Agredida com socos por policial militar no Recife, mulher supera medo e presta queixa; ‘laranjinhas’ acumulam relatos de abusos em eventos públicos

Por Rostand Tiago15/07/2026 às 21:000 visualizações
Atuação de policiais militares recém-formados na RMR é alvo de críticas por truculência e despreparo
Atuação de policiais militares recém-formados na RMR é alvo de críticas por truculência e despreparo
Brasil de Fato

Nesta terça-feira (14), a estudante Lillian Araújo e outra jovem, que prefere não ser identificada, dirigiram-se ao Departamento de Polícia da Mulher, no Bairro do Recife, para prestar queixa pelas agressões sofridas em um evento público de São João no Pátio de São Pedro, ao final de junho. O ataque partiu de um homem e de policiais militares em atividade. A jovem, que é coordenadora nacional do Levante Popular da Juventude, foi encorajada por colegas do movimento a formalizar a denúncia.

No primeiro momento, por medo de possíveis represálias dos militares e considerando a vulnerabilidade de mulheres negras em situações de violência e abuso policial, elas optaram por se resguardar e não formalizar a denúncia. Contudo, após se organizarem juridicamente, com apoio de advogadas, prestaram a queixa como forma de mostrar caminhos de combate para possíveis episódios de violência policial futuros. 

“Nossa primeira decisão, de não ir diretamente para a delegacia, foi motivada por uma questão de segurança. Mas nos organizamos, entendemos nossos direitos e estamos com acompanhamento de advogados para levar a queixa adiante, para que os responsáveis sejam penalizados e que essa denúncia mostre caminhos para a população que passa por esses episódios”, afirma a coordenadora do Levante Popular da Juventude, em conversa com o Brasil de Fato.

O episódio aconteceu no dia 28 de junho, numa festa pública no Pátio de São Pedro. De acordo com a nota publicada pelo movimento social, um homem branco abordou uma das vítimas pedindo cigarro e, após ouvir uma recusa, começou a intimidá-la e partiu para a agressão física. Membros do Levante intervieram para apartar a situação e soldados da Polícia Militar recém-formados, os populares “laranjinhas”, responderam com socos em Lillian Araújo, sem conter o agressor. A deputada estadual Dani Portela (PT), presente na ocasião, também tentou intervir, mas foi empurrada agredida com um tapa de um dos policiais. 

Portela é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco e, em parceria com o mandato da também deputada estadual Rosa Amorim (PT), está reunindo as provas para formalizar uma representação junto ao Ministério Público para a apuração dos fatos. Ao Brasil de Fato, Portela também reafirma a importância do resguardo das vítimas diante de suas vulnerabilidades enquanto mulheres negras. 

“A violência policial não termina no ato da agressão. Ela continua quando o medo cala as vítimas e dificulta o acesso à justiça. Por isso, tão importante quanto responsabilizar os agentes envolvidos é garantir que todas as vítimas tenham proteção, segurança e apoio para acionar os mecanismos institucionais no momento em que se sentirem preparadas para denunciar”, afirma a deputada. Ela também destaca que os “laranjinhas”, apesar de serem o principal “símbolo visual da política de segurança” do Governo do Estado, sua atuação não tem demonstrado resultados positivo comprovados.

“Essa estratégia de comunicação não encontra respaldo nos dados. A ausência de planejamento integrado, de metas claras e de políticas estruturantes transforma essas ações em instrumentos de marketing político, e não em respostas eficazes à criminalidade. Enquanto o governo investe na exposição simbólica do policiamento ostensivo, indicadores sensíveis seguem em deterioração: os feminicídios crescem, a violência contra mulheres e populações vulnerabilizadas permanecem elevadas e a política de segurança carece de integração com assistência social, educação e políticas de prevenção”, declara Dani Portela. 

Lillian complementa que o episódio revela que os policiais recém-formados ou são despreparados ou a preparação da Polícia Militar de Pernambuco coloca a população negra como alvo, contaminada pelas questões históricas que institucionalizaram o racismo no país. “A gente ter acesso à cultura e lazer, ocupando o centro da cidade, é algo que nem sempre tivemos. Mas hoje podemos, mas a polícia reprime nossos corpos e nos agride fisicamente e psicologicamente”, lamenta Lillian. 

“Laranjinhas” acumulam relatos de casos de abusos e despreparo em eventos públicos

O episódio do Pátio de São Pedro se soma a outros relatos recentes de truculência policial em eventos públicos na Região Metropolitana do Recife. Em outubro de 2025, a Marco Zero Conteúdo trouxe uma reportagem sobre um caso ocorrido durante o evento Rec n’ Play, no Bairro do Recife. A reportagem relata uma abordagem agressiva de laranjinhas contra o grupo de hip-hop Sujistências, que eram parte da programação oficial do festival. A movimentação chamou a atenção da advogada Jéssica Jansen, integrante da produção do evento, que tentou intervir e também se tornou alvo da abordagem truculenta.

