Livro mostra o cotidiano de estudantes da Faculdade de Direito no século 19

Por Manuela Trafane*16/07/2026 às 17:520 visualizações
Ilustração do periódico Diabo Coxo, 1865 - Foto: Reprodução/Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos
Ilustração do periódico Diabo Coxo, 1865 - Foto: Reprodução/Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos
Jornal da USP

Livro mostra o cotidiano de estudantes da Faculdade de Direito no século 19

Lançado pela Editora da USP (Edusp), Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos reúne 13 narrativas curtas que revelam as experimentações surgidas nos primeiros tempos da literatura romântica

 Publicado: 16/07/2026 às 14:52

Texto: Manuela Trafane*

Arte: Livia Bortoletto**

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Ilustração publicada em 1865 no periódico Diabo Coxo – Foto: Reprodução/livro Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos

Não é um romance, narração histórica ou coisa semelhante, o que nos propomos a escrever – são, sim, quadros diversos (sem nexo lógico entre si) da vida acadêmica, que havemos experimentado nos seus dissabores, que não são raros, e nas suas alegrias e lado poético, que, em compensação, se prestam a pinturas assaz curiosas e interessantes

Esse é um trecho de um dos 13 contos escritos no século 19 por estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo – hoje ligada à USP –, reunidos no livro Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos, organizado por Natália Gonçalves de Souza Santos, que a Editora da USP (Edusp) acaba de lançar. A maioria dos textos selecionados é anônima, mas há contos escritos por então alunos que depois se tornariam famosos, como José Vieira Couto de Magalhães e Fagundes Varela. A obra traz imagens publicadas na época, que ilustram aspectos das narrativas.

Diferente dos estudantes europeus, que tinham comodidades luxuosas e muitos divertimentos, os alunos paulistanos moravam em repúblicas – moradias compartilhadas entre jovens universitários, focadas na convivência comunitária –, onde a conversação era “um elemento da vida moral” que supria o tédio entre as aulas, como dito no livro. O contexto acadêmico era marcado por uma atmosfera que unia a juventude no ócio vivido na “pequena São Paulo” – na época, ainda uma diminuta cidade imperial de ares provincianos e de pouca urbanização. 

Nesse contexto surgiu um novo “estilo literário”, o conto acadêmico, narrativa breve escrita por estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, publicadas em jornais estudantis entre 1840 e 1860. Muitas vezes não assinados, esses textos retratavam o cotidiano desses universitários, com toques satíricos. 

“O aparecimento do tipo literário ‘estudante’ e, sobretudo, ‘bacharel em Direito’ aponta para o anseio de um País que deseja se civilizar, em bases contraditórias”, afirma Natália Santos, em entrevista ao Jornal da USP. “Parece-me que os contos, para além de demarcarem essa identidade discente, buscam pensar o lugar desse jovem que tem contato com leituras progressistas dentro de um cenário conservador e de que forma ele exercerá sua função diante disso.”

De calouros a veteranos

A ordem em que os contos estão publicados no livro imita os estágios vividos pelo estudante da época: a obra inicia com narrativas que descrevem a chegada à faculdade e finaliza com histórias daqueles alunos prestes a se formar e a entrar no mercado de trabalho. O conto anônimo de abertura, “Páginas de Um Caderno”, por exemplo, conta a jornada de um rapaz que, montado num cavalo, faz a viagem entre Santos, no litoral paulista, e São Paulo. 

Nessa viagem, ele enfrenta tempo ruim, com muita chuva. Sem dormir há dois dias, o rapaz começa a caçoar dos escritores da sua época, que descrevem viagens perfeitas. “Tudo isso é belo, dizeis vós. Julgais que os sonhos do poeta devem aparecer-lhes aí mais vivos e animados do que nunca. Enganai-vos. Em primeiro lugar, o cavalo em que vindes montado é cego de um olho”, afirma. “Portanto, começais a poetizar. A serra, os nevoeiros, tudo é belo, dizeis vós, e, quando começais a primeira nota de vosso canto, o cavalo tropeça, legais um choque pouco romântico – dizes, sem querer, ‘arrediabo’ e seguis.”

O tom crítico da peça é uma característica do movimento literário da época, o romantismo, lembra Natália Santos. Apesar desse movimento ser definido por seu teor confessional e melodramático, a autora chama a atenção para outro lado dos escritores do período: a “autoaversão” ao romantismo. Segundo ela, os escritores investiam “numa espécie de denúncia dos fins estéticos disfarçados no objeto artístico” por meio do humor.

Capa do livro "Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos", de Natália Gonçalves de Souza Santos, que a Editora da USP acaba de publicar -
Capa do livro "Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos", de Natália Gonçalves de Souza Santos, que a Editora da USP acaba de publicar - — Divulgação/Edusp
Capa do livro "Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos", de Natália Gonçalves de Souza Santos, que a Editora da USP acaba de publicar - Foto: Divulgação/Edusp

Isso pode ser observado em outro conto presente no livro, “Traços da Minha Vida de Estudante”, também anônimo. “Só não simpatizo com o tal romântico. Ora, dizer o seu autor que a Religião, a Poesia e a delicadeza no amor são os distintivos do romântico! Não tem jeito. Forte exotismo. Como se o romântico não fosse o tipo do maravilhoso, do extravagante, do verdadeiramente afundado em tudo quanto crápula e horrorosamente cínico!”, diz o personagem principal do conto a um de seus colegas, logo antes de um jogo de cartas na república.

