A Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) debateram o uso da energia nuclear no Brasil durante a Agenda Nuclear para um Brasil Competitivo, realizada nesta terça-feira (14), no Rio de Janeiro.
Na abertura, o presidente da ABDAN, Celso Cunha, defendeu a atualização da legislação nuclear do país como condição para ampliar investimentos e fortalecer a cadeia produtiva nacional.
Segundo o empresário, a regulação atual ainda reflete os temores desencadeados pelos acidentes do final do século passado, como Chernobyl, em 1986, e de Goiânia, em 1987, o que dificulta a adoção de novas tecnologias, como os pequenos reatores modulares (SMRs), considerados estratégicos para a expansão da geração nuclear.
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Para isso, a entidade está preparando um estudo com propostas para modernizar a legislação, que será apresentado ao Congresso Nacional. Além disso, Cunha defendeu o fortalecimento da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e pediu maior previsibilidade nos processos de licenciamento para dar segurança aos investidores e acelerar novos projetos.
"O marco regulatório precisa dar dinâmica ao setor. Sem isso, não vamos ter uma cadeia produtiva nacional, muito menos quando falamos dos pequenos reatores modulares."
A vice-presidente da ABDAN, Sibila Grallert, apontou o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), em construção em Iperó (SP), como alternativa para ampliar a autonomia nacional na produção desses insumos. Embora o projeto tenha sido aprovado em 2008, ela afirmou que a obra sofreu sucessivas interrupções por falta de investimentos e de continuidade administrativa.
Grallert também alertou para a forte dependência do país da importação de radioisótopos usados no diagnóstico e tratamento de doenças, principalmente o câncer.
O Brasil conta com mais de 400 serviços de medicina nuclear entre clínicas, hospitais e centros de pesquisa, mas importa praticamente a totalidade dos radioisótopos utilizados, sobretudo da Holanda, da Rússia e de Israel. Ela explicou que esses materiais possuem meia-vida curta, perdendo parte de sua radioatividade durante o transporte internacional, o que encarece os custos e reduz sua disponibilidade para os pacientes.
"Parte dessas famílias, o primeiro passo depois do diagnóstico é um exame que poucos brasileiros sabem nomear, mas que muitos já fizeram, como a cintilografia, o PET-CT ou uma dose de iodo radioativo para tratar a tireoide. Isso é medicina nuclear."
Para ela, o avanço do setor depende de investimentos permanentes e de uma política de Estado que garanta previsibilidade.
"Essa é a fila que importa, não a fila de projetos aguardando aprovação orçamentária, mas a fila de pacientes que dependem desses projetos para ter o seu diagnóstico e o seu tratamento disponíveis no momento certo."
Além dos representantes da ABDAN, congressistas participaram da Agenda Nuclear destacando o potencial desenvolvedor da energia nuclear no Brasil e, principalmente, para o estado do Rio de Janeiro. Foi o caso dos deputados federais Reimont Otoni (PT-RJ) e Daniel Soranz (PSD-RJ), e Julio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares.
Em suas falas, eles defenderam o fortalecimento do setor como instrumento para impulsionar a economia, gerar empregos e ampliar a soberania energética do país. Segundo Lopes, a expansão da geração nuclear permitirá que o Rio de Janeiro se torne exportador líquido de energia, ampliando sua competitividade em um cenário de crescimento industrial e atração de novos investimentos.
Ele também relacionou esse processo à reforma tributária, cuja alteração nas tributações sobre o consumo tornará o estado mais competitivo para receber empresas e novos empreendimentos.
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Outra oportunidade para o setor é uma parceria com a Petrobras, que passou a demonstrar interesse em discutir o uso de energia nuclear em suas refinarias e plataformas de petróleo.
Além disso, Lopes dedicou parte de sua fala ao avanço dos data centers, setor que classificou como estratégico para o desenvolvimento econômico brasileiro. De acordo com ele, mesmo que o país dobre o número dessas instalações ― atualmente em cerca de 200 ―, até 2035, ainda perderá participação no mercado global diante da velocidade de expansão observada em países como China e Estados Unidos.
Para manter sua posição atual, o Brasil precisará elevar o número de data centers para aproximadamente 1 mil unidades.
"Se a gente fizer o nosso dever de casa, que é regulamentar essa lei e implementar os data centers, nós vamos obrigatoriamente ter muita energia firme disponível. E energia firme é a energia nuclear."


