumentou o ministro.
5 - Desmatamento
A preocupação com o meio ambiente também foi listada pelos Estados Unidos como justificativa para taxar os produtos brasileiros. De acordo com Washington, o Brasil precisa cumprir regras ambientais mais rígidas, e a produção em áreas desmatadas ilegalmente cria vantagens competitivas consideradas desleais.
Os números que o relatório do USTR utiliza, no entanto, citam o pico de desmatamento em 2021, durante a presidência de Jair Bolsonaro. Além disso, o texto reconhece o empenho do governo Lula para mitigar a destruição das florestas e argumenta que mudanças políticas poderiam ajudar.
O presidente brasileiro, por sua vez, argumentou no mês passado que os Estados Unidos "não sabem o trabalho que nós fazemos para fazer com que o desmatamento chegue a zero até 2030". O apontamento da questão como um ganho competitivo do Brasil no comércio acaba também ressoando conotações políticas.


