“O jogador de futebol tem que ir na bola como se fosse num prato de comida.”
(Frase clássica de Neném Prancha, nome pelo qual ficou conhecido Antonio Franco de Oliveira (1906–1976), o “filósofo do futebol” das areias de Copacabana, onde descobriu diversos craques.)
A polêmica oração coletiva no gramado do Estádio Ellis Park (foto abaixo), em Johannesburgo, ocorreu logo após o Brasil conquistar o título da Copa das Confederações de 2009 — uma espécie de prévia da Copa do Mundo de 2010 —, ao vencer os EUA de virada por 3 a 2.
Liderados pelo capitão Lúcio e pelo meia Kaká — expoentes do movimento Atletas de Cristo —, os jogadores formaram um círculo no centro do campo, ajoelharam-se e rezaram de mãos dadas, muitos deles vestindo camisetas com mensagens religiosas como “I belong to Jesus” (Eu pertenço a Jesus).
Esse episódio gerou um enorme debate público e expôs fissuras institucionais, políticas e filosóficas que ajudam a entender, inclusive, os debates sociológicos sobre a Seleção até os dias de hoje.
Jornalistas e críticos esportivos argumentaram que a Seleção Brasileira, como maior símbolo cultural da nação, representa um povo plural, composto por pessoas de múltiplas fés e por não crentes.
A institucionalização de uma “reza oficial”, patrocinada pela comissão técnica de Dunga e Jorginho, evangélicos confessos, foi vista como um constrangimento para atletas de outras religiões e uma imposição cultural.
Apontou-se também que o ambiente interno havia virado um “seminário”, o que mais tarde foi usado pela imprensa para explicar o fracasso tático e psicológico na Copa de 2010.
Os episódios religiosos da África do Sul foram a matriz germinal de sucessivos fracassos do futebol brasileiro. Um marco regressivo que comentaremos a seguir.
Raphinha atualiza Johannesburgo
Antes do início da Copa da Fifa de 2026, assisti a um vídeo revelador do jogador Raphinha. O boleiro se mostrava muito contrariado com a convocação para integrar a seleção que disputaria o Mundial. Alegava que “não foi consultado para formar a seleção” e que estava “em férias com a família e teria que frustrar a mulher e seus filhos”.
Naquele exato momento, fiquei convencido de que o Brasil seria derrotado na Copa. Comecei a cogitar que tal contrariedade já tivesse contagiado inúmeros outros convocados pelo treinador italiano Ancelotti. O resultado negativo que tivemos, pois, parece confirmar as minhas piores suspeitas.
Cabe-nos agora examinar sociologicamente os vários fenômenos sociais que resultaram neste jejum de títulos mundiais do futebol brasileiro, um longo hiato de 24 anos, já que o último torneio vitorioso ocorreu em 2002, na Coreia do Sul e no Japão.
O triângulo de ferro da mediocridade
Quero levantar três hipóteses, sempre provisórias, que podem explicar — ainda que parcialmente — a decadência do nosso velho esporte bretão-brasuca.
- O fenômeno pseudorreligioso da chamada Teologia da Prosperidade, que assola a seleção há muitos anos: a superstição que oferece ao jogador uma justificativa divina para o individualismo.
- A globalização do mercado, que exige que o atleta se comporte como uma marca pessoal e isolada.
- O “branding” publicitário, que exige um atleta pasteurizado, midiático e produtor de clipes, não de jogadas nem de gols.
Ressalte-se que o “branding” encerra uma intenção complexa que pode ser definida pela tríade de Aristóteles — vejam só a ousadia da ambição comercial das marcas. Exemplo: a Nike atrai o consumidor pelo Pathos, a inspiração de ser um vencedor; justifica a compra pelo Logos, a tecnologia do amortecimento e o design; e mantém a lealdade a longo prazo pelo Ethos, a reputação de ser a marca dos maiores atletas da história.
Este triângulo — evangelismo, globalização e branding publicitário — aprisiona e desagrega o futebol brasileiro.
O jogador já não é um compositor que orquestra uma sinfonia com dez outros músicos. Ele é um influenciador que precisa gerar engajamento para o patrocinador, enquanto sussurra orações e espeta o céu com o indicador para garantir que o “contrato” com Deus seja renovado.
