Grupo Mateus vende carne ligada a desmatamento ilegal e trabalho análogo à escravidão, aponta relatório

15/07/2026 às 20:500 visualizações
Uma das 270 lojas do Grupo Mateus, terceira maior rede de supermercado do país.
Uma das 270 lojas do Grupo Mateus, terceira maior rede de supermercado do país.
Foto: | / Brasil de Fato

Terceira maior rede de supermercados do país, com mais de 270 lojas em 110 cidades de 10 estados do Norte e Nordeste, o Grupo Mateus, do Maranhão, tem zero compromisso socioambiental. Cerca de 40% da carne é oriunda de áreas desmatadas, sem origem definida ou ligadas a casos de trabalho análogo à escravidão, segundo o relatório “Grupo Mateus – Por trás das prateleiras”, da organização internacional ambientalista Mighty Earth.

Pelo menos 54% da carne encontrada nas lojas do grupo tem origem em frigoríficos sem compromissos ambientais. Foram identificados nove frigoríficos que compraram gado de propriedades incluídas na lista suja do trabalho escravo, três deles pertencentes à JBS, segundo o relatório.

Entre 2024 e 2025, a ferramenta de rastreamento e cruzamento de dados da organização identificou pelo menos 5.147 hectares de áreas desmatadas na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado, potencialmente associadas à cadeia de fornecimento da empresa. Os pesquisadores advertem, no entanto, que o número reflete apenas parte, uma amostra, e que o total deve ser substancialmente maior diante da falta de transparência na cadeia.

Oitenta e cinco por cento dos frigoríficos identificados como fornecedores da rede não são signatários do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da Carne, principal compromisso setorial para impedir a comercialização de gado associado ao desmatamento ilegal na Amazônia.

A investigação foi realizada entre 2023 e 2024 com base em mais de 430 produtos de carne bovina coletados em 38 lojas do Grupo Mateus nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe.
A maioria dos produtos veio da região Norte em direção ao Nordeste.

Mapa mostra a rota da carne do Grupo Mateus. |
Mapa mostra a rota da carne do Grupo Mateus. | — Might Earth
Mapa mostra a rota da carne do Grupo Mateus. | Crédito: Might Earth

Segundo a Mighty Earth, o Grupo Mateus não divulga critérios de compra de carne bovina, não publica relatórios de sustentabilidade, não apresenta sistemas públicos de rastreabilidade e não aderiu ao Protocolo Boi na Linha, iniciativa criada para apoiar a implementação do TAC da Carne na Amazônia.

Além das questões ambientais, a investigação também encontrou um extenso histórico de violações de direitos humanos e trabalhistas, incluindo casos de morte e tortura de homens negros em supermercados da rede, que somam mais de 2,9 mil processos em andamento com indenizações em torno de R$ 139 milhões desde 2023.

A Mighty Earth cobra do Grupo Mateus um compromisso público de desmatamento e conversão zero, o fim das relações comerciais com fornecedores ligados à destruição de biomas e a violações de direitos humanos, a divulgação da lista de fornecedores de carne bovina e a criação de mecanismos para recebimento e acompanhamento de denúncias relacionadas à sua cadeia de fornecimento.

A ONG diz que procurou a empresa, mas não obteve retorno sobre os dados da investigação. À Folha de S.Paulo, a JBS disse que “todas as compras de gado citadas no relatório que puderam ser identificadas pela empresa foram regulares e seguiram os critérios previstos no TAC da Carne [acordo firmado entre os frigoríficos e o Ministério Público Federal], entre eles o bloqueio imediato de fornecedor que passa a integrar a lista suja do trabalho escravo”. O Brasil de Fato procurou o Grupo Mateus, mas não obteve retorno. O espaço está aberto.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.