Uma nova pesquisa publicada na plataforma BioRxiv, ainda sem revisão por pares, apresenta avanços na edição genética de embriões por meio da tecnologia conhecida como prime editing. Segundo a professora Mayana Zatz, a técnica representa um importante passo para a correção de mutações responsáveis por doenças hereditárias, por permitir alterações mais precisas no DNA e reduzir os riscos observados em métodos anteriores.
Apesar do potencial terapêutico, o avanço reacende discussões éticas. Bioeticistas temem que a tecnologia possa extrapolar o tratamento de doenças e ser utilizada para tentar modificar características físicas ou cognitivas dos futuros indivíduos. O debate é reforçado pelo histórico do cientista chinês He Jiankui, que editou genes de embriões para torná-los resistentes ao HIV, experiência amplamente condenada pela comunidade científica devido aos riscos imprevisíveis das alterações genéticas.
Mayana explica que o prime editing já demonstrou resultados promissores em genes relacionados ao controle do colesterol e a doenças hematológicas, como anemia falciforme e talassemia. Ainda assim, persistem desafios técnicos, como o chamado mosaicismo, situação em que apenas parte das células recebe a edição genética, comprometendo a eficácia do tratamento, sobretudo em indivíduos adultos.
A pesquisadora destaca que a edição de embriões poderia beneficiar casais que não conseguem obter, por fertilização assistida, embriões livres de mutações graves. “A possibilidade de alterar o gene defeituoso, ao invés de descartar os embriões com esses genes, seria fantástico”, afirma Mayana Zatz. Ao mesmo tempo, ela ressalta que a criação de “bebês sob medida” permanece inviável com o conhecimento científico atual, já que características como inteligência e aptidão esportiva dependem da interação de inúmeros genes com fatores ambientais.