O resultado em campo é inevitável: times sem alma, sem encanto, que jogam com medo de errar — pois o erro no pós-jogo viraliza e desvaloriza a marca do atleta — e nunca conseguem reproduzir aquele espasmo coletivo que era a seleção de 1970 ou de 2002.
O futebol de excelência morreu sufocado pelos novos negócios do espetáculo. A bola, antes uma entidade viva que dançava no pé do jogador, hoje é apenas um acessório de merchandising entre os três intervalos comerciais — dois para hidratação, mais o tradicional intervalo após os primeiros 45 minutos, todos com anúncios dos múltiplos patrocinadores.
A sociedade do espetáculo exige faturamento frenético e constante.
Enquanto o boleiro estiver mais preocupado em aparecer na gôndola do supermercado, na embalagem do cereal ou do xampu, do que em aparecer no espaço vazio para receber o passe do colega, o Brasil continuará sendo a “pátria de chuteiras” que perdeu o ritmo do samba.
O fenômeno evangélico intoxicou o futebol
Outro dia, li na mídia — já estupefato — que, dos 26 atletas convocados pelo treinador italiano, apenas quatro não são crentes das igrejas evangélicas.
Vejam que tudo confirma a reza coletiva na África do Sul.
O mineiro Danilo, do Flamengo, se diz não religioso. Aliás, é o benemerente de causas sociais nas periferias do Rio. O gaúcho Raphinha se diz católico. Outro católico é o zagueiro Marquinhos, do Paris Saint-Germain. Já Casemiro afirma apenas ser cristão, sem especificar a denominação religiosa.
Os demais boleiros — incluindo o “menino” Neymar — são evangélicos convictos.
Nesta altura, o prezado leitor irá exclamar, aborrecido, mas coberto de todas as razões: “Mas que influência têm os pastores evangélicos no futebol brasileiro?”
O movimento evangélico tem, sim, muita influência não somente sobre os boleiros brasileiros, mas também sobre diversos segmentos da nossa vida social. Opera na dimensão conservadora de forma decisiva e politizada. O neoliberalismo e as correntes de extrema direita são beneficiários diretos da atuação da grande maioria dos pastores de almas.
Sabemos que o fenômeno religioso é — por definição sociológica, tanto em Weber como em Durkheim — o principal laboratório de produção de ethoi, plural de ethos, em uma sociedade.
Ele não apenas reflete valores, mas os sacramentaliza, ou seja, confere-lhes uma sanção transcendental, tornando-os incontestáveis aos olhos do crente.
No caso brasileiro, não somente no futebol, mas igualmente na política e nas relações sociais, estamos testemunhando não um simples abandono da ética cristã romana, mas uma substituição ontológica dos próprios conceitos de bem e de salvação.
O ethos da cristandade romana
O catolicismo cristão foi civilizatório. O catolicismo moldou o Brasil até meados do século 20 — e ainda resiste nas periferias e nas devoções populares. Era pautado por uma ética comunitária, sacrificial e escatológica.
Havia um senso comunitário nas relações sociais. A salvação era mediada pela Igreja e pela comunidade de fiéis. A caridade era um dever de quem tinha para com quem não tinha.
O sofrimento era visto como prova de fé ou expiação, a “cruz que se carrega”. A pobreza, embora não desejada, era moralmente neutra ou até virtuosa, pois aproximava o fiel da pobreza material de Cristo.
O grande prêmio estava na vida após a morte, no plano escatológico. O céu era a recompensa final; a vida terrena era apenas uma passagem de provação. Isso gerava um ethos de paciência estrutural.
O pobre aceitava a própria condição porque o Reino de Deus não era deste mundo.
O evangelismo de resultados
Há uma inversão neopentecostal-calvinista. O resultado é o seguinte: nada de vida após a morte. Tudo se opera como em uma inversão de sinais. Há uma ruptura violenta com a lógica católica romana.
A pobreza deixa de ser neutra e passa a ser demoníaca. Se você é pobre, é porque tem falta de fé ou está sob maldição hereditária. Você está permitindo que o demônio guie a sua vida.
O sofrimento perde o valor redentor e vira sinônimo de derrota espiritual. O crente não deve aceitar a cruz; deve determinar a vitória pela palavra — o famoso “profetizar”, como dizem os pregadores de rua.
