O mito da ‘Argentina branca’: como o apagamento da história negra e indígena molda o racismo no país

Por André Lucena15/07/2026 às 09:000 visualizações
Torcedores da Argentina em partida válida pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo 2026
Torcedores da Argentina em partida válida pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo 2026
Brasil de Fato

Torcedores argentinos hostilizaram com insultos e gestos racistas o streamer estadunidense IShowSpeed durante a Copa do Mundo 2026. Os ataques, ocorridos no último dia 3 de julho, fizeram a FIFA abrir uma investigação. 

No futebol, casos de racismo envolvendo torcidas argentinas costumam vir à tona principalmente durante as partidas da Copa Libertadores, mas não se limitam a elas. Em 2024, jogadores da própria seleção argentina entoaram um canto contra atletas franceses de ascendência africana, em um gesto interpretado como racista em países como o Brasil. 

Para além das quatro linhas, um caso emblemático marcou o início de 2026. Em Ipanema, no Rio de Janeiro, a turista argentina Agostina Páez foi presa por injúria racial contra um funcionário de um bar carioca. No país vizinho, o episódio foi explorado por figuras de peso da base política do governo Javier Milei, como a senadora Patricia Bullrich.

Isoladamente, os episódios podem construir, no senso comum, a sensação de que a sociedade argentina, em geral, é marcada pela prática do racismo.

Por lá, a construção histórica do tema tem particularidades, quando comparada ao caso brasileiro. “Consolidou-se a ideia de uma Argentina branca, não baseada na mestiçagem, mas na narrativa da imigração vinda dos navios, que é um dos mitos fundadores do país”, afirma o advogado Alejandro Joma, fundador do coletivo Identidad Marrón, em conversa com o Brasil de Fato

Para Joma, de fato, a versão argentina passa pelo apagamento da escravidão. “Na maioria dos países latino-americanos de língua espanhola, o mito nacional está mais relacionado à mestiçagem”, sintetiza Joma.

Mas esse fenômeno, por si só, não indica que a Argentina, como um todo, seja mais ou menos racista que outros países da região, como o Brasil.

Raízes históricas

Ao longo do processo de colonização no Cone Sul, africanos chegaram à região pelos portos de Buenos Aires e Montevidéu. Começaram, pouco a pouco, a trabalhar em serviços domésticos, no artesanato, nos campos e nas minas. De lá para cá, a história oficial promoveu um apagamento historiográfico desta população. 

Um dos casos mais emblemáticos é o de María Remedios del Valle. Mulher negra que acompanhou Manuel Belgrano – um dos principais nomes dos processos de independência em países como Argentina e Paraguai – em várias das batalhas que marcaram a libertação do domínio espanhol, María del Valle chegou a ser proclamada “mãe da pátria” na Argentina. Mas, depois, acabou sendo eliminada dos livros de História.

Somente em 2024 a imagem de Del Valle passou a circular nas cédulas de 10 mil pesos na Argentina, ao lado de Belgrano. O processo teve início durante os governos da ex-presidenta Cristina Kirchner.

Para a jornalista Erika Gimenez, coordenadora da ARG Medios, a força do mito na Argentina afeta até a relação da maior parte da sociedade com a própria genealogia. “Nenhum de nós é plenamente, cem por cento, europeu”, resume Gimenez.

Para Joma, o racismo na Argentina tem uma peculiaridade: o foco principal nos povos originários. Essa ideia tem a ver com o próprio uso da palavra “negro” no país vizinho. “Quando alguém diz ‘negro’ na Argentina, a maioria dos argentinos não imagina uma pessoa afrodescendente. Imagina uma pessoa de ascendência indígena usando roupas urbanas”, explica.

O exemplo dado por Joma está na própria seleção argentina que disputa o mundial de 2026. Ele formula a seguinte imagem: “Perguntado se há negros no elenco, alguém do Brasil ou dos Estados Unidos tende a dizer que não; um argentino, que sim.”

Questão de classe, dimensão política

O mito cumpre uma função de poder. Segundo Gimenez, as famílias mais tradicionais da Argentina são as mais diretamente responsáveis pela sustentação do mito da branquitude. “O mito da Argentina branca interessa aos grupos poderosos, porque eles não querem que os pobres (os marrons ou os negros) ocupem espaços de poder”, explica. Postura semelhante se passa na sociedade brasileira.  

Ao chegar ao poder, Milei tratou de pôr fim ao Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), criado em 1996 pela Lei de Atos Discriminatórios. O então porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni, justificou a extinção pela necessidade de enxugamento do Estado, sustentando que era necessário desmantelar institutos que não serviam “absolutamente para nada”. 

Apesar do evidente desmonte do órgão, Joma vai além da mera simbologia e propõe uma problematização sobre o órgão extinto. “Se eu dissesse que o fechamento do Inadi representou um ataque direto ao combate ao racismo, estaria simplificando demais”, pondera.

Ele recorda a denúncia feita contra a ex-diretora-executiva do órgão, Victoria Donda, em 2021, que foi acusada por Arminda Banda Oxa, então trabalhadora doméstica de sua casa, de tê-la mantido em situação de trabalho irregular por anos e de oferecer um cargo no Inadi. Donda negou as irregularidades, dizendo que havia proposto o cargo como forma de ajuda, em razão da relação de proximidade com Oxa, além de problemas de saúde da ex-empregada. Em 2022, a denúncia foi encerrada com um acordo judicial. 

Para Joma, a verdadeira perda do fechamento do Inadi foi de outra ordem: “Eu diria que foi um ataque indireto às comunidades marginalizadas, que, agora, deixaram de contar com um órgão especializado”. 

No futebol, embora a bola esteja no centro do palco, as tensões sociais relacionadas ao racismo, não raro, são expostas. “O futebol acaba revelando aspectos da nossa sociedade que não gostamos, mas que existem e precisam continuar sendo debatidos”, reflete Gimenez. 

Além das críticas ao próprio racismo, Jome pondera criticamente sobre o próprio debate. O problema, segundo o especialista, está no apagamento. Por conta disso, a Identidad Marrón conseguiu obter a primeira sentença penal argentina a reconhecer violência racial praticada por policiais. 

Ele faz uma contraposição: no caso brasileiro, a reflexão sobre o racismo deve passar pelo peso da prática estrutural pelo próprio Estado brasileiro. Joma lembra a operação policial promovida pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, em outubro de 2025, que levou à morte de 128 pessoas no Complexo da Penha. A maioria era negra.

Fonte
Brasil de Fato
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