O triângulo de ferro da mediocridade: fé, mercado e a decadência do futebol brasileiro

Por Cristóvão Feil15/07/2026 às 15:280 visualizações
Seleção Brasileira posa antes da partida contra o Marrocos pela Copa do Mundo de 2026
Seleção Brasileira posa antes da partida contra o Marrocos pela Copa do Mundo de 2026
Brasil de Fato

“O jogador de futebol tem que ir na bola como se fosse num prato de comida.”
(Frase clássica de Neném Prancha, nome pelo qual ficou conhecido Antonio Franco de Oliveira (1906–1976), o “filósofo do futebol” das areias de Copacabana, onde descobriu diversos craques.)

A polêmica oração coletiva no gramado do Estádio Ellis Park (foto abaixo), em Johannesburgo, ocorreu logo após o Brasil conquistar o título da Copa das Confederações de 2009 — uma espécie de prévia da Copa do Mundo de 2010 —, ao vencer os EUA de virada por 3 a 2.

Liderados pelo capitão Lúcio e pelo meia Kaká — expoentes do movimento Atletas de Cristo —, os jogadores formaram um círculo no centro do campo, ajoelharam-se e rezaram de mãos dadas, muitos deles vestindo camisetas com mensagens religiosas como “I belong to Jesus” (Eu pertenço a Jesus).

Esse episódio gerou um enorme debate público e expôs fissuras institucionais, políticas e filosóficas que ajudam a entender, inclusive, os debates sociológicos sobre a Seleção até os dias de hoje.

Jornalistas e críticos esportivos argumentaram que a Seleção Brasileira, como maior símbolo cultural da nação, representa um povo plural, composto por pessoas de múltiplas fés e por não crentes.

A institucionalização de uma “reza oficial”, patrocinada pela comissão técnica de Dunga e Jorginho, evangélicos confessos, foi vista como um constrangimento para atletas de outras religiões e uma imposição cultural.

Apontou-se também que o ambiente interno havia virado um “seminário”, o que mais tarde foi usado pela imprensa para explicar o fracasso tático e psicológico na Copa de 2010.

Os episódios religiosos da África do Sul foram a matriz germinal de sucessivos fracassos do futebol brasileiro. Um marco regressivo que comentaremos a seguir.

Raphinha atualiza Johannesburgo

Antes do início da Copa da Fifa de 2026, assisti a um vídeo revelador do jogador Raphinha. O boleiro se mostrava muito contrariado com a convocação para integrar a seleção que disputaria o Mundial. Alegava que “não foi consultado para formar a seleção” e que estava “em férias com a família e teria que frustrar a mulher e seus filhos”.

Naquele exato momento, fiquei convencido de que o Brasil seria derrotado na Copa. Comecei a cogitar que tal contrariedade já tivesse contagiado inúmeros outros convocados pelo treinador italiano Ancelotti. O resultado negativo que tivemos, pois, parece confirmar as minhas piores suspeitas.

Cabe-nos agora examinar sociologicamente os vários fenômenos sociais que resultaram neste jejum de títulos mundiais do futebol brasileiro, um longo hiato de 24 anos, já que o último torneio vitorioso ocorreu em 2002, na Coreia do Sul e no Japão.

O triângulo de ferro da mediocridade

Quero levantar três hipóteses, sempre provisórias, que podem explicar — ainda que parcialmente — a decadência do nosso velho esporte bretão-brasuca.

  1. O fenômeno pseudorreligioso da chamada Teologia da Prosperidade, que assola a seleção há muitos anos: a superstição que oferece ao jogador uma justificativa divina para o individualismo.
  2. A globalização do mercado, que exige que o atleta se comporte como uma marca pessoal e isolada.
  3. O “branding” publicitário, que exige um atleta pasteurizado, midiático e produtor de clipes, não de jogadas nem de gols.

Ressalte-se que o “branding” encerra uma intenção complexa que pode ser definida pela tríade de Aristóteles — vejam só a ousadia da ambição comercial das marcas. Exemplo: a Nike atrai o consumidor pelo Pathos, a inspiração de ser um vencedor; justifica a compra pelo Logos, a tecnologia do amortecimento e o design; e mantém a lealdade a longo prazo pelo Ethos, a reputação de ser a marca dos maiores atletas da história.

Este triângulo — evangelismo, globalização e branding publicitário — aprisiona e desagrega o futebol brasileiro.