O tempo se contrai: a salvação e a recompensa já não estão na vida após a morte, mas no agora, imediatamente, na forma de carro zero, relógio de ouro, conta bancária recheada e curas instantâneas.
Aqui, o ethos cristão romano, que bebia na filosofia grega da virtude como fim em si mesma, é trocado pelo ethos do contrato de risco: “Dou meu dízimo e minha obediência; Deus me dá a multiplicação financeira”.
A financeirização da fé
Assistimos ao abandono da ética em favor da “técnica” espiritual.
Na ética católico-romana, havia os conceitos de bem comum e de pecado estrutural. Havia uma preocupação com a justiça social — vide a Teologia da Libertação, ainda que reprimida pelo Vaticano nos anos 1980, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada pelo cardeal Ratzinger.
No novo ethos, a moral é subjetivada e pragmática. O que importa não é se a ação é justa ou injusta coletivamente, mas se funciona para o indivíduo.
A pergunta do crente deixa de ser “O que é certo fazer?” e passa a ser “O que vou declarar para que isso se realize?”.
Isso gera um fenômeno perverso: a despolitização da fé.
O evangélico da prosperidade não se mobiliza por direitos universais — saúde, educação e habitação — porque esses são “problemas do mundo” e não dizem respeito a Deus nem aos interesses de prosperidade material do indivíduo.
Ele se mobiliza por privilégios para o grupo religioso — como a censura de outras religiões ou a isenção fiscal das igrejas — e pela garantia de que o negócio pessoal prospere a qualquer custo, mesmo sob corrupção. O ethos social se fragmenta em milhares de devoções, em que cada um aposta em um Deus particular e em uma agenda particular.
A consolidação de um novo “homem brasileiro”
O que está em jogo é a produção de um novo sujeito moral. O catolicismo romano formava o sujeito de deveres: devia à família, à Igreja, ao patrão, ao santo.
O neopentecostalismo forma o sujeito de direitos celestiais: ele tem o direito de ser rico, saudável e feliz, e Deus é obrigado a cumprir isso.
Esse ethos se encaixa perfeitamente no neoliberalismo.
Enquanto o capitalismo precisa de consumidores ávidos e de trabalhadores que se vejam como “empreendedores de si mesmos”, a teologia da prosperidade fornece o martírio psicológico: o fracasso não é culpa do sistema, é culpa da sua fé. Logo, o trabalhador explora a si mesmo ainda mais, na esperança de agradar a Deus e finalmente quebrar a maldição.
Na ética romana, a culpa travava os excessos: “Não cobiçarás”. Na nova ética, a culpa desaparece, mas nasce a ansiedade de performance. Você não peca por luxúria ou gula; você “peca” por não crer o suficiente. Talvez esteja sonegando o dízimo ao pastor.
O inferno não é mais um lugar de fogo eterno; o inferno é não ter dinheiro para pagar o automóvel do ano.
O ethos como espelho do capitalismo tardio
O ethos aqui tratado se refere à identidade coletiva, ao “espírito” ou à mentalidade que une os membros de uma comunidade ou nação.
Como vimos, o fenômeno religioso consolida um ethos que, no Brasil, abandonou a ética cristã romana.
Mas esse abandono não ocorreu por acaso. Ocorreu porque a ética católica era um freio ao ímpeto predatório do capitalismo, enquanto a nova ética evangélica é o motor de aceleração e alta velocidade.
O que vemos no futebol, na política e nas relações de trabalho é o mesmo fenômeno: a dissolução do “nós” em favor do “eu diante do espelho”.
A seleção brasileira não joga mal porque os jogadores são evangélicos. Joga mal porque a sociedade brasileira como um todo aderiu a um ethos em que o resultado imediato e individual é o único critério da verdade.
O campo de futebol é apenas o estádio onde esse novo deus — o deus do desempenho — exige o sacrifício diário. E, agora, parafraseando Max Weber, o que começa como uma ética religiosa termina como uma jaula de aço do consumismo.
A tese central de Weber é que a ética ascética do trabalho no protestantismo — especialmente no calvinismo, hoje decalcado pelos evangélicos — foi fundamental para o surgimento do “espírito do capitalismo”. No entanto, uma vez estabelecido, esse sistema se libertou das raízes religiosas.
