Dança e ação social caminham juntas no Meme Estação Cultural, em Porto Alegre

Por Eugênio Bortolon15/07/2026 às 14:160 visualizações
Merme Estação Cultural, esdaço de cultura na Cidade Baixa
Merme Estação Cultural, esdaço de cultura na Cidade Baixa
Foto: | / Brasil de Fato

Instalado na Cidade Baixa, em Porto Alegre, o Meme Estação Cultural é movido pela inquietude, por uma usina de ideias, reflexões e ações sociais. Elas vão do jazz e da dança-teatro às discussões permanentes sobre a construção de um ser humano adaptável ao mundo que está aí, cheio de desigualdades e desencantos. Ali se pensa, se dança e se age.

Tudo passa pela mente “vulcânica” de Paulo Guimarães, chamado de Laco pelos frequentadores da casa. Bailarino, coreógrafo e educador do movimento, é formado em Educação Física pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), coordena o Meme e desenvolve um trabalho reconhecido pela combinação entre rigor técnico, clareza pedagógica e uma condução direta e acessível.

Sempre agitado mentalmente, faz mil coisas o tempo todo. É bem cercado de professores, amigos, da comadre Fernanda e de Tiago, sócios do empreendimento na rua Lopo Gonçalves, 176. O número, aliás, é o mesmo da casa da mãe, em Pelotas.

Quintal do Meme, espaço de encontros também do Bonnie Café |
Quintal do Meme, espaço de encontros também do Bonnie Café | — Rafael Rosa
Quintal do Meme, espaço de encontros também do Bonnie Café | Crédito: Rafael Rosa

O casarão é próprio, comprado em diversas prestações. São 30 profissionais e trabalhadores, incluindo todos, da faxineira ao responsável pelo Bonnie Café. O nome homenageia um cão “salsicha” que perambulava pela casa — cujo nome científico da espécie é Canis lupus familiaris — e está enterrado no jardim, ao lado de seis gatos que também passaram por ali.

“Aqui a dança e ação social caminham juntas. Temos um papel social a cumprir. Somos agentes da transformação. Não somos arte comercial. Seguimos três linhas – sustentabilidade, economia criativa e as redes colaborativas”, reflete Guimarães.

Paulo Guimarães, o Laco, coordena o Meme |
Paulo Guimarães, o Laco, coordena o Meme | — Rafael Rosa
Paulo Guimarães, o Laco, coordena o Meme | Crédito: Rafael Rosa

Natural de Rio Grande, ele passou por Pelotas e Porto Alegre e depois ganhou o mundo, fazendo apresentações artísticas com grupos de dança em vários países europeus. Na volta, participou de movimentos nacionais de dança e foi para Goiânia, onde se tornou professor da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Desde 2004 em Porto Alegre

Guimarães está em Porto Alegre desde 2004 construindo uma obra cultural — pode ser incubadora, centro de excelência em artes, instituto ou o que você quiser, diz ele. São três CNPJs para as variadas e amplas atividades desenvolvidas no local.

Espaço respira arte e cultura |
Espaço respira arte e cultura | — Rafael Rosa
Espaço respira arte e cultura | Crédito: Rafael Rosa

O nome Meme pode soar estranho, enigmático, mas vem de memética, estudo de como ideias e comportamentos se espalham e evoluem na sociedade. Ela trata a cultura como algo vivo.

A palavra veio de “meme”, criada pelo biólogo Richard Dawkins em 1976. Na biologia, o gene carrega a informação física. Na memética, o meme é a menor unidade de cultura que passa de pessoa para pessoa, como uma gíria ou uma religião. Os memes competem pela atenção do público. Os que são mais fáceis de lembrar sobrevivem e se espalham, assim como os animais mais fortes na natureza.

E é pelas pessoas que Paulo Guimarães se movimenta. Ele e todo o grupo estão constantemente envolvidos com projetos que revigoram e impulsionam a vida. Podem ser crianças ou adultos.

Cozinha do Meme também é local de solidariedade |
Cozinha do Meme também é local de solidariedade | — Rafael Rosa
Cozinha do Meme também é local de solidariedade | Crédito: Rafael Rosa

O Meme mantém uma cozinha solidária que, na enchente de 2024, produzia 250 marmitas por dia e que, volta e meia, retorna à atividade para atender pessoas em situação de rua e comunidades quilombolas, onde o grupo também promove encontros e outras ações.

Para as aulas de dança e oficinas, quem não pode pagar faz outra coisa em favor do grupo. É o caso do administrador do Bar Bonnie, que saiu da periferia, formou-se em Ciências Sociais e está ali com um novo olhar para o mundo.

“A diferença é de quem quer fazer alguma coisa pelo outro. Aqui trabalhamos para quem está à margem de tudo. Fugimos da elite”, define.

