Pesquisa revela força da economia solidária em MG, mas aponta desafios para ampliar renda

Por Lucas Wilker16/07/2026 às 16:070 visualizações
Feira Estadual de Economia Solidária em Contagem
Feira Estadual de Economia Solidária em Contagem
Brasil de Fato

Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, milhares de trabalhadores e trabalhadoras constroem formas coletivas de produzir, comercializar e gerar renda. Em Minas Gerais, essa realidade ganhou um retrato inédito a partir do Diagnóstico Socioeconômico e Produtivo dos Empreendimentos Econômicos Solidários, que mapeou 208 grupos distribuídos em 75 municípios do estado e revelou tanto a potência quanto as dificuldades enfrentadas pela Economia Popular Solidária (EPS).

O levantamento, elaborado pela Cáritas Regional Minas Gerais em parceria com o Instituto Ponte de Assessoria a Projetos, mostra que a economia solidária está presente em diferentes territórios mineiros, das periferias urbanas às comunidades rurais, reunindo quase 4 mil pessoas em iniciativas que apostam na autogestão, na cooperação e na distribuição coletiva da renda. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia obstáculos históricos, como a informalidade, a dificuldade de acesso ao crédito e a falta de infraestrutura adequada para ampliar a produção.

:: Leia o relatório completo :: 

A pesquisa foi realizada entre fevereiro e agosto de 2025 e combinou questionários on-line, entrevistas remotas e visitas presenciais aos empreendimentos. Ao todo, foram ouvidos 208 grupos, número que representa cerca de 17,5% dos empreendimentos identificados no último Mapeamento Nacional da Economia Solidária em Minas Gerais, realizado entre 2009 e 2013.

Mulheres e população negra sustentam a economia solidária

Os dados revelam que a Economia Popular Solidária em Minas é majoritariamente feminina. Dos 3.919 participantes identificados pelo diagnóstico, 65% são mulheres. A pesquisa também aponta uma forte presença da população negra, com cerca de dois terços dos grupos formados predominantemente por pessoas pretas e pardas.

Embora a média seja de 19 integrantes por empreendimento, esse número é influenciado por poucos grupos de grande porte, ligados principalmente à agricultura familiar, assentamentos e povos e comunidades tradicionais. Metade dos empreendimentos possui até cinco integrantes, com destaque para coletivos de artesanato, cultura e produção de alimentos.

Outro dado que chama atenção é a estrutura de funcionamento desses grupos. Quase metade desenvolve suas atividades na casa de um ou mais integrantes, evidenciando criatividade e capacidade de adaptação, mas também a carência de espaços próprios para produção, armazenamento e comercialização.

Informalidade 

O diagnóstico mostra que mais da metade dos empreendimentos (52,4%) atua de forma informal, sem registro jurídico. As associações representam 25% dos grupos, enquanto 15,4% utilizam o modelo de Microempreendedor Individual (MEI) e apenas 6,7% funcionam como cooperativas.

Segundo a pesquisa, a informalidade limita o acesso a políticas públicas, financiamentos e mercados institucionais, além de dificultar a consolidação dos empreendimentos. Embora o MEI tenha surgido como alternativa para parte dos trabalhadores, o modelo atende principalmente ao empreendedor individual e não contempla plenamente a lógica coletiva da economia solidária.

Produção, feiras e dificuldades financeiras

A produção de bens é a principal atividade desenvolvida pelos grupos. Quase 65% atuam na fabricação e comercialização de produtos como alimentos, artesanato e hortaliças. Outros 30% concentram esforços na organização da comercialização coletiva.

As feiras seguem como principal canal de vendas, respondendo por cerca de 65% das formas de comercialização identificadas. Apesar de serem fundamentais para a geração de renda, muitas delas não acontecem semanalmente, o que torna o faturamento irregular e reforça a necessidade de ampliar outros mercados.

O cenário financeiro também preocupa, já que apenas um terço dos empreendimentos consegue manter as contas em dia e remunerar todos os participantes. Os demais convivem com diferentes graus de desequilíbrio financeiro: 34,8% afirmam não conseguir pagar nem as despesas nem as pessoas do grupo, enquanto outros 25,2% conseguem quitar as contas, mas não remuneram todos os integrantes.

Crédito, estrutura e assistência técnica 

A dificuldade de acesso ao crédito aparece entre os principais entraves ao fortalecimento da EPS. Embora quase 70% dos grupos afirmem precisar de financiamento, muitos relatam que as linhas disponíveis não dialogam com sua realidade ou exigem documentação incompatível com empreendimentos informais.

A ausência de infraestrutura também pesa, uma vez que apenas cerca de 15% dos grupos possuem sede própria. A maioria trabalha em espaços improvisados, o que limita a capacidade de produção e dificulta o atendimento de exigências sanitárias e comerciais.

Outro desafio apontado é a falta de apoio técnico. Segundo o levantamento, 43,8% dos empreendimentos não receberam qualquer tipo de assessoria no último ano. Além disso, muitas lideranças acumulam funções administrativas, produtivas e comerciais, enquanto 38% dos grupos afirmam ter dificuldades para encontrar pessoas com experiência em vendas.

O estudo ainda identifica sinais de envelhecimento dos coletivos e baixa participação de jovens, fator que pode comprometer a continuidade de parte das iniciativas nos próximos anos.

Geração de renda e fortalecimento comunitário

Apesar das dificuldades, os grupos destacam importantes conquistas alcançadas por meio da economia solidária. A principal delas é a geração ou ampliação da renda dos participantes, seguida pelo fortalecimento do trabalho coletivo, da gestão democrática e da integração entre os integrantes.

Também aparecem como resultados relevantes o fortalecimento do compromisso social, o aumento da consciência política e melhorias para as comunidades onde os empreendimentos estão inseridos.

Para a Cáritas Regional Minas Gerais, o diagnóstico reforça que a economia solidária permanece como uma importante estratégia de geração de trabalho, renda e organização comunitária. 

Além de produzir um panorama atualizado sobre o setor, o estudo dará origem a novas pesquisas desenvolvidas em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), por meio da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-UFV), para ampliar o conhecimento sobre a realidade dos empreendimentos e subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da EPS.

Fonte
Brasil de Fato
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