O que começou como uma busca pela certeza da salvação por meio do trabalho árduo e da acumulação terminou como uma obrigação impessoal, uma “jaula de aço” — em alemão, stahlhartes Gehäuse — da racionalidade econômica e da burocracia, despida de qualquer sentido religioso original.
Sem futebol de excelência, perdemos o soft power
O futebol é, talvez, a forma mais pura e universal de soft power que existe. Como definiu Joseph Nye, criador do conceito de “poder brando”, soft power é a capacidade de atrair e cooptar em vez de coagir.
O futebol brasileiro, durante décadas, foi uma embaixada sem passaporte: ensinou o mundo a gingar, a sorrir e a enxergar o Brasil como a “pátria do encontro”, em que o talento florescia da necessidade e a alegria era uma arma geopolítica.
Substituímos a estética do futebol pela eficiência.
O soft power brasileiro sempre vendeu o imaginário da criatividade selvagem. O drible de Pelé, a pedalada de Ronaldinho e a visão de jogo de Zico não eram apenas futebol; eram uma propaganda visual do Brasil como um país que resolve problemas complexos com soluções inesperadas e graciosas.
Hoje, o Brasil exporta para a Europa um jogador pasteurizado: físico, tático, disciplinado, mas desprovido daquele “tempo” diferencial.
O mundo não compra mais a brasilidade nos campos; compra um atleta genérico que fala inglês, corre 12 km por jogo e obedece ao técnico. O soft power morre quando o produto se torna uma “commodity”. O Brasil deixa de ser a oficina da arte e vira uma fábrica de operários da bola — obedientes a uma ordem pasteurizada, liofilizados e desidratados da cultura brasileira. Uma peça comercial de prateleira.
Soft power exige uma história que o outro queira comprar ou incorporar.
A história que o Brasil vendia era a da mestiçagem. Era uma poderosa contranarrativa ao racismo e ao elitismo colonialista europeu.
Com o avanço do individualismo evangélico e do branding pessoal, o jogador brasileiro não representa mais essa nação mestiça. Ele representa a si mesmo, sua igreja e seu patrocinador.
Quando um Neymar chora e diz que “Deus lhe deu tudo”, ele não fala pelo Brasil; fala pela própria biografia.
A seleção deixa de ser um símbolo nacional para ser um aglomerado de marcas pessoais. Para o estrangeiro, a atração se esvai: não há mais uma “alma brasileira” para admirar, apenas jogadores de elite fazendo o trabalho.
O Brasil perde sua assinatura cultural
O mundo não tem mais apenas um país do futebol. A Argentina, com a garra messiânica e o futebol de raça, vende uma narrativa de superação épica. A França, com diversidade étnica e trajetória multicampeã, vende a narrativa do moderno. O Brasil, preso ao passado e sem projeto de futuro, fica com a narrativa da nostalgia embolorada: “Éramos reis, mas já não somos”.
Soft power é disputa de atenção. No momento em que o Brasil entra em campo, o que o mundo vê é um time que sofre, que se ajoelha e que joga com medo. Isso não atrai, afasta. O rebaixamento consiste em passar da condição de modelo a ser imitado à de adolescente em crise que precisa de ajuda.
O Brasil não está rebaixando o soft power porque perdeu jogos, mas porque perdeu a capacidade de projetar um ideal de coletividade feliz. O futebol sempre foi o “cartão de visitas” do país.
Se, nesse cartão, o que hoje se lê é “individualismo, prosperidade material e ansiedade”, o mundo olha e vê um país que se tornou cinzento, exatamente como os outros.
O soft power brasileiro foi vítima do mesmo triângulo de ferro que apontamos: a teologia do resultado imediato minou a alma coletiva; o branding transformou o jogador em produto, não em símbolo; e o capitalismo tardio transformou o estádio em vitrine comercial, com prateleiras que expõem jogadores transformados em commodities.
O resultado é um país que, no gramado, deixou de encantar. E, sem encantamento, não há atração. Sem atração, soft power é apenas uma palavra vazia nos discursos da misteriosa CBF — a mesma que emudeceu covardemente depois da derrota excludente que tivemos.
O Brasil ainda tem cinco estrelas no peito, mas a luminosa constelação que brilhava no imaginário global está se apagando.
* Cristóvão Feil é sociólogo.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