O jogador já não é um compositor que orquestra uma sinfonia com dez outros músicos. Ele é um influenciador que precisa gerar engajamento para o patrocinador, enquanto sussurra orações e espeta o céu com o indicador para garantir que o “contrato” com Deus seja renovado.

O resultado em campo é inevitável: times sem alma, sem encanto, que jogam com medo de errar — pois o erro no pós-jogo viraliza e desvaloriza a marca do atleta — e nunca conseguem reproduzir aquele espasmo coletivo que era a seleção de 1970 ou de 2002.

O futebol de excelência morreu sufocado pelos novos negócios do espetáculo. A bola, antes uma entidade viva que dançava no pé do jogador, hoje é apenas um acessório de merchandising entre os três intervalos comerciais — dois para hidratação, mais o tradicional intervalo após os primeiros 45 minutos, todos com anúncios dos múltiplos patrocinadores.

A sociedade do espetáculo exige faturamento frenético e constante.

Enquanto o boleiro estiver mais preocupado em aparecer na gôndola do supermercado, na embalagem do cereal ou do xampu, do que em aparecer no espaço vazio para receber o passe do colega, o Brasil continuará sendo a “pátria de chuteiras” que perdeu o ritmo do samba.

O fenômeno evangélico intoxicou o futebol

Outro dia, li na mídia — já estupefato — que, dos 26 atletas convocados pelo treinador italiano, apenas quatro não são crentes das igrejas evangélicas.

Vejam que tudo confirma a reza coletiva na África do Sul.

O mineiro Danilo, do Flamengo, se diz não religioso. Aliás, é o benemerente de causas sociais nas periferias do Rio. O gaúcho Raphinha se diz católico. Outro católico é o zagueiro Marquinhos, do Paris Saint-Germain. Já Casemiro afirma apenas ser cristão, sem especificar a denominação religiosa.

Os demais boleiros — incluindo o “menino” Neymar — são evangélicos convictos.

Nesta altura, o prezado leitor irá exclamar, aborrecido, mas coberto de todas as razões: “Mas que influência têm os pastores evangélicos no futebol brasileiro?”

O movimento evangélico tem, sim, muita influência não somente sobre os boleiros brasileiros, mas também sobre diversos segmentos da nossa vida social. Opera na dimensão conservadora de forma decisiva e politizada. O neoliberalismo e as correntes de extrema direita são beneficiários diretos da atuação da grande maioria dos pastores de almas.

Sabemos que o fenômeno religioso é — por definição sociológica, tanto em Weber como em Durkheim — o principal laboratório de produção de ethoi, plural de ethos, em uma sociedade.

Ele não apenas reflete valores, mas os sacramentaliza, ou seja, confere-lhes uma sanção transcendental, tornando-os incontestáveis aos olhos do crente.

No caso brasileiro, não somente no futebol, mas igualmente na política e nas relações sociais, estamos testemunhando não um simples abandono da ética cristã romana, mas uma substituição ontológica dos próprios conceitos de bem e de salvação.

O ethos da cristandade romana

O catolicismo cristão foi civilizatório. O catolicismo moldou o Brasil até meados do século 20 — e ainda resiste nas periferias e nas devoções populares. Era pautado por uma ética comunitária, sacrificial e escatológica.

Havia um senso comunitário nas relações sociais. A salvação era mediada pela Igreja e pela comunidade de fiéis. A caridade era um dever de quem tinha para com quem não tinha.

O sofrimento era visto como prova de fé ou expiação, a “cruz que se carrega”. A pobreza, embora não desejada, era moralmente neutra ou até virtuosa, pois aproximava o fiel da pobreza material de Cristo.

O grande prêmio estava na vida após a morte, no plano escatológico. O céu era a recompensa final; a vida terrena era apenas uma passagem de provação. Isso gerava um ethos de paciência estrutural.

O pobre aceitava a própria condição porque o Reino de Deus não era deste mundo.

O evangelismo de resultados

Há uma inversão neopentecostal-calvinista. O resultado é o seguinte: nada de vida após a morte. Tudo se opera como em uma inversão de sinais. Há uma ruptura violenta com a lógica católica romana.

A pobreza deixa de ser neutra e passa a ser demoníaca. Se você é pobre, é porque tem falta de fé ou está sob maldição hereditária. Você está permitindo que o demônio guie a sua vida.

