A Fifa proibiu a entrada de bandeiras, camisetas e cartazes com referência às Malvinas na semifinal entre Argentina e Inglaterra, às 16h desta quarta-feira (15h), em Atlanta, nos Estados Unidos. Dentro e fora do estádio, 1,6 mil agentes de segurança vão trabalhar para evitar confrontos entre as torcidas dos dois países.
A carga simbólica da partida remete ao histórico duelo nas quartas de final da Copa do Mundo do México, em 1986, quando Diego Armando Maradona, com um gol de mão e outro digno da primeira prateleira das memórias do futebol, praticamente sozinho, eliminou o esquadrão inglês. Lá e cá, a disputa sobre as Ilhas Malvinas segue presente.
A ilha, localizada no extremo sul da América do Sul, tem sido objeto de disputa há décadas. Em 1965, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que classificou as Malvinas como território em “situação colonial pendente”, chamando Argentina e Reino Unido à negociação. Desde então, o Comitê de Descolonização renovou diversas vezes o pedido, que costumeiramente é ignorado por Londres.
Já na Argentina, o debate vai além da institucionalidade. Não é raro que camisetas de clubes de bairro façam referência ao desenho das ilhas. Em cidades como Buenos Aires, são comuns os murais que associam as Malvinas a Maradona. No país vizinho ao Brasil, o dia 2 de abril se tornou feriado nacional em memória dos veteranos da guerra entre Argentina e Inglaterra pelo domínio da ilha, e o tema faz parte do currículo escolar.
“Os ex-combatentes, os heróis das Malvinas, têm ao redor de 60 anos. São pessoas jovens, pais, avós. Então, está muito ligado [à sociedade]”, explicou a jornalista argentina Erika Gimenez, em participação no programa Conexão BdF, do Brasil de Fato.
“Tem escolas e universidades com cartazes na frente, falando: ‘Essa escola, essa universidade, esse centro cultural ficam a até 1,8 mil quilômetros das ilhas Malvinas. É impossível separar o futebol das Malvinas. Não é fácil pensar nessa separação, ainda que seja fomentada pelo próprio governo Milei”, pondera Gimenez.
O contexto da guerra
A guerra durou somente 74 dias. Em 2 de abril de 1982, a ditadura de Leopoldo Galtieri desembarcou nas Malvinas, prevendo que as tropas britânicas – à época, chefiadas pela ex-premiê Margaret Thatcher – não responderiam com força proporcional. Não foi o caso. Com centenas de navios e usando dois porta-aviões, os britânicos forçaram o recuo da frota argentina. No total, foram 649 soldados argentinos mortos, além de 255 militares britânicos e três moradores das ilhas.
O impulso à guerra era necessário à ditadura argentina, esgarçada por problemas econômicos e denúncias de violação dos direitos humanos. Não à toa, a derrota levou ao desmantelamento do governo Galtieri, abrindo espaço para a redemocratização.
Antes disso, porém, Juan Domingo Perón chegou a avançar em um acordo de administração conjunta do arquipélago. A petroleira YPF, ao lado das Gas de El Estado, operava as ilhas Malvinas antes da guerra. Londres, porém, sustenta que a ocupação teve início ainda em 1833, e que, até hoje, boa parte dos habitantes ainda prefere manter o estatuto de território ultramarino.
No contexto de mais um encontro entre Argentina e Inglaterra em Copas do Mundo, o Centro de ex-combatentes Ilhas Malvinas (Cecim) de La Plata publicou um comunicado, em que dizia que a partida seria “de uma transcendência enorme”.
“Sobre o confronto com os ingleses, queremos dizer uma coisa com a mão no coração: Diego já nos vingou. Não restam dívidas esportivas a saldar com eles”, diz o documento.
O presidente Javier Milei, em um movimento contrário aos antecessores – seja de direita ou de esquerda –, chegou a reconhecer, em 2024, que as ilhas estariam, de fato, “nas mãos do Reino Unido”, mas se comprometeu a recuperá-las por vias diplomáticas. Mas o governo do ultradireitista cortou o orçamento específico para as Malvinas e chegou a acatar a proibição da FIFA sobre o uso de símbolos que façam referência à luta histórica.
“A ministra da Segurança argentina falou que arrumou com a Fifa um acordo para que ninguém entre com o ‘mapinha’ das Malvinas. Só que esse ‘mapinha’ é o nosso território, o nosso país. É importante que um governo defenda as Malvinas. As Malvinas são argentinas e latino-americanas. Mesmo o Lula, nos últimos discursos no Mercosul, fez a defesa das Malvinas”, avalia Erika Gimenez.
Para a jornalista, “há um discurso de direita, do governo Milei, de que tem que esquecer, de que não importa. Mas os britânicos ainda ocupam 25% do nosso território nacional. E exploram o petróleo, exploram a indústria pesqueira. Ainda hoje, em 2026″.
Enquanto isso, a torcida argentina, como na década de 1980, entoa a memória sobre a guerra. “Por Malvinas, por Diego, pela última Leo [Messi]; Argentina, quero te ver bicampeã”, diz a música cantada até por jogadores do elenco.