Durante o carnaval de 2026, surgiram vários outros relatos de abordagens e episódios de abuso. O jornalista e pesquisador GG Albuquerque foi um deles. Ao desembarcar nos Bultrins para seguir para o Sítio Histórico de Olinda, ele relata ter sido abordado, junto à sua namorada, por um grupo de policiais na rua Severiano Ramalho, no Amparo. Fantasiado de papangu, o jornalista diz ter sido empurrado contra a parede e ter sua máscara rispidamente retirada, sendo questionado o porquê do uso dela. Após uma revista, ele foi empurrado de volta e o grupo de policiais seguiu. Levando a máscara do folião. 

“Ele ter perguntado por que eu estava de máscara demonstra um desconhecimento sobre a própria festa na qual ele estava fazendo a segurança. E se naquela área, por algum motivo, em um lugar a alguns metros da folia, não queriam ninguém de máscara, existem formas mais dignas de abordar isso”, conta GG, complementando que o episódio traz uma sensação de impotência diante da violência, além do prejuízo da subtração da máscara artesanal.

Em suas redes sociais, o ex-vereador recifense Ivan Moraes também relatou uma abordagem motivada por vestimentas, desta vez no São João. “Num episódio que seria engraçado se não fosse trágico, um desses jovens PMs ameaçou conduzir à delegacia um amigo que trajava uma camisa com uma discreta estampa de folha de maconha. ‘Você não pode usar essa camisa’, disse o polícia. ‘Claro que posso’, respondeu o amigo”, relatou Moraes em sua conta no X.

O ex-parlamentar e pré-candidato ao governo de Pernambuco pelo PSOL faz coro a Dani Portela na observação de que os “laranjinhas” vêm cumprindo um papel que parece servir mais à publicidade e à construção simbólica visual do que a uma estratégia sólida de segurança pública no estado. Em seu perfil no Instagram, a governadora Raquel Lyra recorrentemente garante um destaque aos policiais recém-formados, sobretudo a partir do forte apelo visual das cerimônias de formatura realizadas na Arena Pernambuco. 

“A forma com que é conduzido o policiamento ostensivo, principalmente pelos recém-formados ‘laranjinhas’, nos faz crer que a estratégia é menos baseada na segurança pública e mais focada no marketing da gestão, a começar pela identificação dos PMs novatos, que não tem explicação plausível”, elabora Ivan Moraes, destacando também a presença ostensiva destes policiais em bairros de classe média com baixos índices de ocorrências e a forma como operam em eventos públicos podem ser indicativos de um caráter mais político do que técnico. “Longe dos holofotes, o que a gente vê é uma polícia que aumentou sua letalidade em 30% no ano passado, sendo responsável por 89 assassinatos, sendo mais de 90% de rapazes negros”, complementa. 

O que diz a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE)

Ao receber questionamentos sobre a atuação dos policiais militares recém-formados em eventos públicos, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco enviou a seguinte nota: 

“A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) informa que todos os profissionais das forças de segurança do Estado passam por formação específica antes de iniciarem suas atividades, seja na Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Científica ou Corpo de Bombeiros Militar. No caso da Polícia Militar, entre 2025 e 2026, mais de 4,4 mil soldados concluíram o curso de formação antes do ingresso na Corporação. A capacitação teve duração de sete meses, carga horária de 1.080 horas/aula, distribuídas em 39 disciplinas, incluindo direitos humanos aplicados à atividade policial militar, ética profissional, legislação e procedimentos operacionais.

A SDS ressalta que não é possível estabelecer uma relação entre a condição de policial recém-formado e eventuais denúncias de conduta inadequada. A atuação dos profissionais é pautada pelos princípios da legalidade, da disciplina e do respeito aos direitos do cidadão, e os policiais desempenham suas funções em conformidade com esses preceitos. Os mais de 4,4 mil policiais incorporados recentemente ao efetivo atuam diariamente, no Recife e Região Metropolitana, comprometidos com a proteção da população e com os valores éticos e disciplinares da Corporação. A Polícia Militar de Pernambuco não compactua com comportamentos incompatíveis com esses princípios. Eventuais desvios de conduta são tratados de forma individualizada, sem prejuízo da atuação da instituição e dos demais profissionais que cumprem regularmente sua missão constitucional.

Sempre que há denúncia de possível irregularidade, o caso é encaminhado para apuração pela Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social, observando os procedimentos administrativos e o devido processo legal. Toda manifestação recebida passa por procedimento preliminar de verificação, destinado à coleta de informações que subsidiem a análise de eventual repercussão administrativa. A Secretaria reforça a importância da participação da sociedade no controle da atividade policial. A Ouvidoria da Corregedoria Geral funciona de forma ininterrupta, inclusive aos finais de semana e feriados, para o recebimento de denúncias e demais manifestações.

Em relação às abordagens policiais, a SDS destaca que elas constituem instrumento essencial da atividade de segurança pública, tanto no policiamento diário quanto na atuação em grandes eventos. Essas ações permitem a retirada de armas de circulação, a prevenção de crimes e o aumento da segurança da população. Como resultado desse trabalho, quase 12 mil armas brancas foram apreendidas em Pernambuco ao longo de 2025 e mais de seis mil no primeiro semestre de 2026.

Fonte
Brasil de Fato
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