O sofrimento perde o valor redentor e vira sinônimo de derrota espiritual. O crente não deve aceitar a cruz; deve determinar a vitória pela palavra — o famoso “profetizar”, como dizem os pregadores de rua.

O tempo se contrai: a salvação e a recompensa já não estão na vida após a morte, mas no agora, imediatamente, na forma de carro zero, relógio de ouro, conta bancária recheada e curas instantâneas.

Aqui, o ethos cristão romano, que bebia na filosofia grega da virtude como fim em si mesma, é trocado pelo ethos do contrato de risco: “Dou meu dízimo e minha obediência; Deus me dá a multiplicação financeira”.

A financeirização da fé

Assistimos ao abandono da ética em favor da “técnica” espiritual.

Na ética católico-romana, havia os conceitos de bem comum e de pecado estrutural. Havia uma preocupação com a justiça social — vide a Teologia da Libertação, ainda que reprimida pelo Vaticano nos anos 1980, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada pelo cardeal Ratzinger.

No novo ethos, a moral é subjetivada e pragmática. O que importa não é se a ação é justa ou injusta coletivamente, mas se funciona para o indivíduo.

A pergunta do crente deixa de ser “O que é certo fazer?” e passa a ser “O que vou declarar para que isso se realize?”.

Isso gera um fenômeno perverso: a despolitização da fé.

O evangélico da prosperidade não se mobiliza por direitos universais — saúde, educação e habitação — porque esses são “problemas do mundo” e não dizem respeito a Deus nem aos interesses de prosperidade material do indivíduo.

Ele se mobiliza por privilégios para o grupo religioso — como a censura de outras religiões ou a isenção fiscal das igrejas — e pela garantia de que o negócio pessoal prospere a qualquer custo, mesmo sob corrupção. O ethos social se fragmenta em milhares de devoções, em que cada um aposta em um Deus particular e em uma agenda particular.

A consolidação de um novo “homem brasileiro”

O que está em jogo é a produção de um novo sujeito moral. O catolicismo romano formava o sujeito de deveres: devia à família, à Igreja, ao patrão, ao santo.

O neopentecostalismo forma o sujeito de direitos celestiais: ele tem o direito de ser rico, saudável e feliz, e Deus é obrigado a cumprir isso.

Esse ethos se encaixa perfeitamente no neoliberalismo.

Enquanto o capitalismo precisa de consumidores ávidos e de trabalhadores que se vejam como “empreendedores de si mesmos”, a teologia da prosperidade fornece o martírio psicológico: o fracasso não é culpa do sistema, é culpa da sua fé. Logo, o trabalhador explora a si mesmo ainda mais, na esperança de agradar a Deus e finalmente quebrar a maldição.

Na ética romana, a culpa travava os excessos: “Não cobiçarás”. Na nova ética, a culpa desaparece, mas nasce a ansiedade de performance. Você não peca por luxúria ou gula; você “peca” por não crer o suficiente. Talvez esteja sonegando o dízimo ao pastor.

O inferno não é mais um lugar de fogo eterno; o inferno é não ter dinheiro para pagar o automóvel do ano.

O ethos como espelho do capitalismo tardio

O ethos aqui tratado se refere à identidade coletiva, ao “espírito” ou à mentalidade que une os membros de uma comunidade ou nação.

Como vimos, o fenômeno religioso consolida um ethos que, no Brasil, abandonou a ética cristã romana.

Mas esse abandono não ocorreu por acaso. Ocorreu porque a ética católica era um freio ao ímpeto predatório do capitalismo, enquanto a nova ética evangélica é o motor de aceleração e alta velocidade.

O que vemos no futebol, na política e nas relações de trabalho é o mesmo fenômeno: a dissolução do “nós” em favor do “eu diante do espelho”.

A seleção brasileira não joga mal porque os jogadores são evangélicos. Joga mal porque a sociedade brasileira como um todo aderiu a um ethos em que o resultado imediato e individual é o único critério da verdade.

O campo de futebol é apenas o estádio onde esse novo deus — o deus do desempenho — exige o sacrifício diário. E, agora, parafraseando Max Weber, o que começa como uma ética religiosa termina como uma jaula de aço do consumismo.

A tese central de Weber é que a ética ascética do trabalho no protestantismo — especialmente no calvinismo, hoje decalcado pelos evangélicos — foi fundamental para o surgimento do “espírito do capitalismo”. No entanto, uma vez estabelecido, esse sistema se libertou das raízes religiosas.