‘Aqui a dança e ação social caminham juntas. Temos um papel social a cumprir. Somos agentes da transformação’, afirma Paulo Guimarães |
‘Aqui a dança e ação social caminham juntas. Temos um papel social a cumprir. Somos agentes da transformação’, afirma Paulo Guimarães | — Rafael Rosa
‘Aqui a dança e ação social caminham juntas. Temos um papel social a cumprir. Somos agentes da transformação’, afirma Paulo Guimarães | Crédito: Rafael Rosa

Oficinas e eventos culturais

No Meme, crianças e adultos vivem uma rotina com tempo para o encontro, o movimento e a criação. Oficinas e eventos culturais acontecem toda semana, reunindo práticas corporais e uma agenda pensada como experiência de convivência, reflexão, cuidado e aprendizado, explica Guimarães.

As oficinas para crianças são pensadas a partir do brincar, da imaginação e da convivência. Cada proposta respeita o tempo da infância, valorizando o movimento como linguagem e o grupo como espaço de aprendizado e cuidado. Para esse público, há jazz infantil 1 e 2 e pré-dança.

Para os adultos, as oficinas convidam à escuta do corpo, ao cuidado e à criação em movimento. São práticas acessíveis, sem exigência de experiência prévia, pensadas como espaços de pausa, presença e troca. Há modern jazz, danças circulares, alongamento e expressão corporal.

Meme oferece oficinas para jovens e adultos |
Meme oferece oficinas para jovens e adultos | — Rafael Rosa
Meme oferece oficinas para jovens e adultos | Crédito: Rafael Rosa

Entre os professores está Isabel Willadino, com formação em balé, jazz e sapateado pela Academia Lenita Ruschel Pereira. Mestre em Educação e pós-graduada em Dança, atua intensamente na docência e, ao longo da trajetória, conquistou prêmios como o Açorianos de Dança de Personalidade do Ano.

Patrícia Preiss atua há muitos anos com danças circulares, desenvolvendo um trabalho comprometido com a criação de espaços coletivos de cuidado e pertencimento. A trajetória é marcada pela formação continuada e pela condução de grupos regulares.

Paulo Guimarães, coordenador do Meme, completa o grupo, com um trabalho reconhecido pela combinação entre rigor técnico, clareza pedagógica e uma condução direta e acessível.

Espaço abriga apresentações artísticas, festas e eventos |
Espaço abriga apresentações artísticas, festas e eventos | — Rafael Rosa
Espaço abriga apresentações artísticas, festas e eventos | Crédito: Rafael Rosa

Além das oficinas, o Meme também abriga uma programação cultural distribuída em dois espaços da casa: a Sala Thaís Freitas e o Bonnie Café. É uma agenda pensada para encontros, apresentações, conversas, experiências culturais e desenvolvimento de projetos.

O espaço abriga ainda festas e eventos para até 200 pessoas. Jantares encomendados são realizados eventualmente. O prato especial, preparado pelo próprio Guimarães, é risoto com bergamota e castanha. Dizem que todo mundo sai do jantar feliz da vida e pedindo a receita.

‘Teresinhas’, o grande espetáculo da casa

O espetáculo “Teresinhas” é uma montagem emocionante que mistura dança e teatro. A obra celebra a força da mulher brasileira comum. Conta a história real de Teresinha Jardim Machado, mãe de Guimarães, a ruptura de um casamento abusivo e a reconstrução da vida como mãe solo, uma mulher batalhadora invisibilizada pela sociedade.

Arte e reflexão |
Arte e reflexão | — Rafael Rosa
Arte e reflexão | Crédito: Rafael Rosa

O espetáculo existe há 18 anos e já foi apresentado em vários estados e no interior do estado. Volta e meia, entra na agenda do espaço da rua Lopo Gonçalves. A montagem está sempre viva.

“É uma narrativa de como é ser mulher, da mulher que corre sempre e acompanha o tempo”, diz o coreógrafo.

A peça acompanha a vida da protagonista desde a juventude até a idade mais avançada. Mostra diferentes fases: a filha, a mãe, a companheira e a amiga. Uma característica do espetáculo é que o papel principal é dividido por várias atrizes e bailarinas de diferentes idades.

O palco ganha vida com mulheres de 25 a 70 anos juntas. Isso ajuda a criar uma reflexão forte sobre o tempo, as escolhas e o envelhecimento.

Meme Estação Cultural |
Meme Estação Cultural | — Rafael Rosa
Meme Estação Cultural | Crédito: Rafael Rosa

Esse é o mote de “Teresinhas”, do grupo de teatro Meme Santo de Casa, outra das variantes do centro cultural. A dança contemporânea é a linguagem artística que amarra a peça, colocando em cena uma reflexão sobre a trajetória da vida da mulher.

Na trama, a protagonista é destrinchada aos poucos diante do público, desde a filha até a esposa, passando por vivências distintas e reveladoras. A peça dialoga com a obra e o universo do poeta e compositor Vinicius de Moraes e já ganhou diversos prêmios.

“As salas sempre estão cheias de gente e de emoção”, garante Guimarães.

Fonte
Brasil de Fato
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