Já o conto “Um Passeio à Tarde: a Uma Jovem Resendense” se afasta da vida social e foca nas divagações interiores de um aluno triste, com saudades de sua família e de sua cidade natal. Aproximava-se a data final de entrega dos trabalhos acadêmicos, o que significava que ele logo poderia distrair seus lamentos. “Saí, pois ao acaso, e o acaso conduziu-me a um sítio tão belo, tão majestoso, que de feito julguei nele encontrar o alívio que procurava à minha dor”, escreve o autor anônimo do texto. 

Nos últimos contos da coletânea, a perspectiva muda. Neles, destaca-se “o final da condição de estudante e a perspectiva da formatura, que traz consigo a vida real”. Em “Nininha”, Júlio, no último ano do curso, está farto das rotinas acadêmicas e está pronto para o próximo passo, quando conhece a mulher que dá nome à história. “Nininha era a fragilidade em carne e osso: edição em estereótipo de Eva, a prímeira mulher que provou do fruto proibido”, escreve o autor, que se identifica apenas como M… “Se eu fosse fantasista, diria que Nininha era um raio da estrela Vênus: como não sou, emito minha humilde opinião em estilo rasteiro: Nininha era bonita.”

Traços da estética romântica antes de Machado de Assis

Natália Santos ressalta que o contato com esses contos pode causar estranhamento no início, porque não são similares aos contos modernos. Segundo ela, a forma narrativa de hoje, que vai direto ao ponto e tem cortes “rigorosos” no final, surge depois da popularização da obra de Machado de Assis (1839–1908), que cria uma técnica e um estilo adotado por seus contemporâneos. Nos textos reunidos em Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos, isso ainda não era regra.

“Os contos acadêmicos permitem pensar nas primeiras tentativas da escrita curta no Brasil”, considera Natália Santos. “Em geral, os estudos literários focam na produção de Machado de Assis, concebendo o que vem antes como mero esboço. Mas várias experimentações podem ser observadas nesse momento, o que é importante para a proposta de originalidade do Romantismo.”

Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos, de Natália Gonçalves de Souza Santos, Editora da USP (Edusp), 208 páginas, R$ 50,00

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Litografia de 1839: Vista da Cidade de São Paulo, de Richard e Van Ingen Snyder – Foto: Reprodução/livro Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos

"A natureza estava insuportável nesse dia"

Leia a seguir trechos do conto “A Comédia do Ridículo”, publicado em 1863 e 1864 por Fagundes Varela, que iniciou os estudos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, hoje ligada à USP, em 1862, mas não chegou a se formar. A íntegra do conto está publicada no livro Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos, de Natália Gonçalves de Souza Santos, publicado pela Editora da USP (Edusp).

Não sei como isto sucedeu; o caso é que eu estava triste, aborrecido, macerado e indigesto de tanta poesia sentimental, elegíaca, descrente e lamuriosa, e de tanto romance cético, ateu, báquico e sedicioso. Saí de casa um pouco escandalizado com os meus botins e colarinhos: com os primeiros, porque machucavam-me os calcanhares; com os segundos, porque beliscavam-me o pescoço. Principiei a vaguear pelo campo. Depois a natureza… Oh! a natureza!… Estava insuportável nesse dia! As campinas plácidas e risonhas lembravam-me as bem-aventuradas bochechas de um vendilhão; o sol, um gordo proprietário visitando seus inquilinos; os passarinhos, uma orquestra de barbeiros, que sempre tocam a mesma coisa, sem variar uma nota! Saquei da algibeira um célebre cachimbo alemão e um pedaço de ópio, únicas relíquias de meus tempos hoffmânnicos, e assentei de fazer, ao menos por uma hora, o papel de mandarim. Daí a pouco tempo, creio que dormia como um vigário depois do jantar.

Uma sonata deliciosa de instrumentos estranhos arrancou-me de meu estado canônico. Abri os olhos, e confesso que fiquei pasmo, estúpido! Estava em um belo aposento forrado de cetim azul-celeste; uma nuvem, suave dos mais doces perfumes, erguia-se dos braseiros de prata e ia lamber o teto dourado de onde pendiam riquíssimas lâmpadas; uma claridade tépida e mole rompia a medo as longas cortinas de damasco alaranjado, e derramava pelo recinto um lânguido ar misterioso. Meu corpo descansava em um leito de sândalo entre finas coberturas de veludo e cetim, minha cabeça repousava sobre almofadas de arminho, embebidas de suavíssimos aromas. Julguei sonhar… tornei a cerrar os olhos e voltei-me para o outro lado. Um ligeiro toque sobre o rosto, uma esponja de vinagre nas ventas me fez espirrar; abri de novo as pálpebras e vi diante de mim um amável, nédio e bem-educado negralhão, de calças à turca, turbante e alfanje ao lado: – Que queres, maroto? perguntei agastado. – Res-peitabilíssimo poeta, respondeu-me o etíope, sou Mesrour, chefe dos eunucos do califa Haroun-al-Raschid; venho despertar-vos, porque a mesquita já chama os crentes à oração. – Retira-te, biltre! Sem dúvida teu amo quer fazer comigo o mesmo que fez com esse pobre Abou-Assan, o dormente acordado?!
 
– Não, estimável senhor, retorquiu o negro, o califa já perdeu essas fantasias, hoje é um homem sério e grave como um kalender; erguei-vos, a madrugada é fresca, vinde gozar do esplêndido panorama de Bagdá e ouvir as melodiosas cantilenas dos pescadores do Tigre. – Seja, respondi com toda a dignidade. – O chefe dos eunucos bateu palmas e cinco lindas mulheres trajadas à oriental, mais lindas que as huris’ do profeta, precipitaram-se no aposento.

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

**Estagiária sob supervisão de Simone Gomes


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