O que começou como uma busca pela certeza da salvação por meio do trabalho árduo e da acumulação terminou como uma obrigação impessoal, uma “jaula de aço” — em alemão, stahlhartes Gehäuse — da racionalidade econômica e da burocracia, despida de qualquer sentido religioso original.

Sem futebol de excelência, perdemos o soft power

O futebol é, talvez, a forma mais pura e universal de soft power que existe. Como definiu Joseph Nye, criador do conceito de “poder brando”, soft power é a capacidade de atrair e cooptar em vez de coagir.

O futebol brasileiro, durante décadas, foi uma embaixada sem passaporte: ensinou o mundo a gingar, a sorrir e a enxergar o Brasil como a “pátria do encontro”, em que o talento florescia da necessidade e a alegria era uma arma geopolítica.

Substituímos a estética do futebol pela eficiência.

O soft power brasileiro sempre vendeu o imaginário da criatividade selvagem. O drible de Pelé, a pedalada de Ronaldinho e a visão de jogo de Zico não eram apenas futebol; eram uma propaganda visual do Brasil como um país que resolve problemas complexos com soluções inesperadas e graciosas.

Hoje, o Brasil exporta para a Europa um jogador pasteurizado: físico, tático, disciplinado, mas desprovido daquele “tempo” diferencial.

O mundo não compra mais a brasilidade nos campos; compra um atleta genérico que fala inglês, corre 12 km por jogo e obedece ao técnico. O soft power morre quando o produto se torna uma “commodity”. O Brasil deixa de ser a oficina da arte e vira uma fábrica de operários da bola — obedientes a uma ordem pasteurizada, liofilizados e desidratados da cultura brasileira. Uma peça comercial de prateleira.

Soft power exige uma história que o outro queira comprar ou incorporar.

A história que o Brasil vendia era a da mestiçagem. Era uma poderosa contranarrativa ao racismo e ao elitismo colonialista europeu.

Com o avanço do individualismo evangélico e do branding pessoal, o jogador brasileiro não representa mais essa nação mestiça. Ele representa a si mesmo, sua igreja e seu patrocinador.

Quando um Neymar chora e diz que “Deus lhe deu tudo”, ele não fala pelo Brasil; fala pela própria biografia.

A seleção deixa de ser um símbolo nacional para ser um aglomerado de marcas pessoais. Para o estrangeiro, a atração se esvai: não há mais uma “alma brasileira” para admirar, apenas jogadores de elite fazendo o trabalho.

O Brasil perde sua assinatura cultural

O mundo não tem mais apenas um país do futebol. A Argentina, com a garra messiânica e o futebol de raça, vende uma narrativa de superação épica. A França, com diversidade étnica e trajetória multicampeã, vende a narrativa do moderno. O Brasil, preso ao passado e sem projeto de futuro, fica com a narrativa da nostalgia embolorada: “Éramos reis, mas já não somos”.

Soft power é disputa de atenção. No momento em que o Brasil entra em campo, o que o mundo vê é um time que sofre, que se ajoelha e que joga com medo. Isso não atrai, afasta. O rebaixamento consiste em passar da condição de modelo a ser imitado à de adolescente em crise que precisa de ajuda.

O Brasil não está rebaixando o soft power porque perdeu jogos, mas porque perdeu a capacidade de projetar um ideal de coletividade feliz. O futebol sempre foi o “cartão de visitas” do país.

Se, nesse cartão, o que hoje se lê é “individualismo, prosperidade material e ansiedade”, o mundo olha e vê um país que se tornou cinzento, exatamente como os outros.

O soft power brasileiro foi vítima do mesmo triângulo de ferro que apontamos: a teologia do resultado imediato minou a alma coletiva; o branding transformou o jogador em produto, não em símbolo; e o capitalismo tardio transformou o estádio em vitrine comercial, com prateleiras que expõem jogadores transformados em commodities.

O resultado é um país que, no gramado, deixou de encantar. E, sem encantamento, não há atração. Sem atração, soft power é apenas uma palavra vazia nos discursos da misteriosa CBF — a mesma que emudeceu covardemente depois da derrota excludente que tivemos.

O Brasil ainda tem cinco estrelas no peito, mas a luminosa constelação que brilhava no imaginário global está se apagando.

* Cristóvão Feil é sociólogo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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